Golpe com a marca Betano usa anúncios pagos no Instagram, falsa App Store e Pix para empresa de fachada

Três dias depois da queda das autorizações das casas de apostas, em 25 de outubro, por força da MP 1.394/2026, o Instagram continua exibindo anúncios pagos de plataformas que se apresentam como a Betano. Um deles diz: “Voltamos mais fortes do que nunca”. A Betano não voltou. Pela MP, nenhuma operadora pode oferecer apostas de quota fixa no país hoje. Qualquer oferta com a marca, neste momento, é ilegal por definição.
O caso mais emblemático acompanhado pelo BNLData é o da “Betamos”. O nome, a cor laranja, o “B” estilizado e a disposição do site reproduzem a identidade visual da Betano. O endereço, porém, é outro: betanoss.site, alcançado a partir de um anúncio veiculado nos Reels do Instagram, conforme os parâmetros do próprio link.
Anúncios pagos, entregues pela Meta
Os anúncios registrados pela reportagem aparecem com a marcação “Patrocinado”, ou seja, foram pagos e aprovados no sistema de publicidade da Meta. Um deles, publicado pelo perfil “Zebrou FC”, traz o slogan da “volta”. Outro, do perfil “Rio Fortune Club”, mostra um homem com camiseta da marca tirando um escudo do Flamengo de uma caixa, com botão “Baixar”. O nome interno da campanha, visível no link, inclui as expressões “flamengo” e “3ceo_betano”, o que indica a intenção de associar a peça a um suposto executivo da empresa e ao clube.
O mesmo link revela outro detalhe: o nome da campanha contém a palavra “Языки” (“idiomas”, em russo), escrita em cirílico, e a marcação “BEL”. É um indício de que a operação usa ferramentas e equipes de mídia fora do Brasil, padrão comum em redes de sites ilegais que trabalham com tráfego pago em vários países.
A falsa App Store
Ao clicar no anúncio, o usuário cai em uma página que copia a aparência da loja de aplicativos da Apple: ícone, botão “Install”, nota 4,7, classificação “18” e categoria “Games”. O “desenvolvedor” aparece como “Betono Nova App”, com selo azul de verificação. Nada disso é a App Store. O endereço é bfd.mastergamarus.com, e a página orienta o usuário a “adicionar na tela inicial”, ou seja, instalar um atalho que funciona como aplicativo sem passar por nenhuma loja oficial e, portanto, sem nenhuma revisão. A isca é um “bônus de 500%”, prática vedada pela regulamentação brasileira enquanto ela esteve em vigor.

O cadastro e o Pix
A reportagem do BNLData se cadastrou na Betamos e simulou um depósito de R$ 20,00. A plataforma gerou um Pix com validade de uma hora e a promessa de que “o saldo entra aqui na hora”. O código Pix aponta para um servidor no domínio fyhub.com.br, que gera a cobrança.
Ao colar o código no aplicativo do banco, o recebedor apareceu: Vem Comprar Comércio Brasil Ltda, CNPJ iniciado por 69 (parcialmente mascarado pelo banco), com conta na Kikai SCD S.A. A reportagem interrompeu a operação antes de confirmar o pagamento.
O nome do recebedor não tem nenhuma relação com apostas. Até 25 de outubro, a regra era clara: o apostador só podia depositar em conta de titularidade da própria operadora autorizada. Pagamento para uma empresa de “comércio” é o sinal clássico de conta de passagem usada para esconder o destino do dinheiro.
A instituição que recebe os recursos é regulada. A Kikai é autorizada pelo Banco Central a operar como Sociedade de Crédito Direto. Seu código de banco é 688 e o ISPB é 43978697, e ela começou a participar do STR em 15 de abril de 2025. Quando o BC aprovou sua constituição, a sede prevista era Barueri (SP), com controle da Safira Holding Ltda. O BNLData não encontrou registro público da Vem Comprar Comércio Brasil Ltda. e vai pedir esclarecimentos à Kikai e ao Banco Central sobre quem é o titular da conta e se houve checagem da atividade do cliente.
Proibir não tirou ninguém do jogo
O caso Betamos resume o que o setor alertou desde o anúncio da MP: o apostador não desaparece, ele muda de endereço. Com as marcas autorizadas fora do ar, os clones ocupam o espaço usando exatamente a confiança construída pelas empresas legais — e com uma vantagem: o vazio deixado pela proibição. Quem cai no golpe não tem SPA para reclamar, não tem ferramenta de autoexclusão, não tem limite de depósito e não tem a quem pedir o dinheiro de volta.
E a porta de entrada continua aberta. A Meta recebe para exibir esses anúncios, com segmentação por clube e público brasileiro, enquanto o governo comemora bloqueios de domínios.
A verdadeira questão é quem o governa — o Estado ou a ilegalidade. Os homens de bem e o poder público devem pensar bem antes de transformar as boas intenções em novos negócios para o crime organizado.








