Kalshi lança futuros de CPI em dezembro e desafia gigantes do mercado financeiro

Blog do Editor I 26.10.26

Por: Elaine Silva

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Kalshi lança futuros de CPI em dezembro e desafia gigantes do mercado financeiro
A Kalshi contratou Michael Ashton para estruturar os contratos e despertar o interesse de grandes firmas de investimento (Imagem: Linkedln)

A Kalshi, startup financeira americana especializada em mercados de previsão, planeja lançar contratos futuros atrelados ao Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos Estados Unidos. O produto está previsto para dezembro e seria o único futuro vinculado diretamente ao CPI disponível no mercado americano.

A iniciativa, revelada pelo Valor, coloca a empresa nova-iorquina em rota de colisão mais direta com o CME Group e a Intercontinental Exchange (ICE), que dominam os mercados de futuros de taxas de juros e títulos. Para estruturar os contratos e atrair grandes investidores institucionais, a Kalshi contratou Michael Ashton, ex-operador do Barclays conhecido no mercado como “Inflation Guy”.

Os contratos cobrirão tanto o CPI cheio quanto o indicador central da inflação, que exclui alimentos e energia. Segundo documentos analisados pela Bloomberg, estarão disponíveis para os 12 meses de referência seguintes e, na sequência, para os meses de maio e novembro ao longo dos quatro anos subsequentes. A negociação ocorrerá 24 horas por dia, de domingo a sexta-feira, com a Kalshi Klear atuando como câmara de compensação.

Lacuna no mercado de inflação

O mercado americano de inflação se concentra, hoje, em dois instrumentos principais: os US$ 2,2 trilhões em títulos do Tesouro protegidos contra a inflação (TIPS, na sigla em inglês) e mais de US$ 5,4 trilhões em swaps de inflação negociados no mercado de balcão, fora de bolsas organizadas. Nenhum desses mecanismos oferece o formato padronizado e centralizado de um contrato futuro.

“Não existe nenhuma bolsa que negocie isso, e eles querem ser a bolsa da inflação”, afirmou Ashton, diretor da Enduring Investments. Um porta-voz da Kalshi confirmou que a empresa trabalha em futuros de CPI, mas não forneceu detalhes sobre o lançamento.

Tarek Mansour, CEO da Kalshi, justificou a aposta ao ser questionado pela Bloomberg TV sobre o tema. “A inflação tem sido um tema central e muito debatido nos Estados Unidos, e não existem ferramentas muito eficazes para prever qual será o nível da inflação”, declarou. “Portanto, estamos entrando no campo da precificação da inflação.”

Ashton consultou fundos de hedge, gestoras de ativos com estratégias de posição comprada (long-only) e bancos que atuam nos mercados americanos de títulos e swaps atrelados à inflação. “Estamos mantendo conversas com grandes instituições, em níveis hierárquicos elevados, em diversos segmentos do mercado”, disse o consultor.

Pressão sobre a CME

A expansão para futuros com data de vencimento também responde a críticas feitas por Terry Duffy, CEO da CME, ao modelo de contratos perpétuos da Kalshi. No podcast Odd Lots, divulgado nesta segunda-feira (19/10), Duffy afirmou que os contratos sem vencimento inviabilizam a gestão de risco institucional. “Não é possível gerenciar riscos sem uma data de vencimento”, afirmou. “As instituições dizem: ‘é impossível para nós negociar isso’.”

Os futuros de CPI, por terem data de vencimento definida, oferecem à Kalshi uma forma de rebater essas críticas. Ao mesmo tempo, o produto amplia a disputa com a CME no segmento de derivativos de taxas de juros, usado por operadores para hedge e especulação sobre mudanças na política monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. A CME chegou a lançar futuros de CPI em 2004, mas não os oferece atualmente; a empresa não respondeu ao pedido de comentário.

Mark Spindel, diretor de investimentos da Potomac River Capital, conversou com Ashton sobre os contratos e avaliou que o uso atual de swaps no mercado de balcão exige documentação extensa, o que restringe a participação. Para ele, um mercado futuro com boa liquidez seria “uma adição valiosa ao conjunto de ferramentas à minha disposição, bem como à de outros especuladores e agentes que buscam proteção”. “Todos nós já fomos pegos de surpresa por acontecimentos inesperados relacionados à inflação”, acrescentou.

A Kalshi também enfrenta pressões em outra frente: autoridades de diversos estados americanos argumentam que seus contratos baseados em eventos esportivos contornam as regras e a tributação aplicáveis a jogos de azar. Os futuros de CPI representam, portanto, uma diversificação estratégica além desse segmento.

 


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