Do “game ensinando a molecada a matar” ao “maluco pra tudo”: o Lula de 2026 responde ao Lula de 2023

Há discursos que envelhecem mal. E há discursos que o próprio autor se encarrega de desmentir. Na última quarta-feira (14), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um caso raro: no Palácio do Planalto, diante de desenvolvedores, gamers e influenciadores, ele ridicularizou exatamente o raciocínio que defendeu, no mesmo palácio, em abril de 2023.
O Lula de 2023
Em 18 de abril de 2023, o país ainda estava em choque com o ataque à creche de Blumenau (SC), onde quatro crianças foram assassinadas a machadadas. Em reunião com ministros, governadores e representantes dos Três Poderes para discutir a violência nas escolas, Lula apontou um culpado:
“Não tem game falando de amor. Não tem game falando de educação. É game ensinando a molecada a matar. É cada vez muito mais mortos do que na Segunda Guerra Mundial. É só pegar o jogo da molecada, o meu filho, o filho de cada um de vocês.”
E foi além: disse duvidar que houvesse um menino de 8 a 12 anos que não passasse a maior parte do tempo “jogando essas porcarias”, e que as crianças jogam com gente de outros países, passam noites jogando, e “tudo isso resulta nessa violência”.
A reação foi imediata. A Abragames, associação das desenvolvedoras brasileiras, classificou a fala como equivocada e leviana, lembrando que o setor empregava diretamente mais de 12,4 mil profissionais em mais de mil estúdios no país. Uma carta aberta de professores, pesquisadores e desenvolvedores reuniu mais de 70 assinaturas pedindo que o presidente reconsiderasse a declaração. Até o filho caçula, Luís Cláudio, defendeu publicamente os games como arte e entretenimento.
O Lula de 2026
Avancemos três anos e meio. Lula assinou o decreto que regulamenta o Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos, a Lei 14.852, sancionada por ele próprio em 2024 — uma proposta que nasceu como projeto do deputado Kim Kataguiri.
O pacote é generoso: edital de R$ 200 milhões da Finep para empresas e startups do setor, cursos de graduação em games em cinco universidades federais com 230 vagas, e acesso a financiamento pela Lei do Audiovisual e pela Lei Rouanet. O governo também vai propor baixar os juros do crédito para o setor de TR mais 2% para TR mais 0,5% ao ano, e reduzir o empréstimo mínimo de R$ 500 mil para R$ 150 mil.
No palco, o tom era outro. Lula prometeu que, se for preciso, o governo vai financiar cursos no exterior, “porque nós não queremos ser inferior nem a coreano, nem a japonês, nem a chinês e nem americano”. Antes da cerimônia, o presidente chegou a experimentar um jogo chamado “Arida”, inspirado em Canudos, e defendeu que a história brasileira sirva de matéria-prima para games capazes de conquistar jogadores no exterior.
Os games que, em 2023, “ensinavam a matar” agora são cultura, inovação e exportação de inteligência.
Ver esse post no Instagram
O crítico imaginário
O momento mais revelador veio no improviso. Lula disse que “tem maluco pra tudo” e imitou o que diria um opositor da política de games: “Não gosto disso, isso não presta, isso vai ensinar bobagem pro meu filho”. Classificou esse tipo de fala como “loucura que a gente pensava que não existia mais, mas que existe”.
O leitor atento reconhece a frase. “Isso vai ensinar bobagem pro meu filho” é a versão light de “é game ensinando a molecada a matar (…) o meu filho, o filho de cada um de vocês”. O “maluco” que o presidente ridicularizou na quarta-feira é o próprio presidente em abril de 2023.
Mudar de opinião não é crime — é, muitas vezes, sinal de maturidade. Mas quem muda deveria ao menos reconhecer a mudança, em vez de atribuir a terceiros a “loucura” que já foi sua.
E as bets entram no discurso
Não por acaso, Lula aproveitou a cerimônia dos games para falar de outro setor. “É por isso que nós acabamos com as bets”, disse, argumentando que as apostas levavam as pessoas a gastar “o dinheiro do pão da criança”. As bets foram proibidas pela Medida Provisória 1.394, publicada em 25 de setembro, nove dias antes do primeiro turno.
Aqui a contradição ganha uma segunda camada. O mesmo governo que hoje celebra os games também sancionou a Lei 14.790/2023, regulamentou as apostas de quota fixa, cobrou R$ 30 milhões de outorga de cada operador e convidou empresas a investir no Brasil. Depois, por medida provisória, puxou o tapete.
E há uma ironia que não pode passar em branco. Os games também têm seus riscos — loot boxes, microtransações, skins negociadas com criptoativos, crianças usando o cartão dos pais. Tanto que a própria Lei 14.852 prevê canais de denúncia de abusos e mecanismos de consentimento dos responsáveis para compras feitas por menores de idade. Ou seja: para os games, o caminho escolhido foi regular e proteger. Para as bets, que tinham exatamente o mesmo tipo de regulação, foi proibir.
“Destruir é apenas um passo”
O presidente encerrou o discurso com um alerta aos gamers: “Fazer é difícil, destruir é apenas um passo”. E pediu que se organizassem para que ninguém tire o que conquistaram.
Conselho valioso. Os empresários do setor de apostas podem confirmar. Eles também ouviram promessas, também investiram, também se organizaram — e descobriram que, quando o vento eleitoral muda, a destruição pode vir de quem prometeu a construção.
O momento também não é casual. A medida foi assinada a 11 dias do segundo turno, como aceno ao eleitorado jovem, num momento em que Lula recebeu menos votos que Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
Os games mereciam a política pública que receberam — e mereciam desde 2023. A questão não é o mérito do decreto. É a régua. Uma política de Estado não pode depender do humor do discurso da semana: em um ano, games ensinam a matar; no outro, quem pensa assim é “maluco”. Em um ano, bets são setor regulado e arrecadador; no outro, são inimigas do pão das crianças.
Quem hoje aplaude no Planalto deveria guardar o vídeo de 2023. Ele está no canal da própria Presidência, no YouTube.


