Centrão aposta em vitória de Flávio Bolsonaro para liberar bets após segundo turno

Integrantes do centrão articulam no Congresso uma modificação da medida provisória (MP) editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que proibiu as bets no Brasil. A estratégia é aguardar o resultado do segundo turno das eleições para modular a proposta e buscar um meio-termo à proibição total.
O movimento ganhou força com a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, segundo apuração da Folha de S.Paulo. O candidato do PL tem evitado defender a liberação das apostas esportivas publicamente, mas em suas declarações de campanha criticou apenas os cassinos online, o que o grupo interpreta como abertura para negociar a manutenção das apostas ligadas a eventos esportivos.
O grupo de congressistas é formado principalmente por deputados e senadores próximos a casas de apostas, à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e aos clubes de futebol. Parlamentares avaliam, no entanto, que também há espaço para negociar com Lula uma flexibilização, caso ele seja reeleito, em razão da pressão dos clubes e da mídia pela publicidade.
Emendas e articulações
O deputado Júlio Arcoverde (PP-PI), vice-presidente do clube River-PI, apresentou emenda para liberar apostas relacionadas a eventos esportivos e manter o veto aos cassinos. “Tem que ser um meio-termo. Foi uma decisão muito assoberbada do presidente Lula para ganhar votos”, declarou.
Já o deputado Bebeto (PP-RJ) protocolou quatro emendas na segunda-feira (5/10), dia seguinte ao primeiro turno, para defender o funcionamento das bets e concentrar a proibição apenas no mercado ilegal, sem autorização do Ministério da Fazenda. “É onde se concentram os riscos reais ao consumidor, à integridade esportiva e à arrecadação pública. A experiência internacional e a própria trajetória recente do Brasil mostram que a proibição ampla não elimina a demanda por apostas”, afirmou.
Representantes do setor também procuraram o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, e o deputado Dr Luizinho (PP-RJ), líder do PP na Câmara e coordenador da Frente Parlamentar do Jogo Responsável, para defender mudanças no texto da MP.
O prazo para apresentação de emendas à MP se encerrava antes do primeiro turno, mas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), o prorrogou até 13 de outubro para separar a discussão do período de campanha. A comissão que discutirá a proposta só deve ser criada em novembro.
Posição de Flávio e leitura do centrão
Na quarta-feira (7/10), questionado sobre o tema, Flávio Bolsonaro atacou Lula, chamou o petista de “pai do tigrinho” e lembrou que votou contra a MP que regulamentou as bets, mas não respondeu diretamente se apoiará a liberação das apostas esportivas. “A gente tem que fazer uma distinção muito honesta e com responsabilidade”, disse, após receber apoio de políticos do União Brasil e do PP. Em Goiânia, no dia 25 de setembro, havia afirmado: “Vai estar proibido o jogo do tigrinho e vai estar proibido o cassino online.”
Um senador e um deputado ligados à CBF avaliam que a possibilidade de vitória de Flávio aumentou as chances de modificar a MP para liberar parte das apostas, ou até de derrotar a medida integralmente após a eleição. A MP vigora por quatro meses após a publicação, mas os prazos ficam suspensos no recesso parlamentar; a votação pode ocorrer até fevereiro de 2027, já no novo governo.
Pressão fiscal e resistência interna
As empresas de bets argumentam aos políticos e ao governo que liberar apenas as apostas esportivas, sem os cassinos online, será insuficiente para manter patrocínios e arrecadação nos níveis anteriores à proibição. Apostas esportivas representam 70% do lucro das empresas, segundo o setor. Em 2025, o segmento pagou quase R$ 9 bilhões em impostos.
Caso a MP seja mantida, o governo precisará compensar essa renúncia de receita no Orçamento do próximo ano com outras medidas. Parte dos integrantes do governo reconhece nos bastidores que a medida foi precipitada e que pode levar ao crescimento do mercado ilegal, onde a maioria dos golpes ocorre e sem recolhimento de impostos. Ainda assim, avaliam que recuar seria interpretado como estelionato eleitoral, já que Lula utilizou o veto como bandeira durante a campanha.
O próprio Lula regulamentou o setor em 2023, após anos de operação sem licença e sem pagamento de impostos durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), período em que as bets se expandiram por todo o território brasileiro.


