Plataformas de apostas clandestinas operam livremente no país, revela estudo

Plataformas clandestinas de apostas seguem em operação enquanto sites autorizados se preparam para sair do ar. A medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (25/9) proíbe novos depósitos em empresas licenciadas e determina que seus sites e aplicativos sejam desativados a partir desta terça-feira (6/10).
A reportagem da Veja registrou em vídeo apostas realizadas em uma plataforma apontada como irregular. O teste expõe uma lacuna no mercado: enquanto operadoras autorizadas cumprem as restrições, sites clandestinos continuam recebendo dinheiro normalmente.
A Veja depositou R$ 20 em uma dessas plataformas, jogou no Tigrinho e viu o saldo cair para R$ 0,27 em menos de meia hora. O Tigrinho, nome popular do Fortune Tiger, é um caça-níquel virtual que integra a lista de jogos online incluídos na proibição. Em cada rodada, o apostador paga, vê o resultado em segundos e pode jogar novamente de imediato. O jogo ganhou visibilidade nas redes sociais, onde influenciadores foram investigados por divulgar plataformas ilegais com promessas enganosas de ganhos.
A reportagem também registrou apostas abertas para o amistoso entre Brasil e Austrália, disputado nesta terça-feira (29/9). Um dos sites exibia diferentes resultados possíveis e os valores a receber em caso de acerto. Em outro momento, ao retornar à página inicial de uma plataforma, a equipe recebeu uma oferta de bônus de R$ 0,30. Para multiplicar o valor por cinco, bastava fazer um novo depósito.
Dimensão do mercado ilegal
O cenário encontrado pela reportagem reflete uma presença clandestina expressiva que antecede a proibição. Um estudo da LCA Consultoria Econômica, encomendado pelo Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), estimou que operadores ilegais concentravam entre 38% e 44% das apostas e movimentavam entre R$ 32,9 bilhões e R$ 43,3 bilhões por ano.
Um levantamento da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) evidencia o tamanho do desafio para a fiscalização. No sábado (26/9), a entidade detectou pela primeira vez 1.689 domínios classificados como de apostas ilegais. Em 1.197 deles, confirmou uma página de apostas em funcionamento. No intervalo entre quinta-feira (24/9) e sábado (26/9), foram 4.189 domínios detectados, dos quais 1.418 tinham páginas ativas.
A ANJL forneceu à Veja exemplos de endereços que classifica como irregulares;
⇒ h2bet.games
⇒ qgbet.site
⇒ jonbet.top
⇒ betao.top
⇒ esportiva.win
⇒ vaidebet.top
⇒ betfast.games
⇒ kingpanda.win
⇒ sorteonline.site
⇒ novibet.site
⇒ bigbet.site
Alguns desses endereços usam nomes semelhantes aos de operadoras com autorização federal, como H2bet e Novibet, mas não apresentam a terminação .bet.br, exigida das empresas licenciadas para atuar no país. Segundo a ANJL, a semelhança pode confundir apostadores que buscam essas marcas.
Crítica ao governo
O consultor jurídico da ANJL e sócio do escritório Betlaw, Bernardo Cavalcanti Freire, afirma que o alcance da medida é insuficiente. “O combate ao mercado ilegal é necessário, mas não pode servir de justificativa para uma medida que transfira ao mercado regulado o custo de uma inércia estatal anterior”, declarou. Freire sustenta que o governo deveria ter intensificado a fiscalização das plataformas clandestinas enquanto as empresas autorizadas ainda operavam sob as regras federais.
O governo afirma que pretende bloquear os endereços ilegais, remover aplicativos e restringir os meios de pagamento usados por essas plataformas. Até que essas ações sejam efetivadas, os sites clandestinos continuam recebendo depósitos.


