Proibir as apostas legais é entregar o mercado à ilegalidade

Apostas, Opinião I 26.09.26

Por: Magno José

Compartilhe:
Proibir as apostas legais é entregar o mercado à ilegalidade 1
Senhor Bingo*

Acompanho o setor de jogos desde 1994.

Vi com satisfação a chegada da regulamentação e observei como o Brasil conseguiu construir, em menos de três anos, um dos mercados de apostas mais controlados do mundo.

Agora, porém, o Governo decidiu simplesmente destruí-lo.

O argumento utilizado é o endividamento das famílias brasileiras, que hoje chega a R$ 4,7 trilhões.

Em 2025, todas as casas de apostas licenciadas, somadas, registraram R$ 36,8 bilhões em GGR — a receita bruta total do setor.

Mesmo que cada real perdido em apostas legais tivesse se transformado em dívida, isso representaria apenas 0,79% do endividamento total do Brasil.

Então, de onde vêm os outros 99,21%?

Segundo a CNC, 82% das famílias brasileiras estão endividadas. Agosto foi o sétimo mês consecutivo de recorde, atingindo o nível mais alto desde o início da série histórica, em 2010.

A principal fonte de dívida para a grande maioria dessas famílias é o cartão de crédito, cujas taxas de juros ultrapassam 400% ao ano.

O Governo também pretende acabar com os cartões de crédito?

As apostas fazem parte do problema — ninguém nega isso.

Mas elas não explicam o problema e, certamente, não justificam a destruição de um mercado inteiro, regulamentado, fiscalizado e responsável por bilhões de reais em arrecadação.

O que está sendo destruído?

O que está sendo encerrado não é algo pequeno ou irrelevante.

Cada empresa pagou R$ 30 milhões por uma licença de cinco anos.

Somente no ano passado, o setor recolheu aproximadamente R$ 10 bilhões em impostos.

Ainda assim, o Governo destina pouco mais de 1% desse valor ao combate aos problemas relacionados à ludopatia, ou seja, à dependência em jogos e apostas.

Se o Governo estivesse realmente preocupado com a ludopatia, destinaria recursos proporcionais ao tamanho do problema.

Em vez disso, arrecada bilhões, investe uma parcela irrisória em prevenção e, agora, tenta transferir toda a responsabilidade para o setor regulamentado.

Isso não é proteção social

É incoerência política.

O mercado legal abriu mão de uma parcela significativa de seus clientes justamente para proteger as pessoas que não deveriam estar apostando.

Mais de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família, do BPC, do Fies e de programas de renegociação de dívidas estão impedidos de apostar em plataformas licenciadas.

O bloqueio também alcança pessoas inscritas em programas como o Desenrola Brasil.

A verificação é feita por meio do CPF, tanto no cadastro quanto no primeiro acesso de cada dia.

As contas identificadas devem ser encerradas, com devolução dos saldos aos usuários.

Portanto, o mercado legal não apenas aceita controles rigorosos: ele já vinha aplicando mecanismos concretos para impedir o acesso de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Um dos mercados mais controlados

Abrir uma conta em uma plataforma licenciada é tão rigoroso quanto abrir uma conta bancária.

O processo pode incluir reconhecimento facial, validação de identidade e cruzamento de dados oficiais.

Além disso:

⇒ Cartões de crédito são proibidos.

⇒ O uso de criptomoedas é proibido.

⇒ Os depósitos e saques via PIX só podem ser realizados por uma conta bancária pertencente ao próprio jogador.

⇒ O CPF é verificado nas bases oficiais do Governo.

Usuários impedidos não podem abrir nem manter contas ativas.

As plataformas precisam monitorar e bloquear contas de acordo com as regras estabelecidas.

Lavar dinheiro por meio desse sistema é extremamente difícil.

O mercado ilegal, que antes representava entre 80% e 90% das apostas, havia recuado para algo entre 40% e 50%.

O mercado legal estava justamente reduzindo a participação da ilegalidade.

Agora, com a proibição, o Governo vai devolver todo o mercado às plataformas clandestinas.

A proibição fortalece o mercado ilegal

Proibir as apostas não fará com que elas desapareçam dos celulares dos brasileiros.

O jogador simplesmente migrará para sites estrangeiros e clandestinos:

⇒ sem licença;

⇒ sem pagamento de impostos;

⇒ sem fiscalização;

⇒ sem jogos certificados;

⇒ sem controle de identidade;

⇒ sem cotações auditadas.

Esse é o verdadeiro risco.

O Governo não está eliminando a demanda.

Está apenas retirando essa demanda do ambiente regulado e entregando-a diretamente ao mercado ilegal.

Na prática, a proibição pode produzir exatamente o efeito contrário ao pretendido:

⇒ menos controle;

⇒ menos transparência;

⇒ menos arrecadação;

⇒ mais exposição dos consumidores a fraudes, manipulação, lavagem de dinheiro e práticas abusivas.

As empresas estão sendo obrigadas a encerrar suas atividades imediatamente, mas continuarão sujeitas a uma série de obrigações durante cinco anos.

Tudo isso sem novas receitas e depois de terem realizado investimentos milionários para cumprir todas as exigências legais.

É uma decisão que destrói empresas, elimina empregos, afasta investimentos e pune quem cumpriu as regras.

Ao mesmo tempo, empresas multadas e operadores que não fizeram as coisas corretamente acabam sendo, na prática, beneficiados pela medida.

Quem investiu, obteve licença, pagou impostos e cumpriu a legislação é tratado da mesma forma que quem operou à margem da lei.

Isso não é justiça

É um prêmio à ilegalidade e a insegurança jurídica.

Um erro que já aconteceu. Em 2004, o Governo fechou os bingos de maneira semelhante, levando muitos empresários à falência.

Na época do fechamento, havia aproximadamente 100 mil máquinas oficiais, autorizadas e homologadas por laboratórios especializados.

Hoje, estima-se que existam cerca de 1 milhão de máquinas ilegais no país — equipamentos que podem ser manipulados e que alimentam um sistema de corrupção capaz de movimentar bilhões de reais.

O fechamento do mercado regulamentado não eliminou o jogo.

Apenas abriu espaço para o jogo clandestino.

E agora de repete o mesmo erro em uma escala ainda maior.

A realidade é simples

Quem realmente deseja combater a dependência, a fraude, a lavagem de dinheiro e a corrupção deveria fortalecer o mercado legal, ampliar a fiscalização, aumentar os recursos destinados à prevenção e punir os operadores clandestinos.

Destruir o mercado regulamentado é a solução mais fácil — e também a mais irresponsável.

O Governo não está acabando com as apostas.

Está acabando com as apostas controladas.

Está substituindo um mercado legal, identificado, tributado e fiscalizado por um mercado clandestino, anônimo e impossível de controlar.

QUEM É CONTRA O JOGO LEGAL ESTÁ, NA PRÁTICA, FORTALECENDO O JOGO ILEGAL

PROIBIR NÃO ELIMINA O JOGO. APENAS ENTREGA O MERCADO À ILEGALIDADE.


(*) Senhor Bingo é o pseudônimo de um operador do período dos bingos legalizados, que dormiu empresário e acordou criminoso no dia 21 de fevereiro de 2004.

 

Esportes da Sorte - 302 x 315Esportes da Sorte - 302 x 315 1

Compartilhe: