O pronunciamento do Presidente da República e o erro de leitura estratégica da indústria de apostas

Apostas, Opinião I 09.03.26

Por: Magno José

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Ano de 2026 e um recado para a indústria do iGaming 1
Joberto Porto*

Em 2026, o maior erro da indústria de apostas no Brasil não é regulatório. É estratégico. O recente pronunciamento do Presidente da República, ao associar apostas online ao endividamento das famílias brasileiras, expôs com clareza esse problema. Não se trata de um episódio isolado de retórica política, mas de um movimento calculado para enquadrar o setor dentro de uma narrativa social sensível em pleno ambiente pré-eleitoral.

A reação predominante do setor revela um problema de leitura estratégica. Em muitos círculos da indústria, o discurso foi imediatamente interpretado sob a lógica da polarização política nacional, como se a questão se resumisse a uma disputa entre esquerda e direita. Essa leitura, contudo, é superficial, pois ignora o ambiente político mais amplo no qual o tema das apostas começa a ser enquadrado.

O que começa a se consolidar é algo diferente: uma narrativa pública que passa a conectar o crescimento das apostas online a preocupações sociais mais amplas, como o endividamento das famílias e a vulnerabilidade econômica, o que é extremamente perigoso.

Quando um setor econômico passa a ser discutido sob a ótica da proteção social, a natureza do debate muda, pois a discussão deixa de girar em torno de regulamentação, tecnologia, compliance ou arrecadação tributária e passa a orbitar conceitos como proteção da família, vulnerabilidade financeira e responsabilidade do Estado.

Em política pública, esse enquadramento raramente é neutro. Ele cria o ambiente ideal para pressões legislativas, endurecimento regulatório e maior atuação de órgãos voltados à defesa do consumidor.

O problema é que a indústria ainda parece subestimar o ambiente político que começa a se formar com a aproximação do calendário eleitoral. Em ano eleitoral, setores econômicos que passam a ser associados ao endividamento das famílias inevitavelmente entram no radar da política.

O setor de apostas fala muito, mas fala quase sempre para quem já está dentro da indústria, o que revela a necessidade de maior presença institucional e de uma comunicação pública mais estruturada, algo que ainda é bastante limitado no Brasil.

Executivos, operadores e fornecedores discutem intensamente os desafios regulatórios do mercado em eventos do setor. O debate é sofisticado e os diagnósticos são conhecidos, ainda que quase sempre entre os mesmos personagens, razão pela qual raramente ultrapassa os limites da própria bolha do iGaming.

Enquanto a indústria discute regulação entre si, o enquadramento público das apostas está sendo construído em outro ambiente. Parlamentares, entidades de defesa do consumidor, especialistas em finanças pessoais, empresas do varejo e parte da imprensa passaram a tratar o tema sob a perspectiva do impacto social e do comportamento financeiro das famílias.

Nesse terreno, a discussão deixa de ser técnica e passa a ser política, haja vista que os debates políticos raramente são vencidos apenas com argumentos regulatórios.

Neste cenário há ainda um ponto que a indústria do iGaming precisa enfrentar com maior honestidade intelectual. O discurso político não está sendo construído no vazio.

Ele começa a dialogar com dados concretos que circulam no próprio mercado e que conhecemos bem. Informações sobre comportamento de usuários, padrões de consumo recorrente e estratégias de retenção fazem parte da realidade operacional do setor. Quando esses dados começam a aparecer em estudos econômicos ou reportagens, eles reforçam exatamente a narrativa que passa a ganhar força no ambiente político.

Ignorar essa convergência entre discurso público, dados econômicos e percepção social é um erro estratégico. A indústria de apostas no Brasil não enfrenta apenas um desafio regulatório, mas enfrenta um desafio de legitimidade pública.

Esse tipo de disputa não se resolve apenas com conformidade normativa ou pagamento de tributos. Pelo contrário, exige presença institucional, produção de informação qualificada e participação ativa no debate público que acontece fora da indústria.

O iGaming precisa compreender que o debate que realmente importa não está acontecendo dentro dela. Ele ocorre no espaço público, onde se formam percepções sociais, prioridades políticas e agendas legislativas. Em política regulatória, quem não disputa a narrativa pública acaba sendo regulado por ela, como já aconteceu no passado com outras indústrias.

(*) Joberto Porto é advogado, Diretor Jurídico da CDA Gaming, Lotese e Embralote.

 

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