Filosofia e mercados de previsão: quando prever o futuro é forma de fabricá-lo

Opinião I 27.07.26

Por: Magno José

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Mercados de predição e o recente estudo do FED
Eric Hadmann Jasper*

Em meados de 2009, tive a honra de ser aluno de um dos maiores filósofos do direito (à época) vivos, Joseph Raz. Israelense, Raz havia sido aluno de H.L.A. Hart em Oxford, onde mais tarde se tornaria professor, além de lecionar em Columbia, em Nova York.

Seu seminário reunia apenas quinze alunos, uma vez por semana. O formato era peculiar para um brasileiro acostumado a outra tradição pedagógica: líamos, antes da aula, um artigo acadêmico ainda não publicado, escolhido pelo próprio Raz. Discutíamos o texto com Raz e ele escrevia uma carta ao autor relatando as principais críticas. Na semana seguinte, o autor se apresentava diante da turma para uma verdadeira sabatina. Eu, como bom brasileiro, falava pouco, diante de um ambiente acadêmico que exigia um tipo de rigor ao qual eu não estava habituado. O método socrático daquelas aulas me marcou profundamente, e ainda hoje molda a forma como penso sobre problemas jurídicos e filosóficos.

Raz nunca expressava sua opinião durante a discussão. Para conhecer a opinião de Raz era preciso recorrer aos seus livros. Em um ensaio de 1998, ele escreveu algo que sempre me acompanhou:

“Pessoas podem ter uma definição se elas podem usá-la corretamente em circunstâncias normais. Ter uma definição nesse sentido é compatível com um raso e defeituoso entendimento de seus atributos essenciais, e da natureza daquilo de que se tem uma definição. [U]ma explicação filosófica tem objetivos diferentes. A filosofia parte do pressuposto que pessoas são usuários competentes de um conceito e tem por objetivo melhorar o entendimento das pessoas sobre esse conceito, por um aspecto ou outro.”

Essa distinção, entre saber usar um conceito corretamente e compreender sua natureza mais profunda, me parece especialmente útil diante do crescimento vertiginoso dos chamados mercados de previsão, ou mercados de predição, para quem prefere uma tradução mais próxima do inglês “prediction markets”. Todos sabemos usar a palavra “previsão.” Poucos param para pensar no que, exatamente, estamos fazendo quando prevemos algo.

Pequeno exercício de etimologia

Vale começar pela raiz das palavras que usamos, quase sempre sem pensar.

Previsão vem do latim praevisio: a ação de ver antes. Uma “pré-visão”, no sentido literal. Predição vem do latim praedictio: a ação de dizer antes. Já “profecia” vem do grego propheteia: proclamar, ou interpretar, a vontade divina.

Três palavras, três atos diferentes. Ainda assim, tratamos os três termos sem o devido cuidado no dia-a-dia.

As categorias de Carissa Véliz

A filósofa Carissa Véliz, professora em Oxford, dedicou um livro inteiro a desembaraçar essa confusão: “Prophecy: prediction, power, and the fight for the future, from ancient oracles to AI”. Sem pretender esgotar sua obra, algumas das categorias que ela propõe ajudam a organizar o problema.

Véliz distingue, antes de tudo, entre previsões naturais e previsões sociais. As previsões naturais dizem respeito ao mundo físico, onde a linguagem do observador não tem qualquer poder causal sobre o fenômeno observado. Dizer que vai chover amanhã não altera em nada a probabilidade de chuva.

As previsões sociais são distintas. Declarações sobre o comportamento humano ou institucional no futuro soam como constatações teóricas e meramente descritivas, mas funcionariam, segundo Véliz, mais como comandos, ordens ou veredictos que ajudam a moldar a própria realidade que descrevem. Não são apenas descrições do que vai acontecer. São atos de fala com poder de influenciar os acontecimentos.

Isso não significa, evidentemente, que toda previsão social se realiza. O otimismo excessivo, ou mesmo a má-fé, colidem com a realidade o tempo todo. Basta lembrar da Theranos, de Elizabeth Holmes, ou do Fyre Festival, de Billy McFarland e Ja Rule. Ainda assim, Véliz propõe alguns pilares para entender como as previsões sociais operam quando funcionam.

O primeiro é sua natureza prescritiva. Inspirando-se no filósofo J. L. Austin e em seu clássico “How to Do Things with Words”, Véliz argumenta que a linguagem das previsões sociais não é descritiva, no sentido de apresentar o mundo de forma neutra, como dizer “está chovendo”. Ela é prescritiva. Quando alguém afirma que “no futuro usaremos IA para tudo,” não está adivinhando o futuro. Está emitindo uma instrução disfarçada de previsão, um convite para que você aja de determinada forma e, muitas vezes, compre a tecnologia que essa mesma pessoa vende.

O segundo pilar é a capacidade causal, o que ela chama de efeito ímã, ou profecia autorrealizável. Diferente da previsão do tempo, que não altera o clima, a previsão social afeta diretamente aquilo que prevê. Ao anunciar que um país vai à falência, que uma ação vai cair de preço, ou que um aluno vai tirar nota baixa, o próprio ato de prever altera o comportamento dos agentes envolvidos, desencadeando a cadeia causal que pode produzir, ou ao menos influenciar, exatamente aquele resultado.

O terceiro pilar decorre do segundo: a previsão social se torna instrumento de poder. Quando feita por elites empresariais, políticas, ou por algoritmos de inteligência artificial, ela funciona como mecanismo de influência ainda mais potente. Se um algoritmo calcula baixa probabilidade de eu pagar um empréstimo e, com base nisso, o banco nega o crédito, o algoritmo acaba criando a própria realidade que dizia apenas prever, validando a si mesmo de forma perversa.

O quarto pilar é a irrefutabilidade. Como a previsão social se refere a um evento futuro, e frequentemente altera as condições do presente para que esse evento ocorra, ela não pode ser verificada nem refutada no momento em que é proferida. Só o tempo dirá, e quando o tempo disser, já será tarde para qualquer contestação séria.

Palavras como feitiço

Essa ideia, de que certas palavras não descrevem a realidade, mas a produzem, aparece também em outra obra: “Sapiens”, de Yuval Harari, quando o autor sugere que o sistema jurídico funciona como uma forma de magia. Uma declaração judicial não relata um fato do mundo. Ela cria um fato novo. Quando um juiz declara duas pessoas casadas, essa fala não descreve a realidade. Ela concretiza algo que, um segundo antes, não existia.

Há até uma pista etimológica curiosa aqui. Em inglês, “to spell” (soletrar, ou narrar) vem do inglês antigo spellian, que significa dizer ou narrar, derivado do germânico antigo spellan, discurso ou conversa. “To cast a spell”, lançar um feitiço, compartilha a mesma raiz, porque enfeitiçar sempre foi (ou ainda é…não sei), de alguma forma, um ato de fala. Encantar alguém era, literalmente, contar-lhe uma história com poder sobre a realidade.

A filosofia como antídoto

A filosofia grega nasceu, em boa medida, como reação à obsessão de sua época pelas profecias, pela adivinhação e pelos oráculos. Véliz sugere que a filosofia de hoje deveria cumprir papel semelhante diante dos novos oráculos algorítmicos: nos ancorar no presente, exigindo decisões baseadas em fatos e mérito, em vez de nos lançarmos à tarefa impossível de decifrar um roteiro do futuro que, muitas vezes, só existe porque alguém o anunciou primeiro.

Vale pensar nisso agora também por estarmos em ano eleitoral. Sem entrar em polêmica sobre selo de qualidade. Pesquisas de opinião ocupam exatamente esse território ambíguo entre previsão natural e previsão social. Se apresentadas como retratos neutros da intenção de voto, raramente serão recebidas como tal. Um candidato em queda vê financiamento e apoio minguarem, o que só aprofunda a queda. Um candidato em ascensão atrai justamente o tipo de adesão que projeta a ascensão para a frente. A pesquisa não apenas mede a corrida. Ela participa dela.

Talvez a lição mais simples de Véliz, Austin, Harari e do próprio Raz seja essa: antes de acreditar em qualquer previsão sobre o comportamento humano, vale perguntar se aquilo que ouvimos é mesmo uma descrição do futuro, ou uma tentativa, ainda que involuntária, de fabricá-lo.


(*) Eric Hadmann Jasper é sócio de HD Advogados e Diretor do GAME no IDP.

 

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