Bastidores do PT apontam proibição das bets como erro que custou caro a Lula no primeiro turno

A proibição das apostas online, anunciada pelo governo às vésperas do primeiro turno, entrou no inventário de erros que a cúpula do PT atribui à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Globo já havia informado que a própria campanha avalia que a medida prejudicou o resultado de domingo. Reportagens publicadas nesta segunda-feira (5) por Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo e CNN Brasil avançam no mesmo sentido e apontam o responsável: a decisão foi tomada por insistência do ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, e hoje é tratada internamente como um dos equívocos que ajudaram o senador Flávio Bolsonaro a chegar ao segundo turno à frente de Lula.
Segundo o Estadão, dirigentes petistas responsabilizam Sidônio por convencer Lula a extinguir todas as bets no país. O presidente do PT e coordenador da campanha, Edinho Silva, e o Ministério da Fazenda foram contra. O argumento era que uma medida radical e atabalhoada afetaria a arrecadação federal e empurraria parte do eleitorado para o adversário. A proposta original previa apenas a proibição dos cassinos online, como o Jogo do Tigrinho. Procurado pelo jornal, o ministro não se manifestou.
A Folha relata que Edinho e Sidônio tiveram uma discussão acalorada sobre o tema e passaram ao menos uma semana sem se encontrar na reta final da campanha. A CNN Brasil informa que o presidente do PT defendia uma saída gradual, via Congresso, e que a notícia do fim das bets acabou dividindo espaço com a da vitória de Sidônio sobre Edinho.
Crítica também no empresariado
A avaliação negativa não ficou restrita ao partido. Em entrevista à Folha, o presidente do conselho da Esfera Brasil, João Camargo, afirmou que a forma como o governo conduziu a proibição foi “horrorosa” e criticou a interrupção das apostas na fase final dos campeonatos. Para ele, as medidas de reta final mostraram que o eleitor percebeu o uso eleitoral da caneta presidencial.
Guinada na comunicação
Um dia depois do primeiro turno, Lula reuniu os coordenadores da campanha e aliados e, segundo o Estadão, determinou “mudar tudo” para se aproximar de jovens, mulheres e do eleitorado de centro. O PT discute uma parceria com o marqueteiro Otávio Antunes, criador da campanha da “taxação BBB” (bilionários, bancos e bets).
Quem comemorou o “dia histórico”
O inventário petista concentra a culpa em Sidônio, mas a pressão pelo fim das bets veio também de fora do governo. Em junho, o coletivo 342 Artes, liderado pela produtora Paula Lavigne, lançou a campanha “Block no Tigrinho”. Em 1º de setembro, ela participou da reunião no Palácio do Planalto convocada por Lula para discutir os impactos das apostas, encontro que teve a primeira-dama Janja da Silva entre os organizadores. Na ocasião, Paula pediu ao presidente que acabasse com “esse horror” no Brasil.
No dia da assinatura da MP 1.394/2026, em 25 de setembro, a produtora comemorou a proibição nas redes sociais, classificou a data como “um dia histórico” e creditou o resultado à mobilização de grupos progressistas na internet.
BNLData alertou para o risco
Os relatos confirmam o que o BNLData apontou antes da edição da MP. Em 16 de setembro, na análise “Por que proibir as bets pode custar a eleição a Lula“, o portal registrou que a escalada do presidente expunha o governo a riscos econômicos, jurídicos e eleitorais ainda não equacionados. O governo se apoiou em pesquisas de rejeição às bets e desconsiderou os apostadores recreativos, os clubes de futebol, os influenciadores e o discurso da oposição. Flávio Bolsonaro classificou a medida como eleitoreira e disse que manteria as apostas esportivas.
“Artista não dá voto. Mas tira”
Em 2022, Caetano Veloso gravou um vídeo em favor de Lula no qual atribuía a Leonel Brizola uma máxima da política brasileira: “Brizola dizia que artista não dá voto. Mas tira”. Na época, a frase serviu para esvaziar a candidatura de Ciro Gomes.
Quatro anos depois, a máxima volta a rondar o Palácio do Planalto, agora contra o próprio Lula. Foi o coletivo liderado pela mulher de Caetano que ajudou a levar a pauta ao presidente e celebrou a canetada. Dez dias depois da MP, Lula chegou ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro. Se Brizola estava certo, o movimento dos artistas pode ter custado ao presidente os votos que faltaram no primeiro turno, e talvez custe a reeleição.
Enquanto o PT procura culpados, a medida provisória segue em vigor, o mercado regulado está paralisado e as ADIs 8024, 8027 e 8028 aguardam decisão do ministro Luiz Fux no STF.


