O Jogador de Dostoievski está mais atual do que nunca

Especial I 12.02.03

Por: sync

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É impressionante como várias editoras estão publicando atualmente obras de Dostoievski e como estas ainda vendem bastante. Neste início de 2003 mesmo, entre os lançamentos figuram novas edições de O Idiota e de O Jogador (sendo este último particularmente apropriado para uma época onde tanta gente investe seu dinheiro e seu tempo no bingo).
Dostoievski já tinha há anos a idéia de um romance sobre o vício do jogo, do qual ele mesmo era vítima. Apesar disso, a forma que tomou O Jogador, escrito em poucas semanas (num período em que ele terminava Crime e Castigo, portanto já estamos na sua grande fase), em 1886, aconteceu porque seu editor o pressionaou para entregar um romance pronto dentro de determinado prazo. Isso explica a evidente pressa que marca o andamento do texto (cujos elementos demandariam talvez um vagar maior) e algumas discrepâncias da história. Há até passagens que pareceram, num primeiro momento, cochilos do excelente tradutor da nova edição, Moacir Werneck de Castro, como na pág. 136, onde se lê: ‘‘não a encontrara nem uma vez depois do incidente’’, contudo parece ser um engano do próprio autor, uma vez que numa terceira tradução (a de Oscar Mendes para a Nova Aguilar) encontra-se: ‘‘nem uma vez lhe havia dirigdo a palavra depois do incidente’’. Ainda que ‘‘encontrar’’ e ‘‘dirigir a palavra’’ sejam coisas diferentes, parece que Costa Neves corrigiu por sua conta o deslize.
O resultado final de O Jogador ficou um pouco estranho: boa parte do tempo parece uma daquelas histórias curtas, jocosas e humorísticas, do tipo de A Aldeia de Stiepântchikov e Seus Habitantes ou O Eterno Marido; perto do final, entra no clima delirante, abeirando-se do trágico — que não se consuma aqui, mas que é o tom que permeia O Idiota, por exemplo.
Apesar do título, o narrador-protagonista, Aleksei Ivanovitch, só mergulha no mundo do jogo na capítulo 14 (num total de 17), de modo irreversível, ao que parece. Dostoievski escapa daquele didatismo moralista que sempre empana um pouco as histórias sobre vícios e que detalham sua gênese e seus momentos críticos, seja o alcoolismo, sejam as drogas ou outra coisa qualquer, como é o caso de Farrapo Humano, Diário de um adolescente e um vasto etc.
Antes de Aleksei tornar-se jogador, sua narrativa concentra-se na pequena comédia humana em que está envolvido, em Roletemburgo (que representa as estações de água onde se pratica a roleta, como Baden-Baden ou Wiesbaden), agregado (como preceptor) ao clã de um General arruinado, explorado por gananciosos franceses (a visão xenófoba de Dostoievski fica bem clara na caracterização de certos personagens não-russos), que aguardam a notícia da morte da ‘‘babulinka’’ Antonida Vassilievna, a vovó rica da família.
As pequenas conspirações em torno do General só ganham importância para Aleksei na medida em que envolvem sua enteada, Polina, por quem é apaixonado e que é típica representante de uma categoria marcante de mulheres no universo dostoievskiano: meio histérica, dúbia, destrutiva e destruidora. Por sua causa, Aleksei se comporta de um modo absurdo, muitas vezes degradante, como se vivesse em estado febril e dissociativo, uma atmosfera que desde O Sósia (1848) vai caracterizar o herói típico do grande escritor russo.
As coisas tomam um rumo burlesco quando ao invés de um telegrama anunciando seu esperado falecimento, aparece em Roletemburgo a ‘‘papulinka’’ em pessoa, a qual durante dias e dias joga obstinadamente, perdendo cem mil rublos, acompanhada muitas vezes por Aleksei, que dessa maneira faz o seu aprendizado como futuro jogador. Tirando os capítulos finais, nos quais toda a paixão pelo jogo é descrita com minúcias admiráveis, a intervenção dessa extraordinária senhora é o grande achado de O Jogador e permite ao leitor aproveitar o Dostoievski humorístico, tão fantástico como o Dostoievski trágico. Talvez o romance não tenha saído como ele queria e sonhava. Talvez seja mesmo um livro ‘‘menor’’. Se essa é uma parcela pequena do gênio do seu autor, na roleta da literatura seria considerado uma fortuna para qualquer outro.
Serviço
O Jogador (Igrok, 1866) de Fiodor Mikhailivitch Dostoievski (1821-1881). Tradução de Moacir Werneck de Castro. Editora Bertrand Brasil. 185 páginas. R$ 26,00.
Alfredo Monte – Crítico de Literatura


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