Operação Azzardo: fintech A55 e credenciamentos estaduais no centro da investigação

A fintech paulista A55 Sociedade de Crédito Direto é o principal alvo financeiro identificado até agora na Operação Azzardo, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) na quinta-feira (5). Segundo a investigação, o dinheiro enviado por apostadores a sites sem outorga federal caía em mais de 100 contas abertas na instituição, que, com empresas do mesmo grupo, movimentou cerca de R$ 1 bilhão.
A rede investigada usava dezenas de empresas de fachada no DF e movimentou mais de R$ 730 milhões. Um dos pontos mais sensíveis do caso, porém, continua envolto em silêncio: a PCDF não revelou os nomes das três empresas que obtiveram credenciamentos nas loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro e que estão no centro da apuração.
A fintech no centro do fluxo
A A55 tem sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima e é autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto (SCD). De acordo com a PCDF, ela era destinatária de diversas cobranças Pix geradas pelos sites investigados. Parte dos valores seguia depois para empresas investigadas e para plataformas sem autorização federal, inclusive com conversão em criptoativos.
“Esta instituição financeira, duas empresas do mesmo grupo e seus dirigentes são alvos das medidas de busca e bloqueio cumpridas na operação de hoje”, informou a PCDF. O bloqueio atinge apenas os recursos próprios da sociedade e preserva as contas de clientes que não são investigados.
A instituição já estava no radar do regulador. Em 30 de julho de 2026, o Banco Central havia divulgado a intenção de cancelar sua autorização de funcionamento. Em março, a Pagsmile chegou a anunciar a compra de 49% da A55, mas o negócio foi encerrado quando a RB Holding concluiu a aquisição da fintech. Em nota, a Pagsmile afirmou não ter participação societária nem vínculo operacional com a A55.
Segundo a Revista Fórum, a A55 foi a fintech que alertou o Coaf sobre movimentações do advogado Willer Tomaz, caso acompanhado pelo BNLData. Procurada pela imprensa, a A55 não havia se manifestado até a última atualização deste texto.
Credenciamentos estaduais como verniz
A investigação atinge três empresas que obtiveram autorizações das loterias da Paraíba e do Rio de Janeiro. A PCDF descreveu o papel de cada uma, mas não divulgou os nomes:
⇒ a primeira é administrada pelo mesmo grupo que controla uma das principais concentradoras de recursos do esquema. Teve trocas frequentes de sócios e procuradores e mantinha a maior parte das contas em instituições não credenciadas pela loteria estadual. Quatro dessas contas foram abertas antes mesmo de a empresa obter a autorização;
⇒ a segunda é um consórcio autorizado apenas 15 dias depois de constituído. Entre suas integrantes estavam empresas apontadas como destinatárias de dinheiro de vítimas de estelionato e que transacionavam com as empresas de fachada de Sobradinho e Ceilândia;
⇒ a terceira aparece nos relatórios financeiros como concentradora final dos valores recolhidos pelas contas de Pix.
Segundo a PCDF, os credenciamentos estaduais não substituíam a outorga federal exigida para apostas de quota fixa, e nenhum dos sites investigados constava das permissões concedidas. As autorizações deixaram de produzir efeitos após o prazo de transição da Medida Provisória nº 1.394/2026.
O prazo de apenas 15 dias entre a constituição do consórcio e sua autorização é o dado que mais exige explicação das loterias estaduais envolvidas. Cabe à Lotep e à Loterj esclarecer quais empresas credenciadas são alvo da operação e quais critérios foram usados na análise dos pedidos.
A operação em números
A investigação começou há cinco meses, a partir de comunicações da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), antes mesmo da proibição das bets. Os sites, todos sem outorga federal, eram divulgados em redes sociais e apareciam em buscas do Google. Os pagamentos via Pix caíam em empresas sem relação declarada com apostas, como uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô em Sobradinho.
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Item |
Dado |
| Policiais mobilizados | cerca de 200, de seis unidades da Federação |
| Mandados de busca e apreensão | 50 (24 no DF) |
| Estados além do DF | SP, GO, PR, CE e RN |
| Bloqueio autorizado | até R$ 3,483 bilhões |
| Alvos do bloqueio | 64 pessoas físicas e 120 jurídicas |
| CNPJs e registros suspensos | 100 empresas e empresários individuais |
| Sigilos afastados | 82 pessoas físicas e 83 jurídicas |
| Proibição de novas contas | 90 dias |
| Criptoativos bloqueados | R$ 280 mil |
| Prisões | nenhuma nesta fase |
As empresas de fachada foram abertas entre fevereiro e julho de 2026, com capitais sociais idênticos e endereços em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Em um único lote de Ceilândia, dez delas informavam o mesmo telefone. Pessoas em situação de vulnerabilidade recebiam R$ 200 para ceder seus dados.
Os investigados podem responder por exploração de loteria não autorizada, estelionato mediante fraude eletrônica, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os próximos passos são identificar os verdadeiros donos das empresas e rastrear o destino final do dinheiro.
O caso mostra que o mercado ilegal já operava em larga escala antes da MP 1.394 e que foi a estrutura de fiscalização criada pela regulação, por meio da SPA, que permitiu identificá-lo. O jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível.


