Proibida, a aposta não some: como os chineses jogam via VPN, criptomoedas e sites nos países vizinhos

China tem uma das proibições mais rígidas do mundo, uma estrutura repressiva sem paralelo e, mesmo assim, perde cerca de 1 trilhão de yuans por ano para o jogo clandestino e para operadores no exterior, o valor equivale a cerca de 1% do PIB chinês
Quem defende a proibição total das apostas costuma ignorar o exemplo do país que levou essa política mais longe. Na China continental, o jogo é ilegal desde 1949. As únicas exceções são as loterias estatais e os cassinos de Macau e Hong Kong, que têm regime próprio. Na prática, porém, os chineses compram bilhetes das loterias oficiais, viajam com frequência para centros de jogo legalizados no exterior ou nas regiões administrativas especiais, e apostam em empresas de jogo online sediadas fora do país.
O tamanho da fuga foi admitido pelo próprio governo. Segundo Liao Jinrong, diretor de Cooperação Internacional do Ministério da Segurança Pública, pelo menos 1 trilhão de yuans (cerca de US$ 145 bilhões) saem da China todos os anos para atividades de jogo, o que agrava os riscos econômicos e financeiros do país. Liao afirmou que as quadrilhas usam moedas digitais para captar e transferir recursos, o que dificulta o rastreamento da origem do dinheiro e as investigações. Jia Kang, ex-dirigente da Academia Chinesa de Ciências Fiscais, ligada ao Ministério das Finanças, reconheceu que o valor equivale a cerca de 1% do PIB chinês.
O mercado legal: só o Estado pode vender aposta
O canal oficial é gigantesco. Em 2025, a China vendeu quase 628 bilhões de yuans (cerca de US$ 90 bilhões) em bilhetes de loteria, alta de 0,7% sobre o ano anterior, segundo o Ministério das Finanças. A China Sports Lottery respondeu por 419,39 bilhões de yuans, cerca de dois terços do total, e a Welfare Lottery somou 208,58 bilhões. Dados oficiais indicam que o país tem mais de 300 milhões de apostadores registrados.
O apetite por apostas esportivas aparece nos grandes torneios. Durante a Copa do Mundo de 2026, a venda de produtos lotéricos de futebol chegou a 6,87 bilhões de yuans entre 8 e 14 de junho, alta de 97% em relação à semana anterior.
A oferta estatal, porém, não atende toda a demanda. As cotações são menos atrativas, o portfólio é limitado e não há cassino online legal. As restrições ao jogo dentro do território chinês acabaram impulsionando sites estrangeiros e plataformas online voltadas aos cidadãos chineses.
A rota da fuga: VPN, bancos clandestinos e “laranjas”
O primeiro obstáculo é técnico. Os sites estrangeiros são bloqueados pelo Grande Firewall, e a saída mais comum é a rede privada virtual (VPN). Com VPNs, redes bancárias clandestinas e plataformas de pagamento, o apostador do continente acessa os sites de jogo e envia dinheiro a eles.
Pequim tenta fechar essa porta há anos. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação passou a exigir aprovação governamental para todos os serviços de VPN, e as operadoras estatais de telecomunicações receberam ordem de reprimir as conexões não autorizadas. Há relatos de que, em março de 2026, usuários individuais de VPN foram multados pela primeira vez de forma amplamente noticiada, na província de Hubei.
O segundo obstáculo é o dinheiro. A China tem controle rígido de capitais e proíbe transações com criptoativos desde 2021, mas as redes de apostas criaram sistemas paralelos de pagamento. Segundo a revista Caixin, o esquema chega a regiões remotas do país e envolve pequenos participantes, como trabalhadores que emprestam ou alugam seus dados bancários a grupos criminosos no exterior. Com eles, os apostadores escondem o dinheiro das autoridades, frequentemente usando a stablecoin USDT, da Tether.
Um caso de 2020 em Huizhou, na província de Guangdong, mostra como isso funciona. A polícia prendeu 76 suspeitos de operar um serviço de pagamentos que movimentava recursos de e para 120 sites de apostas e plataformas fraudulentas de investimento. A rede recrutou cerca de 3 mil “corredores”, que abriam contas e depositavam dinheiro. O apostador “comprava” um produto inexistente, o valor era debitado da conta do corredor, e depois o apostador comprava USDT com cartão bancário ou Alipay para “recarregar” essa conta.
Outra técnica usa o comércio eletrônico como fachada. Autoridades chinesas estimam, segundo o Financial Times, que cerca de US$ 2 bilhões por ano passam por alguns dos maiores sites de varejo online do país antes de chegar a operadores de apostas no exterior. O apostador paga a um lojista falso por mercadorias que não existem, e o valor equivalente é creditado em sua conta de jogo.

Os vizinhos que hospedam o jogo
Como a demanda chinesa não desapareceu, a oferta se espalhou pelos países vizinhos. O Ministério da Segurança Pública aponta Mianmar, Filipinas e outras jurisdições da Ásia-Pacífico como principais destinos do dinheiro.
As Filipinas foram o principal polo durante anos, com os POGOs (Philippine Offshore Gaming Operators). As regras do regulador filipino Pagcor proibiam transmitir jogos para países onde a atividade é ilegal, mas a maior parte da receita dos POGOs vinha de jogadores residentes na China. Sob pressão chinesa, o setor perdeu força até ser banido pelo governo de Ferdinand Marcos Jr., com encerramento previsto para o fim de 2024.
O Camboja seguiu caminho parecido. Em 2019, Pequim pediu ao Camboja e às Filipinas que encerrassem as operações online voltadas a cidadãos chineses, e o Camboja anunciou que não renovaria as licenças de jogo online vencidas em 31 de dezembro daquele ano. A atividade migrou para zonas de controle ainda mais frágil, como as regiões semiautônomas de Kokang e Myawaddy, em Mianmar, associadas a complexos de golpes online, centros de fraude cibernética e cassinos ilegais.
Pequim reagiu levando a repressão para fora de suas fronteiras. Em 2021, uma emenda ao Código Penal passou a tipificar como crime abrir ou administrar cassinos no exterior, além de organizar ou aliciar cidadãos chineses a viajar para jogar fora do país. O governo também mantém uma lista negra de destinos turísticos associados ao jogo. Neste ano, Chen Zhi, apontado como chefão de golpes e líder do Prince Group, foi preso no Camboja e extraditado para a China.

Repressão em escala industrial e resultados limitados
Os números da repressão impressionam. Em 2024, o Ministério da Segurança Pública desmontou mais de 4,5 mil plataformas ilegais de apostas online, investigou 73 mil casos de jogo transfronteiriço, desarticulou 45 grandes organizações e prendeu mais de 11 mil suspeitos.
Na Copa do Mundo de 2026, a ofensiva chegou às redes sociais. O Douyin, versão chinesa do TikTok, sinalizou mais de 400 mil contas ligadas a apostas ilegais e baniu permanentemente mais de 90 mil por promoverem apostas esportivas clandestinas. Em julho, o ministério detalhou dez casos envolvendo operações de apostas não autorizadas, agentes de sites estrangeiros, apostadores individuais e grupos de pagamento ilegal, com 29 pessoas detidas.
Mesmo assim, o problema persiste e se adapta. Como viajar ao exterior para jogar consome tempo e chama a atenção das autoridades, ganhou força a “aposta por procuração”, em que o cliente se comunica com funcionários de fone de ouvido posicionados nas mesas de bacará de cassinos estrangeiros.
As “bets chinesas” chegam ao Brasil
A repressão de Pequim fechou portas na Ásia, mas a indústria clandestina montada para atender o apostador chinês não desapareceu. Ela foi atrás de novos mercados, e o Brasil virou um dos principais. Por aqui, o fluxo já ganhou apelido: “bets chinesas”. Segundo operadores do mercado regulado ouvidos pelo BNLData, a maior parte dos sites ilegais que atendem brasileiros hoje pertence a grupos chineses ou é controlada por eles.
O modelo repete o que a polícia chinesa desmonta em casa. Uma apuração do Estadão mostrou que as “bets chinesas” usam, sem autorização, dados pessoais de brasileiros para abrir contas bancárias que movimentam o dinheiro de jogos como o “tigrinho”. Os golpistas também usam CNPJs e números de protocolo de pedidos de licença ainda não analisados para simular legalidade, e trocam periodicamente as contas de recebimento. Os “laranjas” e o pagamento disfarçado são os mesmos mecanismos de Huizhou, agora com o Pix no lugar do Alipay.
A conexão aparece também nas investigações policiais. Na operação que prendeu, em maio, o responsável por uma rede de sites ilegais que usava influenciadores para atrair apostadores, os investigadores identificaram um integrante operando a partir da China, que faturava cerca de US$ 199 mil por dia.
O peso do mercado clandestino no Brasil é alto mesmo antes da proibição. O governo federal estimava, em junho, que entre 41% e 51% das plataformas de apostas online operavam de forma ilegal no país.
A lição para o Brasil
O caso chinês desmonta a ideia de que proibir resolve. A China tem controle estatal da internet, vigilância sobre o sistema financeiro, restrição a criptoativos e cooperação policial com os vizinhos, e ainda assim admite perder o equivalente a 1% do PIB por ano para o jogo clandestino. O dinheiro não deixa de circular: passa a circular sem tributação, sem proteção ao apostador e nas mãos de organizações criminosas.
O mais irônico é que a MP nº 1.394/2026 tira de cena justamente as empresas licenciadas, que pagavam outorga, recolhiam tributos e tinham sede e CNPJ no país. Com isso, o mercado fica livre para os grupos que a China passou a última década tentando expulsar. O Brasil não tem nada parecido com o aparato repressivo chinês. Se o país mais vigiado do mundo não consegue impedir que seus cidadãos apostem em sites hospedados nos vizinhos, a medida provisória tende a entregar o apostador brasileiro de bandeja às “bets chinesas”.
Fica a pergunta: “A quem interessa o mercado ilegal e quem lucra com as bets ilegais?”


