O Brasil na contramão de seus vizinhos

Opinião I 01.10.26

Por: Magno José

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O Brasil na contramão de seus vizinhos
Artigo de Thiago Iusim mostra que enquanto a região aprimora mercados regulados, o país interrompe um caminho que começava a amadurecer

Há algo particularmente estranho no momento que estamos vivendo.

O Brasil passou um bom tempo discutindo a regulamentação das apostas.

Criou legislação. Estabeleceu regras. Autorizou operadores. Cobrou outorgas. Atraiu investimentos. Desenvolveu tecnologia. Formou profissionais especializados.

E, justamente quando esse mercado começava a amadurecer, decidiu interromper o processo.

Não vou voltar aqui à discussão sobre a medida provisória. Já escrevemos e falamos bastante sobre ela.

Prefiro olhar para o que está acontecendo ao nosso redor.

O Peru segue desenvolvendo e aperfeiçoando seu mercado regulado.

O Equador avança na estruturação de seu modelo.

A Colômbia já opera há anos um mercado nacional regulado e consolidado.

E, na Argentina, apesar do modelo descentralizado, a maior parte das jurisdições já possui jogo online regulado e operacional.

Cada país tem sua realidade.

Nenhum modelo é perfeito.

Mas a direção importa.

Enquanto o Brasil interrompe uma estrutura que acabou de construir, outros países da região continuam fazendo uma pergunta muito mais interessante:

como podemos regular melhor?

E existe um paradoxo nessa história.

Parte da tecnologia e da expertise que participa dessas discussões foi desenvolvida justamente aqui.

No próximo dia 9 de outubro, a Betshield participará do encontro Ecosistema del Juego Responsable: Regulación, Prevención y Tecnología, voltado ao mercado peruano, ao lado de Yuri Guerra Padilla, Diretor-Geral da Dirección General de Juegos de Casino y Máquinas Tragamonedas do Ministerio de Comercio Exterior y Turismo do Peru, Rodrigo Gajardo, da Pausa Responsable, e Sergio Poves, Presidente Executivo da AIGER, Asociación de iGaming Regulado y Entretenimiento Responsable.

Vamos discutir exatamente aquilo que tenho defendido há bastante tempo no Brasil: prevenção, tecnologia, monitoramento comportamental, identificação precoce de sinais de risco e uma visão integrada do mesmo apostador entre diferentes operadores.

Jogo Responsável baseado em evidências.

É difícil não perceber a ironia.

Uma tecnologia brasileira, desenvolvida a partir dos desafios de um dos maiores mercados de apostas da América Latina, participa das discussões sobre o futuro do Jogo Responsável em outros países justamente quando o Brasil decide interromper seu próprio mercado regulado.

E não digo isso porque considero o mercado brasileiro perfeito.

Tenho críticas fortes à distância entre o discurso de Jogo Responsável e sua aplicação prática.

Tenho defendido monitoramento comportamental centralizado e prevenção justamente porque acredito que havia muito a melhorar.

Mas mercados amadurecem enfrentando seus problemas.

Regulação produz conhecimento.

Fiscalização produz conhecimento.

Dados produzem conhecimento.

Erros também produzem conhecimento.

E tecnologia nasce justamente da necessidade de resolver esses erros.

Enquanto outros mercados discutem como melhorar prevenção, fiscalização e Jogo Responsável, o Brasil escolheu interromper uma experiência regulatória que ainda tinha muito a evoluir.

Talvez o desperdício não esteja apenas nos investimentos, empregos ou arrecadação.

Talvez esteja também no conhecimento que começávamos a construir.

O Peru pode aprender com nossos acertos e nossos erros.

O Equador pode incorporar soluções que nós demoramos para desenvolver.

Colômbia e Argentina podem continuar aperfeiçoando mercados que já existem.

E empresas brasileiras podem contribuir para todos esses processos.

Isso é motivo de orgulho.

E também de reflexão.

Enquanto nossos vizinhos avançam utilizando conhecimento e tecnologia desenvolvidos no Brasil, o próprio Brasil escolheu interromper o caminho que estava construindo.

Não estamos ficando para trás por falta de capacidade.

Estamos andando na contramão apesar dela.


Thiago Iusim: A verdade que a indústria precisa saber contar sobre os R$ 22 bilhões do Tigrinho 1(*) Thiago Iusim é fundador e CEO da Betshield Responsible Gaming, empresa brasileira especializada em tecnologia para Jogo Responsável no mercado regulado de apostas. A Betshield desenvolve soluções de monitoramento comportamental para identificação precoce de sinais de risco, apoio a medidas preventivas e registro de evidências operacionais.

 

 

 

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