Google remove app de cassino irregular baixado 500 mil vezes após denúncia

A Google retirou de sua plataforma um programa de cassino online que operava sem permissão legal no Brasil. O aplicativo permitia apostas com dinheiro real e já havia sido baixado mais de 500 mil vezes. A exclusão ocorreu em fevereiro de 2026, após o veículo Radar Big Tech notificar a empresa sobre a irregularidade.
A situação expõe um problema mais amplo nas lojas virtuais. Levantamento realizado pelo Radar Big Tech da Tilt identificou pelo menos 162 programas que simulam cassinos online disponíveis na Google Play Store. A App Store, da Apple, hospeda outros 15 aplicativos semelhantes. Os números revelam o tamanho do desafio enfrentado pelas autoridades brasileiras no combate a jogos irregulares em ambientes digitais.
Políticas distintas entre Google e Apple
O Google passou a permitir aplicativos de casas de apostas regulamentadas em sua loja a partir de junho de 2025. A Apple mantém a proibição total dessas plataformas na App Store. As políticas diferentes entre as duas companhias criam um cenário desigual no mercado brasileiro.
A fiscalização desses serviços depende de denúncias e da capacidade das próprias empresas de tecnologia detectarem violações. Um decreto presidencial de 2024 colocou os chamados “sweeptakes” sob responsabilidade da SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) do Ministério da Fazenda. Não existe obrigação legal de registro junto à pasta para esses serviços, o que dificulta o controle sobre suas operações.
Mercado irregular movimenta bilhões
Cálculos da consultoria LCA apontam que o mercado irregular representa entre 41% e 51% de todo o setor de apostas no Brasil. Esse segmento movimenta anualmente de R$ 26 bilhões a R$ 40 bilhões. A arrecadação que deixa de ir para os cofres públicos fica entre R$ 7,2 bilhões e R$ 10,8 bilhões por ano.
Nos aplicativos irregulares, as compras de itens variam de R$ 2,49 a R$ 5.200. O programa “Tigrinho 777” permite doação entre jogadores, mecanismo que abre margem para transações realizadas fora da plataforma oficial.
Pesquisa do Instituto Locomotiva realizada em junho de 2025 mostrou que 8 em cada 10 jogadores relatam dificuldade para distinguir entre plataformas regulamentadas e irregulares. Três quartos dos apostadores afirmaram ter jogado em bets ou cassinos irregulares. A proporção é maior entre jovens e pessoas de famílias com renda de até dois salários mínimos.
Ações de fiscalização da SPA
A SPA atua em quatro frentes para combater bets e jogos online irregulares. A frente cibernética envolve detecção e bloqueio de plataformas irregulares, ação que resultou em 25 mil suspensões. A frente financeira orienta bancos brasileiros a abrir conta apenas para bets regulamentadas. A frente publicitária trabalha na remoção de propaganda de serviços irregulares. A frente regulatória busca o aprimoramento de normas.
Categorias e táticas dos aplicativos
Os aplicativos irregulares identificados utilizam denominações como “cassinos sociais”, “sweeptakes” ou “cassinos sweeptakes”. Entre os nomes encontrados estão “Tiger Drop”, “Big Time – Ganhei dinheiro”, “Hard Rock Jackpot Planet”, “Lucky Spin Slot: caça níqueis”, “Xtreme Slots Vegas Casino Game”, “HighRoller Vegas: Casino Slots”, “Tigrinho 777” e “Huuuge Casino Slots Vegas 777”.
Alguns jogos adotam táticas específicas para atrair usuários. O “Huuuge Casino Slots Vegas 777” utiliza serviços como Cointiply e Cashzine, que prometem remuneração em troca da execução de certas tarefas no mundo digital. No caso desse jogo, a tarefa consiste em chegar a níveis elevados. Usuários relatam que isso não ocorre sem a compra de moedas virtuais com dinheiro real.
Funcionamento dos cassinos sociais
A maioria dos aplicativos funciona como “cassinos sociais”, programas que reproduzem jogos de cassino como roletas e caça-níqueis. Nesses jogos, os usuários apostam e recebem moedas virtuais que não podem ser convertidas em dinheiro ou produtos. Essas plataformas também não obrigam o jogador a comprar moedas virtuais com dinheiro real para continuar jogando.
Essa característica classifica os jogos como “sweeptakes”, premiações dadas a consumidores ao acaso e sem cobrança de entrada para participar ou ganhar. Nos Estados Unidos, os “cassinos sweeptakes” funcionam como alternativa para quem quer apostar na internet em estados que proíbem cassino online. Há legislação específica para sweeptakes no país, que obriga essas plataformas a permitir alguma modalidade de jogo gratuito.
No Brasil, não há definição formal sobre sweeptakes. O decreto presidencial de 2024 que reorganizou a pasta subordinou os “sweeptakes” à SPA, mas não há obrigação legal de registro junto à pasta.
Aplicativo removido oferecia conversão em dinheiro
O “Tiger Drop” oferecia explicitamente conversão dos prêmios em dinheiro, o que o caracteriza como cassino online. Esse foi o aplicativo removido pelo Google. No Brasil, cassinos online ou casas de apostas precisam de autorização da SPA, mediante pagamento de outorga e cumprimento de regras. Os sites regulamentados possuem o “.bet.br” no endereço.
Outros serviços detectados apenas na Google Play são “cassinos sociais” que adotam formas criativas de tangibilizar os ganhos. O “Big Time – Ganhei dinheiro” faz o câmbio das fichas virtuais para criptomoedas como Iota e Solana. O “Hard Rock Jackpot Planet” troca por pontos virtuais de sua própria plataforma que podem ser convertidos em produtos.
Reclamações de usuários
Diversos “cassinos sociais” informam não permitir apostas com dinheiro real, mas vendem moedas virtuais para o jogador continuar apostando. Essa dinâmica leva apostadores a acreditar que poderão sacar as moedas virtuais recebidas.
Adrian Botelho, em comentário na Google Play sobre o jogo “Lucky Spin Slot: caça níqueis”, escreveu: “A gente ganha moedas virtuais in-game que inicialmente sugerem que poderemos converter em dinheiro, mas isso é mentira. Não há opção de saque, os desenvolvedores que ganham dinheiro por download. Esse aplicativo é enganoso, e nós caímos”.
Outra reclamação comum é que as moedas gratuitas acabam rapidamente e só é possível continuar jogando mediante pagamento. Muitos jogos são em inglês, mas na hora de comprar as moedas, o idioma muda para português. Esse é o caso do “Xtreme Slots Vegas Casino Game”.
Há usuários que compram créditos, têm o dinheiro debitado, mas não recebem as moedas virtuais, como no “HighRoller Vegas: Casino Slots”.
Riscos para apostadores
Fábio Augusto Macorin, Subsecretário de Monitoramento e Fiscalização da SPA, afirma que as bets irregulares oferecem riscos aos apostadores devido a fraudes, como dificuldade de sacar prêmios e algoritmos viciados. Há também insegurança relacionada ao descontrole de acesso e gestão de dados pessoais, além de falta de atendimento aos clientes. No caso das bets legais, é possível reclamar no consumidor.gov.
Há ainda o acesso liberado para menores de idade. Muitos aplicativos identificados pela reportagem tinham classificação “livre” e nenhuma checagem da idade dos jogadores.
Sobre a natureza jurídica da exploração irregular de jogos de azar, foi esclarecido: “A exploração ilegal de jogo de azar é uma contravenção penal. Não é um crime exatamente, mas, dependendo das suas repercussões, pode levar a crimes como crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.”
Obrigações legais das plataformas
A Lei das Bets (14.790/2023) estabelece que é dever de plataformas digitais não oferecer jogos irregulares. Apenas operadores com domínio “.bet.br” estão autorizados a funcionar legalmente no Brasil.
Duas das linhas de atuação da SPA passam diretamente pelas big techs. Há acordos de cooperação com o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) para anúncios e propagandas e com o Conselho Digital, associação que representa os interesses de Discord, Google, Kwai, Meta, OpenAI e TikTok.
Outra fonte ouvida pelo Radar Big Tech afirmou: “a priori é, elas também são responsáveis em relação a esses aplicativos”.
Críticas do setor regulamentado
Leonardo Benites, diretor da Associação Nacional de Jogos e Loterias – ANJL, criticou a situação: “Queremos – e achamos que devemos – pagar a tributação. Aí me vem uma Apple ou um Android colocando na loja o aplicativo de bet ilegal. P, é um tapa na cara de quem quer fazer coisa certa”.*
Benites também avaliou que combater apenas os aplicativos irregulares seria “enxugar gelo”. Ele defendeu: “Nenhum regulamentação vai ter a velocidade da criatividade ou da tecnologia do ilegal. Você precisa matar por inanição. Como? Meio de pagamento e marketing.” Porque, se ele não ganha dinheiro e não tem como transferir esse dinheiro, a operação não vale a pena. Vira uma decisão executiva interna dele em vez de um combate.
Mudança nas regras internas do Google
O Google alterou suas regras internas no final de 2025 para enquadrar jogos classificados como “cassinos sweepstakes” com o mesmo rigor aplicado a cassinos online e bets. A mudança deixou margem para que plataformas sejam classificadas apenas como “cassinos sociais”. A distinção entre as categorias gera questionamentos sobre a legalidade desses aplicativos disponíveis na loja digital da empresa.
Macorin, da SPA, declarou sobre os “cassinos sweepstakes”: “O ‘cassino social’ nada mais é do que o ‘sweepstakes’ e entra na mesma regulamentação que nós temos, o que joga esses aplicativos na ilegalidade, sim. Porém, as plataformas ainda não entendem muito bem.”
O Google informou em nota: “Quando identificamos aplicativos que violam nossas políticas ou que não sejam autorizados pela legislação brasileira, agimos removendo-os da loja. Qualquer usuário pode denunciar violações por meio dos nossos canais oficiais”.


