Proibição das bets abre a porteira: quase 300 novos sites suspeitos por dia invadem o Brasil

O governo comemora o “fim das bets”. O mercado clandestino comemora mais. Nos dois primeiros dias após 25 de outubro, data em que caiu a vigência das autorizações das casas de apostas, o sistema de monitoramento LegitBet detectou 820 novos sites suspeitos voltados ao público brasileiro e confirmou 440 deles. Só em 27 de outubro foram 436 detectados e 231 confirmados, quase dez novas plataformas por hora, de madrugada a madrugada.
Os números estão em dois relatórios diários produzidos pela LegitBet e compartilhados com o BNLData pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). Eles desmontam, com dados, a promessa de que a Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em 25 de setembro, acabaria com as apostas no país. Não acabou. Apenas tirou do jogo quem pagava imposto, cumpria regras e podia ser fiscalizado.
Uma fábrica de domínios
Desde o início do monitoramento, a base da LegitBet acumula 60.477 sites suspeitos detectados, dos quais 34.134 (56%) foram confirmados pela verificação de conteúdo. Entre 23 e 27 de outubro, período em que a cobertura do sistema já estava estabilizada, foram 1.452 novos sites confirmados, média de 290 por dia.

O perfil desses endereços revela escala industrial. Em 27 de outubro, 73% dos sites confirmados tinham dígitos no nome, padrão típico de domínios gerados em série. Um mesmo nome apareceu em 11 domínios diferentes, variando apenas número, letra ou terminação. Outra família de nove endereços, numerados de 0 a 9, foi registrada entre 17h24 e 17h25. Às 18h40, dezenas de sites de uma mesma rede entraram na base no mesmo minuto. Na faixa das 18h, foram 152 detecções em uma única hora.
E não é só o que é novo. No mesmo dia, as fontes monitoradas reencontraram 272 domínios que já estavam na base, ou seja, endereços antigos que continuam circulando. Em 26 de outubro, foram 285.
A divulgação explodiu depois da MP
O dado mais eloquente está fora da contagem de sites. A LegitBet acompanha, em paralelo, quantos links suspeitos são divulgados nos canais monitorados. Entre 1º e 23 de setembro, antes da MP, a média ficou em torno de 64 links por dia, com vários dias abaixo de 50.
A virada começou em 24 de setembro, véspera da edição da medida, quando a decisão de Lula de proibir as bets já era pública. Desde então, o indicador não voltou mais ao patamar anterior. Chegou a 777 links em 17 de outubro. Nos sete dias até 26 de outubro, a média foi de 375 links por dia, quase seis vezes o nível pré-MP. Em 27 de outubro, foram 374.

A leitura é simples: com a saída das empresas autorizadas, a publicidade clandestina ocupou o espaço. Quem antes via o anúncio de uma operadora fiscalizada agora recebe, pelo Telegram, pelo Kwai ou por sites agregadores, o link de uma plataforma sem CNPJ conhecido, sem endereço e sem responsável.
Imitando marcas e a palavra “oficial”
Entre os sites confirmados nos dois dias há domínios que reproduzem nomes de marcas que operavam legalmente no Brasil até a MP, variações de nomes de casas que tinham autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF), além de endereços que usam termos como “oficial” e “brasil” para parecer legítimos. Há até domínios que pegam carona em nomes de grandes empresas de tecnologia. Não há qualquer indicação de vínculo entre essas marcas e os sites; o padrão é de exploração do vácuo deixado pelas operadoras que saíram do mercado.
Para o apostador, a armadilha é perfeita. Ele procura a casa que conhecia, encontra um endereço parecido e deposita.
A isca: PIX, CPF e bônus de R$ 1 milhão
Os elementos encontrados nas páginas mostram como o mercado clandestino se apresenta ao brasileiro. Pagamento por PIX, cadastro com CPF e celular, valores em reais, rodadas grátis e os jogos da família “Fortune”, o popular Tigrinho, aparecem em série. Bônus de depósito, prática vedada no mercado regulado, é regra. Há promessas de bônus diário de R$ 3,88 e de “até R$ 1 milhão por convite”, mecanismo que transforma o próprio apostador em recrutador de novos jogadores.
Nada disso tem as proteções que a regulamentação exigia das empresas autorizadas: verificação de identidade e de idade, ferramentas de jogo responsável, autoexclusão, limites e pagamentos apenas por conta em nome do apostador. A proibição não protegeu ninguém. Retirou a proteção que existia.
O uso do PIX também deixa uma pergunta incômoda para o Banco Central e para o Ministério da Fazenda: se os pagamentos continuam passando pelo sistema financeiro brasileiro, quem está fechando essas portas?
A conta que não fecha
Para efeito de comparação, a lista de domínios da Anatel importada pela LegitBet em 30 de setembro tinha 1.881 endereços. Desses, 1.033 eram novos para o sistema. A base de sites suspeitos confirmados pelo monitoramento privado já passa de 34 mil, e cresce em média quase 300 por dia.
O governo sustenta que o fim das bets provocaria uma “troca de mão” do dinheiro, das apostas para o consumo. Os relatórios mostram outra troca: do mercado regulado, que recolhia tributos e financiava beneficiários legais como esporte, segurança pública e saúde, para plataformas que não pagam nada, não protegem ninguém e não respondem a ninguém. Antes mesmo da MP, depois de 22 meses de regulação, o mercado ilegal ainda respondia por mais de 40% das apostas. Agora, ficou sozinho.
Como costuma repetir Magnho José, presidente do Instituto Brasileiro do Jogo Legal (IJL): “O jogo é legal ou ilegal, o não jogo é impossível.”
A MP 1.394 tranca a pauta do Congresso em 9 de novembro e perde a validade em 4 de março de 2027 se não for votada. As ações contra a medida aguardam decisão do ministro Luiz Fux no STF. Enquanto Brasília decide, o mercado clandestino não espera: abre, em média, uma nova porta a cada cinco minutos.

Como ler os números
⇒ Detectado: primeiro registro do domínio na base do monitoramento. Confirmado: a verificação de conteúdo encontrou na página as características acompanhadas pelo sistema.
⇒ Desde 5 de outubro, só contam como confirmados os sites voltados ao público brasileiro. Em 27/10, outros 82 sites com as mesmas características, voltados a outros países, ficaram de fora; em 26/10, 61.
⇒ A confirmação de 26 e 27/10 usa uma verificação revisada, mais restritiva: pelo critério anterior, seriam 278 e 336 confirmados, e não 209 e 231.
⇒ A cobertura do monitoramento foi ampliada entre 24 e 28/9 e novamente em 21 e 22/10; os picos de detecção desses dias (6.722 e 6.799 em 21 e 22/10) não medem a criação de sites e não foram usados como indicador de crescimento nesta reportagem.
⇒ Endereços de operadores autorizados, no domínio oficial reservado a eles, e a lista da Anatel não entram nas contagens.
⇒ Os relatórios classificam os sites como suspeitos e não atribuem ilegalidade, autoria ou responsabilidade a nenhum endereço; essa análise cabe às autoridades competentes. ⇒ Por isso, o BNLData não reproduz os domínios listados.
⇒ A média de links antes da MP foi calculada pelo BNLData a partir dos valores diários do gráfico do relatório (1º a 23/9).


