Números não mentem: pesquisas mostram que demonizar as bets não dá voto — mas o discurso eleitoral ignora os dados

Apostas I 11.09.26

Por: Magno José

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Números não mentem: pesquisas mostram que demonizar as bets não dá voto — mas o discurso eleitoral ignora os dados
Pesquisa da More in Common/Ipsos-Ipec aponta que 58% do eleitorado brasileiro não muda de voto por causa das bets, e a da Cruz Consulting/ANJL, junto aos beneficiários de programas sociais, mostra que a rejeição ao tema como critério de voto sobe para 68,1%

A menos de um mês das eleições, apostas esportivas online viraram um dos inimigos preferidos do discurso político brasileiro. Presidenciáveis, senadores e deputados de espectros ideológicos opostos encontraram no ataque às bets um raro consenso de campanha — do PSTU à direita bolsonarista, passando pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. O problema é que os números de pesquisa mostram um descompasso relevante entre a aposta retórica desses candidatos e o que realmente move o voto do eleitor brasileiro.

More in Common/Ipsos-Ipec: 58% do eleitorado brasileiro não muda de voto por causa das bets

O levantamento mais robusto sobre o tema é da More in Common em parceria com a Ipsos-Ipec, realizado entre 4 e 8 de julho com 2 mil pessoas ouvidas presencialmente em 130 municípios (margem de erro de 2 pontos percentuais). A pergunta central era direta: defender restrições às bets mudaria a disposição do eleitor de votar em um candidato?

A resposta desmonta a aposta política:

58% dizem que a posição de um candidato sobre restringir as bets não mudaria sua decisão de voto;

24% afirmam que teriam mais vontade de votar em quem defende restrição;

12% teriam menos vontade de votar nesse candidato;

7% não souberam responder.

Somados, os dois primeiros grupos — indiferença e rejeição à pauta como critério de voto — chegam a 70% do eleitorado. E o dado fica ainda mais sólido quando se olha para dentro dele: segundo o próprio BNLData apurou a partir do levantamento, esse padrão de 58% de indiferença se manteve estável em todas as segmentações analisadas — gênero, idade, escolaridade, renda familiar, raça, religião e intenção de voto. As variações entre esses grupos ficaram todas dentro da margem de erro. Ou seja: não é um efeito de bolha específica de um nicho eleitoral. É transversal.

Isso não significa que o tema seja irrelevante para a percepção pública sobre o setor — pelo contrário. A mesma pesquisa mostra um eleitorado com desconfiança real das bets: outro levantamento citado na cobertura eleitoral, da AtlasIntel (Latam Pulse Brasil), aponta que a grande maioria dos brasileiros vê as apostas online como nocivas à sociedade, com o Estadão registrando que 86,7% consideram as bets prejudiciais. Há, portanto, um déficit reputacional real e mensurável. O que os dados desmontam é a suposição de que criticar publicamente as bets se converte em voto adicional relevante — a rejeição de imagem não se traduz automaticamente em prêmio eleitoral para quem promete restringi-las.

Cruz Consulting/ANJL: entre beneficiários de programas sociais, rejeição ao tema como critério de voto sobe para 68,1%

Divulgada nesta quarta-feira (9/9), uma pesquisa da Cruz Consulting, encomendada pela ANJL, ouviu beneficiários de programas sociais do governo federal nas 39 cidades da Região Metropolitana de São Paulo, nos dias 3 e 4 de setembro. A escolha do público entrevistado não é incidental: beneficiários de programas sociais são justamente o grupo que o discurso político e estudos como o do TCU (que apontou R$ 3,7 bilhões de recursos do Bolsa Família destinados a apostas só em janeiro de 2025) colocam no centro do argumento contra as bets. E é exatamente nesse grupo que os dados desmontam parte da narrativa:

83,47% dos entrevistados nunca utilizaram plataformas de apostas esportivas;

12,63% já apostaram, mas não usam mais as plataformas atualmente;

⇒ apenas 3,9% ainda fazem uso das bets hoje.

Entre os que já apostaram, o levantamento também mediu como saíram do mercado regulado: 5,49% foram bloqueados pelo governo federal e 21,97% solicitaram voluntariamente a autoexclusão. E é aqui que aparece o dado mais delicado da pesquisa para o debate público: 20% dos entrevistados que foram retirados das plataformas legais — seja por bloqueio governamental, seja por autoexclusão voluntária — afirmaram ter migrado para bets clandestinas, que operam sem qualquer autorização do Ministério da Fazenda. Ou seja: mecanismos de proteção que deveriam afastar a pessoa do jogo, quando aplicados sem uma política equivalente de combate ao mercado ilegal, correm o risco de apenas trocar o apostador de prateleira — tirando-o da vitrine regulada, com seus limites, alertas e rastreabilidade, e empurrando-o para operadores sem qualquer controle.

Sobre a intenção de voto, a pesquisa perguntou especificamente aos entrevistados que já apostaram ou ainda apostam se a posição de um candidato à Presidência sobre autorizar ou não as bets mudaria sua escolha eleitoral. O resultado é ainda mais contundente que a média nacional: 68,1% disseram que essa posição não mudaria seu voto — 10 pontos percentuais acima dos 58% medidos pela More in Common/Ipsos-Ipec entre o eleitorado brasileiro em geral.

A convergência entre dois levantamentos com metodologias, públicos-alvo e patrocinadores diferentes — um nacional e amplo (More in Common/Ipsos-Ipec), outro focado em beneficiários de programas sociais na Grande São Paulo (Cruz Consulting/ANJL) — chegando à mesma conclusão fortalece o achado: não é ruído estatístico de uma única pesquisa, é um padrão que se repete, e que se intensifica justamente no público que os candidatos mais dizem querer proteger.

Para o presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge, os números pedem cautela com generalizações: “Quando falamos de endividamento, precisamos observar os números com cuidado e evitar generalizações. O endividamento das famílias brasileiras é um fenômeno complexo, que não pode ser automaticamente atribuído às apostas. A pesquisa mostra que a grande maioria dos beneficiários de programas sociais entrevistados nunca utilizou plataformas de apostas.” Sobre a migração para o mercado ilegal, ele defendeu que o dado “mostra a importância de combinar mecanismos de proteção ao apostador com o combate permanente às plataformas clandestinas” — um recado direto para propostas de campanha que apostam na proibição ou no bloqueio como solução isolada, sem uma política equivalente de fiscalização do mercado clandestino.

O discurso eleitoral, no entanto, não mudou

Apesar dos dados, o tema das bets se consolidou como bandeira de campanha em praticamente todo o espectro político:

Lula (PT), candidato à reeleição, endureceu o tom nas últimas semanas. Em entrevista a podcasts em 14 de agosto, disse que, “se ninguém [lhe] mostrar uma razão social” para as bets continuarem, o governo “tem que acabar com elas”. Segundo reportagem do próprio BNLData, o Palácio do Planalto chegou a preparar uma medida provisória contra as apostas online sob pressão de pesquisas internas de popularidade — a menos de 30 dias da eleição —, ignorando que, historicamente, a proibição desloca a atividade para o mercado ilegal em vez de eliminá-la.

Romeu Zema (Novo) publicou nas redes sociais que “uma indústria não pode lucrar às custas do sofrimento de tantas famílias”.

Ronaldo Caiado (PSD) prometeu inibir a publicidade das apostas e endurecer a fiscalização sobre movimentações financeiras de casas de apostas e fintechs.

Augusto Cury (Avante) defende taxar o setor em mais de 50% para desestimular a atividade, sem detalhar a alíquota final.

Fernando Haddad (PT), na disputa pelo governo de São Paulo, atacou o adversário Tarcísio de Freitas dizendo que “Bolsonaro ficou quatro anos sem fazer nada a respeito, e isso virou uma indústria”.

⇒ À esquerda do espectro, PSTU, PCB e Unidade Popular (UP) defendem o banimento total das plataformas — os dois primeiros somam a isso a proposta de expropriação dos ativos das empresas.

⇒ Segundo mapeamento publicado pela Folha de S.Paulo e replicado pelo BNLData, quatro dos principais candidatos à Presidência defendem a proibição total das bets, sem que nenhum deles explique como o governo compensaria a perda fiscal.

O tamanho do que está em jogo — e que nenhum candidato explica

É aqui que o descompasso vira contradição fiscal. A arrecadação do setor regulado somou R$ 12,2 bilhões em 2025 — receita de outorgas (R$ 30 milhões pagos por cada uma das 85 empresas autorizadas), impostos e contribuições sobre uma atividade que movimentou R$ 220,6 bilhões e faturou R$ 36,9 bilhões no ano. Nenhum dos quatro presidenciáveis que defendem o banimento total apresentou um plano de reposição dessa receita.

A contradição fica mais evidente quando se olha para dentro do próprio governo que lidera o discurso mais duro contra o setor: segundo análise do BNLData, o mesmo governo que ameaça proibir as bets projeta bilhões de arrecadação vindos delas no Orçamento de 2027 — uma comparação entre a Lei Orçamentária de 2026 (LOA) e o Projeto de Lei Orçamentária de 2027 (PLOA) mostra queda de 7,2% nas quatro linhas orçamentárias específicas do setor, mesmo com o aumento da receita real, num movimento que torna a participação do setor menos visível nas contas públicas justamente no ano em que o discurso de campanha é mais hostil a ele.

Há ainda uma segunda contradição, de ordem simbólica, levantada em editorial recente do próprio BNLData: em 2025, as loterias da Caixa devolveram R$ 13,2 bilhões à sociedade por meio de destinações sociais, enquanto os operadores de bets devolveram R$ 14,45 bilhões aos cofres públicos em tributos — uma cifra superior. Ainda assim, apenas um dos dois é tratado como vilão pela sociedade, pelos atores políticos, pela mídia e até pelo presidente da República.

Por que o discurso persiste mesmo contrariando os dados

A pesquisa não diz que o eleitor gosta das bets — diz que ele não vota nisso. São coisas diferentes, e a diferença importa para entender por que candidatos continuam investindo na pauta mesmo sem retorno eleitoral comprovado:

Consenso de baixo risco

Atacar as bets é uma posição que não custa apoio de nenhum grupo relevante identificado na pesquisa — nenhuma segmentação demográfica mostrou reação contrária significativa. Um discurso sem custo político aparente tende a ser repetido mesmo com ganho marginal, porque o pior cenário (12% de rejeição) ainda é menor que o de qualquer pauta genuinamente polarizadora.

Sinalização para bases específicas, não para a maioria

Embora a média nacional mostre indiferença, é possível que o tema tenha peso desproporcional dentro de nichos organizados — igrejas evangélicas, movimentos de defesa do consumidor, entidades de saúde mental —, que pautam a cobertura midiática e a pressão política mesmo sem representar a maioria do eleitorado.

Percepção de crise x comportamento eleitoral

O fato de 86,7% enxergarem as bets como nocivas cria um ambiente de opinião pública favorável ao discurso duro, mesmo que essa mesma opinião não se converta em critério de escolha de candidato — as pessoas podem reprovar as apostas e, ainda assim, decidir seu voto por completo em outros fatores (emprego, segurança, saúde).

Pressão de pesquisas internas de curto prazo

O caso do Planalto, que reportagens do BNLData associam à queda de popularidade do presidente, sugere que o cálculo eleitoral por trás do endurecimento do discurso é mais sobre gestão de imagem em um momento de fragilidade do que sobre evidência de ganho de voto líquido.

O alerta aos candidatos

A tese é simples e os números a sustentam: demonizar as bets não é uma estratégia eleitoral vencedora — é, na melhor das hipóteses, neutra, e carrega um custo fiscal e regulatório real que nenhum candidato até agora quantificou publicamente. Prometer proibição total sem explicar de onde viria a reposição de R$ 12,2 bilhões em arrecadação é uma lacuna que a cobertura jornalística — e, eventualmente, o próprio eleitor mais atento — tende a cobrar assim que a promessa de campanha precisar virar política de governo.

Para o eleitorado, o discurso anti-bets rende, no máximo, indiferença. Para o caixa público, rende um buraco fiscal ainda sem solução apresentada. Números não mentem — e, ao que tudo indica, também não se emocionam com discurso de palanque.

 

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