Endividamento não é aposta: cartão de crédito é o vilão, diz Galípolo

Opinião I 29.09.26

Por: Elaine Silva

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Endividamento não é aposta: cartão de crédito é o vilão, diz Galípolo
Vivian Graminho (*)

O endividamento das famílias brasileiras não pode ser explicado pelas apostas de quota fixa como fator isolado. Dados de diferentes fontes apontam que o problema tem raízes estruturais anteriores à legalização do setor, em janeiro de 2025, e está associado principalmente ao uso intensivo do cartão de crédito e às taxas de juros persistentemente elevadas. A análise foi publicada pelo JOTA Info.

Em novembro de 2022, 78,9% das famílias brasileiras já estavam endividadas, e as dívidas de cartão de crédito respondiam por 86,4% desse total. Em junho de 2024, o índice praticamente não se alterou: 78,8% das famílias seguiam endividadas, com a participação do cartão de crédito mantida no mesmo patamar. Os números mostram que o fenômeno do endividamento precede a operação das plataformas de apostas reguladas no país.

Em entrevista concedida nesta terça-feira (24/8), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o endividamento avança mesmo com melhora do emprego e da renda. Segundo ele, o crescimento recente das dívidas tem sido puxado por linhas de crédito voltadas ao consumo e a despesas recorrentes, e os juros do cartão de crédito seguem como principal razão do endividamento das famílias.

Inadimplência e juros em 2026

Os dados do Banco Central reforçam esse diagnóstico. Em maio de 2026, a inadimplência no crédito livre para famílias chegou a 7,6%, enquanto a taxa média de juros nessa modalidade atingiu 62,8% ao ano. O cartão de crédito rotativo mantém participação de 84,7% no endividamento das famílias. O boletim da Comsefaz aponta que a combinação de dívidas acumuladas de anos anteriores, juros persistentemente elevados e uso contínuo de modalidades de crédito de custo mais alto ajuda a explicar a alta da inadimplência no início de 2026.

Estudo da LCA apurou que o gasto líquido com apostas representa 0,46% do consumo das famílias no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O documento conclui que não há relação direta entre a legalização das apostas no Brasil e o endividamento dos brasileiros, e que o setor está longe de ser o fator determinante da crise de inadimplência.

Perfil das apostas e mercado ilegal

Levantamento da Paag, que reuniu dados de 26 operadoras autorizadas (cerca de 30% do mercado regulado), mostra que 74% das transações no segundo trimestre de 2026 foram de até R$ 50 e responderam por 23% do valor movimentado. No outro extremo, apostas acima de R$ 1.000 representaram menos de 1% das transações, mas concentraram 20% do valor total. Durante a Copa do Mundo de 2026, 6% dos brasileiros adultos apostaram em partidas do torneio; desses, 37% relataram saldo positivo, 15% disseram não ter ganho nem perdido e 48% afirmaram ter perdido dinheiro.

Um fator que permanece fora do controle regulatório é o mercado ilegal. Estimativas indicam que entre 38% e 44% das apostas no Brasil ocorrem fora do ambiente autorizado. Muitos consumidores relatam não conseguir distinguir uma plataforma regulada de uma clandestina. Plataformas ilegais não se submetem às obrigações de fiscalização nem às regras de proteção ao apostador previstas na regulamentação.

Riscos reais e respostas necessárias

O reconhecimento de que as apostas não são o principal motor do endividamento não elimina a necessidade de políticas voltadas ao setor. Para consumidores com comportamento de jogo problemático, perdas recorrentes podem agravar vulnerabilidades financeiras. A resposta pública, portanto, deve se concentrar em identificar comportamentos de risco, fiscalizar a vedação ao uso de crédito para apostas, aperfeiçoar limites de gasto e perda, fortalecer mecanismos de autoexclusão e ampliar o acesso a tratamento específico.

O enfrentamento do endividamento familiar, segundo a análise, exige distinguir correlação de causalidade e atuar de forma simultânea sobre juros, custo do crédito, renda, inadimplência e comportamentos de aposta de risco. Políticas públicas concretas, estabilidade econômica, mercado de trabalho ativo e serviços públicos funcionais são apontados como o conjunto de fatores necessários para a estabilização financeira das famílias brasileiras.

 

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