PF cria divisão contra apostas ilegais e manipulação de resultados

Apostas I 03.10.26

Por: Magno José

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Polícia Federal institui 'Base Apostas' para combater manipulação de resultados esportivos
Reestruturação de diretoria da corporação já foi avaliada por Lula e terá custo mensal de R$ 44,9 mil para combater o crime organizado

A Polícia Federal vai criar uma divisão dedicada ao combate às apostas ilegais no país. A reformulação de uma das diretorias da corporação já recebeu o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo integrantes do governo.

A proposta foi revelada pela Folha de S.Paulo com base em documento interno da PF formalizado pelo diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública nesta sexta-feira (25/9). O pedido foi enviado no mesmo dia em que Lula assinou uma medida provisória (MP) para tornar ilegal a exploração de apostas de quota fixa, conhecidas como bets.

A reestruturação prevê, além da divisão de repressão a apostas ilegais, uma unidade específica para combater a manipulação de resultados esportivos e estruturas voltadas à investigação do uso de criptomoedas em esquemas de lavagem de dinheiro. O custo financeiro mensal estimado para a criação das novas estruturas é de R$ 44,9 mil.

Estrutura prevista

O centro da reorganização é a criação da Coordenação-Geral de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos (CGLA), vinculada à Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor). Dentro da CGLA, o organograma inclui uma Coordenação de Inteligência Financeira e Lavagem de Dinheiro, com um serviço específico para investigar crimes envolvendo ativos virtuais, e uma Coordenação de Recuperação de Ativos, voltada à investigação patrimonial e à gestão, alienação e destinação de bens ligados a crimes.

Também estão previstos a criação da Divisão de Repressão a Apostas Ilegais e da Divisão de Repressão à Manipulação de Resultados Esportivos. Ao todo, o plano contempla 17 novas unidades administrativas, com o aproveitamento de três estruturas já existentes, hoje vinculadas à Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro (CGRC).

No documento enviado ao Ministério da Justiça, Andrei Rodrigues afirmou que a reorganização tem como objetivo “fortalecer a capacidade institucional da Polícia Federal para o enfrentamento econômico ao crime organizado, mediante a integração, em estrutura central especializada, da repressão à lavagem de dinheiro, da inteligência financeira, da investigação patrimonial e da recuperação de ativos, além do enfrentamento das apostas ilegais e da manipulação de resultados esportivos”.

Contexto da decisão

A repressão às bets ilegais passou a ser uma das principais preocupações do Executivo depois que Lula optou pela proibição total da atividade. O presidente chegou a considerar uma alternativa intermediária, que vedaria apenas os cassinos online e endureceria regras de publicidade para as casas de apostas. A opção pelo veto completo a todas as modalidades de bets e cassinos online foi vista por auxiliares como uma decisão de alto risco; eventual falha na fiscalização das plataformas ilegais poderia desgastar o governo diante da população.

As apostas online foram autorizadas no governo Michel Temer (2016-2018) e atravessaram o governo Jair Bolsonaro (2019-2022) sem regulamentação. Em 2024, o governo Lula decidiu regulamentar o setor, passando a cobrar impostos das empresas do segmento. A MP assinada nesta sexta-feira (25/9) representou uma reversão dessa política.

Em maio deste ano, às vésperas da Copa do Mundo, a PF já havia criado um grupo temporário para investigar manipulação de resultados, fraudes em apostas e bets ilegais. A nova estrutura prevista pela corporação representa uma reformulação mais duradoura e sinaliza maior prioridade institucional ao tema.

Operações e bloqueios

Na terça-feira (29/9), o Ministério da Justiça informou ter solicitado o bloqueio de 5.209 sites de apostas que passaram a operar ilegalmente após a MP. A pasta também informou que a PF investiga há três anos esquemas relacionados a apostas ilegais e à manipulação de resultados esportivos.

Entre março de 2023 e agosto de 2026, a corporação deflagrou 12 operações ligadas a essas práticas. As ações resultaram na expedição de ao menos 73 mandados de busca e apreensão e 15 mandados de prisão, alcançando investigados em Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraíba e Distrito Federal.

No mesmo período, a PF pediu à Justiça o sequestro de R$ 4,17 bilhões em bens e valores relacionados às investigações. A corporação também integra uma força-tarefa da Interpol voltada ao combate à manipulação de resultados esportivos, por meio da qual troca informações e metodologias de investigação com outros países. Em 2025, a PF apreendeu R$ 71 milhões em criptomoedas usadas pelo crime, ante R$ 11,1 milhões no ano anterior, embora quadrilhas movimentem dezenas de bilhões de reais nessa modalidade.

 

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