Selo Narrativa: O “dinheiro das bets na mesa” é uma semana de dados, sem metodologia e com a devolução dos saldos no meio

Apostas I 29.10.26

Por: Magno José

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Levantamento da ABRAS que viralizou com vídeo de Alckmin compara uma única semana de outubro, a mesma em que os apostadores sacaram seus saldos, e não isola nenhuma variável. Os dados de setembro, que saem hoje, não podem medir uma proibição que só tirou os sites do ar em 6 de outubro

A tese de que o fim das bets devolveu comida à mesa dos brasileiros tomou conta do noticiário nesta semana. Até o vice-presidente Geraldo Alckmin, amigo do presidente da ABRAS, João Galassi, gravou vídeo para as redes sociais. Nele, declarou sobre o estudo da Abras: “O dinheiro das bets está voltando pra mesa dos brasileiros”. A frase foi repetida por veículos de todo o país. Faltou uma pergunta básica: o que exatamente a ABRAS mediu?

Uma semana, não um mês

O número que viralizou não é o indicador mensal Consumo nos Lares, que a entidade apresenta nesta quinta-feira (29). Segundo a divulgação, o varejo alimentar teve alta de 6,5% no Brasil na semana de 5 a 11 de outubro de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. Os resultados foram apresentados por Galassi durante a feira Supervendas, em Aracaju.

É um recorte de sete dias, comparado com uma única semana de 2025, e transformado em tendência nacional. Para comparação, o próprio indicador mensal da ABRAS acumulou alta de 2,71% de janeiro a agosto de 2026, antes de qualquer proibição.

A semana escolhida é a da devolução dos saldos

A semana analisada coincide com o fim do prazo para os apostadores retirarem seus saldos. O cronograma do governo permitia o saque voluntário até 5 de outubro, às 23h59, e os sites deveriam sair do ar a partir do dia 6. Além disso, quem não conseguiu sacar no prazo deveria receber os valores pelas instituições financeiras entre 9 e 14 de outubro.

Ou seja, na semana medida pela ABRAS, milhões de apostadores tinham nas contas um dinheiro que estava parado nas plataformas. Não é renda nova, é estoque devolvido uma única vez. Até um veículo que defendeu a tese reconheceu o efeito: segundo o Moon BH, o cronograma de devolução dos recursos coincide com o pico de 10,6% registrado em uma das regiões.

Há ainda o calendário. Em 2026, o Dia das Crianças, 12 de outubro, caiu numa segunda-feira, o que criou um feriado prolongado logo após a semana medida. Em 2025, a data caiu num domingo. Comparar a semana anterior a um feriadão com uma semana comum do ano passado infla qualquer resultado do varejo.

A conta não fecha

O BNLData sempre adota a mesma base: o GGR oficial da SPA-MF. O setor regulado registrou R$ 36,9 bilhões em 2025 e R$ 20,07 bilhões no primeiro semestre de 2026. Isso dá cerca de R$ 3,3 bilhões por mês, ou algo como R$ 770 milhões por semana, em todo o país e em todas as modalidades.

Já os supermercados faturaram R$ 1,067 trilhão em 2024, cerca de R$ 20 bilhões por semana. Uma alta de 6,5% em uma semana equivale a mais de R$ 1,3 bilhão. Mesmo descontado o crescimento normal do setor, em torno de 2,7%, o excedente se aproxima de todo o GGR semanal das bets. Para a tese da ABRAS ser verdadeira, praticamente cada real que os apostadores deixavam nas plataformas teria migrado, já na primeira semana, para arroz, óleo, macarrão e café. Isso inclui o dinheiro que hoje vai para o mercado ilegal, que já operava com mais de 40% antes da MP e cresceu depois dela, segundo os relatórios de monitoramento.

O Pix não prova nada

A ABRAS também liga o resultado aos dados do Banco Central. Segundo a entidade, houve queda imediata de 10% no número de transações Pix quando as bets foram proibidas, hoje em 7%. A queda é esperada: os depósitos em apostas eram feitos por Pix. Mas menos transações não significam dinheiro no supermercado. A Revista Fórum, que repercutiu o estudo com simpatia, registrou que o Banco Central não atribuiu a redução das transações exclusivamente ao fim das bets, e a divulgação não traz percentuais individuais para arroz, óleo, macarrão e café.

A própria ABRAS já disse o contrário

Em 2024, o vice-presidente da entidade, Marcio Milan, afirmou que não havia números relacionando diretamente o consumo mais fraco nos supermercados ao crescimento dos gastos com apostas. Em agosto deste ano, a ABRAS atribuiu o desempenho do consumo ao mercado de trabalho e ao crescimento da renda, e não às bets. A partir de outubro, o consumo ainda recebe o Bolsa Família reajustado em 15,04%, pago de forma concentrada entre 19 e 21, além do efeito da campanha eleitoral. Nenhuma dessas variáveis foi isolada.

O que falta

A ABRAS não divulgou amostra, metodologia, base de lojas nem os números por produto. Sem isso, o estudo é uma correlação de uma semana atípica, apresentada como prova de causa. A repercussão sem checagem, amplificada por uma autoridade da República, transformou uma hipótese em fato.

Por usar números sem comprovação metodológica para sustentar uma narrativa contra o setor de apostas, o levantamento da ABRAS recebe o Selo Narrativa BNLData.

 

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