Endividamento recorde: relatório do Banco Central não cita as bets, usadas pelo governo para justificar a proibição

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro atingiu 50,1% da renda acumulada em 12 meses em agosto, o maior nível da série histórica do Banco Central. O dado foi divulgado nesta quinta-feira (29). O comprometimento da renda com juros e amortizações bancárias também bateu recorde, em 29,0%. Na prática, de cada R$ 100 que entram no orçamento doméstico, quase R$ 29 vão para os bancos.
O número chama atenção pelo que o relatório não diz. O endividamento das famílias foi um dos principais argumentos do governo para editar a MP 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa em 25 de setembro. O governo chegou a anunciar a intenção de obrigar as empresas a indenizar quem se endividou com apostas. Mesmo assim, o diagnóstico do Banco Central sobre o recorde não menciona as bets.
O que o BC aponta
Segundo a autoridade monetária, a explicação está no crédito caro. No Relatório de Política Monetária de setembro, o BC atribuiu a alta do comprometimento da renda ao aumento do custo do crédito durante o aperto monetário e à expansão do crédito emergencial, tipicamente mais caro. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, falou em ofertas agressivas ou mesmo predatórias e classificou o cartão de crédito como um produto com “problema de design”. O BC informou que prepara novas medidas para conter a concessão predatória de crédito.
A avaliação dos especialistas ouvidos por O Globo vai na mesma direção: o recorde é resultado de um período em que o crédito cresce mais do que a renda das famílias.
A conta que o governo não menciona
Uma das linhas mais problemáticas do relatório é uma vitrine do governo. A inadimplência do consignado para trabalhadores do setor privado passou de 5,2% em setembro de 2025 para 10,6% em agosto de 2026. Os juros dessa modalidade bateram recorde depois do lançamento do Crédito do Trabalhador, por causa do aumento do risco associado ao programa. E o endividamento continua subindo mesmo com dois programas de renegociação de dívidas lançados pelo governo Lula.
A cronologia não fecha
A série do BC também desmonta a relação automática entre bets e endividamento. O indicador havia recuado no início do atual governo, chegou a 47,7% em dezembro de 2023 e depois voltou a crescer. A alta começou um ano antes do mercado regulado, que só passou a valer em janeiro de 2025. Além disso, o dado divulgado agora é de agosto, ou seja, anterior à MP.
Há ainda um detalhe técnico. O indicador do BC mede dívidas com o sistema financeiro, e no mercado regulado era proibido apostar com cartão de crédito. A regulamentação fechou justamente o canal que ligaria diretamente a aposta à dívida bancária. Com a proibição, esse controle deixou de existir: o apostador que migra para sites ilegais não tem nenhuma dessas barreiras.
Hipótese não é diagnóstico
O Banco Central não ignora o tema. Em abril, a instituição apontou a necessidade de aprofundar estudos sobre as bets como possível fator de risco de endividamento, sobretudo entre os mais vulneráveis. Seis meses depois, no relatório que registra o recorde histórico, as apostas não aparecem entre as causas. Na linguagem técnica do BC, as bets continuam sendo uma hipótese. Para o governo, já eram condenação suficiente para uma medida provisória.
O teste real vem no fim de dezembro, quando o BC divulgar os dados de outubro, o primeiro mês inteiro sem apostas reguladas no país. Se a tese do governo estiver correta, o alívio deveria aparecer ali. Se não aparecer, ficará mais difícil sustentar que o problema do endividamento das famílias estava nas casas de apostas e não nos juros, no cartão de crédito e no crédito consignado.


