Bets na mira de Lula: o discurso de Guarulhos e o custo político de uma proibição

Apostas I 19.09.26

Por: Magno José

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Bets na mira de Lula: o discurso de Guarulhos e o custo político de uma proibição
Presidente rebateu nota de clubes de futebol contra restrições ao setor e classificou apostas como “doença”; além de ameaçar patrocínios ao futebol, investimentos em mídia, a proteção dos apostadores, milhares de empregos e bilhões em arrecadação, medida em estudo pelo governo pode custar caro nas urnas (Foto: Ricardo Stuckert)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou boa parte de seu discurso em comício de campanha em Guarulhos (SP), nesta sexta-feira (18), para declarar guerra às casas de apostas online, um dia depois de clubes e federações de futebol divulgarem nota conjunta contra possíveis restrições ao setor. Diante da militância, e já na reta final da campanha para a reeleição, o presidente classificou o combate às bets como uma questão de saúde pública que se sobrepõe a qualquer perda de arrecadação, e afirmou pretender chamar os clubes para conversar sobre o tema.

Lula dividiu o palco com o vice-presidente e candidato à reeleição na chapa, Geraldo Alckmin (PSB), o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e as candidatas governistas ao Senado, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) — que abriu o comício com críticas ao adversário Guilherme Derrite (PP) e ao escândalo do Banco Master, tema também explorado por Lula, que atribuiu o fechamento da instituição a seu governo e tentou associar o caso a Flávio Bolsonaro.

A resposta aos clubes

Foi ao tratar das bets, porém, que o presidente elevou o tom. Lembrando que Flamengo, Corinthians e outros grandes clubes assinaram a nota contra eventuais restrições, Lula rebateu diretamente o argumento de que o fim das apostas esportivas ameaçaria o futebol brasileiro, classificando-o como “balela”. Para reforçar o ponto, recorreu à história da Seleção: lembrou que o Brasil foi pentacampeão mundial — 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 — em datas anteriores à chegada das bets ao país, e observou, em tom irônico, que a seleção não venceu mais nenhum título “depois que apareceu a bet”. Concluiu cobrando dos próprios clubes: mais do que acabar com o futebol, disse, é preciso “acabar com a pouca vergonha no futebol”.

A decisão anunciada

Foi nesse contexto que o presidente cravou a frase que resume sua posição: se dependesse apenas de sua vontade pessoal, ele acabaria com as bets no Brasil. Lula rejeitou a ideia de que as apostas sejam uma forma de entretenimento como outra qualquer, definindo-as como um vício — “uma doença chamada ludopatia” — e não como jogo de aposta convencional. Também relativizou o impacto fiscal da medida: mencionou que o setor arrecadou R$ 62 bilhões, mas disse que o governo não está preocupado em perder imposto, e sim em evitar que a “vida dos pobres” seja consumida pelo jogo. Na mesma linha, associou as plataformas a práticas criminosas, prometendo que o fim das bets viria acompanhado do combate à lavagem de dinheiro.

Os relatos pessoais

A parte mais longa — e mais dura — do discurso foi dedicada a histórias de endividamento que o presidente disse ter ouvido diretamente. Contou que, durante uma gravação no Palácio da Alvorada ao lado do ministro Guilherme Boulos, conversou com dois jovens funcionários do local endividados em R$ 4 mil e R$ 10 mil. Disse ter reunido, na sequência, um grupo de oito pessoas em Brasília para ouvir relatos semelhantes — entre eles um pequeno empresário que teria vendido loja, carro e até o terreno do próprio pai para tentar pagar uma dívida de R$ 2,2 milhões, e uma comerciante de 27 anos do interior de Minas Gerais endividada em R$ 730 mil. Citou ainda o caso de uma mulher que, segundo relatou, escondia do marido uma dívida de R$ 30 mil e chegava a apostar debaixo do chuveiro, com o celular protegido da água, para não ser flagrada. O presidente mencionou também casos de tentativas de suicídio e rompimentos familiares associados às dívidas de jogo, e comparou o quadro ao que já presenciara em relatos de mães de dependentes de crack — chegando a chamar o fenômeno das bets de “a coisa mais horrorosa” que já viu.

O que está por trás da decisão: cronologia e riscos

O ataque de Lula às bets em Guarulhos não nasceu no palco: é o ponto mais agudo de uma escalada que o presidente vem construindo desde maio, e que expõe o governo a uma série de riscos econômicos, jurídicos e eleitorais que a Presidência ainda não equacionou publicamente.

Cronologia (maio–setembro de 2026)

Maio — Em pronunciamento em rede nacional na véspera do Dia do Trabalhador, Lula anuncia que beneficiários do novo Desenrola Brasil serão bloqueados em plataformas de apostas. Em entrevista ao Sem Censura (TV Brasil), diz que várias bets “não prestam nenhum serviço de utilidade ao país”.

Junho — Governo envia ao Congresso a MP 1.366/2026 (viria a ser a Lei do Move Brasil); coletivo 342 Artes, de Paula Lavigne, lança a campanha “Block no Tigrinho”.

Julho — Governo lança campanha nacional de prevenção aos danos das apostas online.

Agosto — SUS passa a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais a apostadores e familiares; em 13/8, Lula associa endividamento a vício em jogo (“a desgraça do jogo é a desgraça da mentira”).

1º de setembro — Reunião no Planalto com Paula Lavigne, Emicida e o influenciador Yuri Zero; Lula diz que o governo está perto de uma medida “drástica”.

13 a 15 de setembro — Presidente relata reunião “muito penosa” com vítimas das apostas; classifica bets como “doença” durante sanção da Lei do Move Brasil.

16 de setembro — Em podcast, declara disposição pessoal de acabar com as bets (“não tem bet boa e bet ruim”). BNLData publica análise sobre o risco eleitoral da proibição.

17 de setembro — Clubes e federações divulgam nota conjunta contra restrições, estimando corte de até R$ 9 bilhões em investimentos até 2029. Estadão revela que o governo estuda MP para banir cassinos online, com vigência escalonada de 180 dias — desenhada para só valer depois da votação no Congresso.

18 de setembro — Comício em Guarulhos.

Os riscos da proibição

Incentivo ao mercado ilegal

Estudos do TMC/Instituto Esfera e da LCA Consultores/Instituto Locomotiva mostram que o mercado ilegal ainda responde por 38% a 44% do total apostado no país, mesmo com o mercado regulado em pleno funcionamento — recuo frente aos 41%-51% de 2025, mas longe de zero. Restrições ao mercado legal tendem historicamente a deslocar demanda para sites sem domínio “.bet.br”, sem biometria e com depósito via criptoativos.

Retirada da proteção aos apostadores

A Lei 14.790/2023 obriga operadores licenciados a usar Pix, biometria, autoexclusão sincronizada, limites de aposta e bloqueio de beneficiários do Bolsa Família e do BPC — mecanismos que nenhuma plataforma clandestina segue. Uma proibição total afasta o apostador comum das proteções regulatórias sem afetar quem já opera na ilegalidade.

O paradoxo atinge em cheio justamente quem o governo diz querer proteger: milhões de brasileiros já usaram a autoexclusão para bloquear o próprio CPF nas casas licenciadas — inclusive beneficiários do Bolsa Família e do BPC, excluídos automaticamente. Sem mercado regulado, essa lista de bloqueio deixa de valer, porque não há CPF, biometria ou qualquer identificação a checar em sites clandestinos; o autoexcluído perde exatamente a barreira que havia criado para si mesmo e passa a apostar em plataformas sem nenhum controle.

O risco do “fato do príncipe”

O desenho da MP em estudo — vigência de 180 dias — adia, mas não elimina, o ônus fiscal do banimento. Segundo apuração do Estadão, o Executivo teria de arcar com compensação prevista na Lei de Responsabilidade Fiscal (já que cassinos online respondem por cerca de 80% do faturamento das bets) e devolução proporcional das outorgas — cada operadora pagou R$ 30 milhões para atuar por cinco anos no país.

Para o advogado Bernardo Freire, o fato do príncipe pode gerar indenizações da ordem de R$ 120 bilhões ao setor — valor que dá a exata medida do risco jurídico embutido numa proibição abrupta do mercado regulado.

Panorama fiscal do setor

Entre janeiro e julho de 2026, as bets recolheram R$ 8,747 bilhões em tributos federais, alta de 76% sobre 2025 — ano em que a arrecadação fechou em R$ 9,95 bilhões. Um estudo financiado por entidades do setor (IBJR/ANJL) estima a arrecadação total ligada ao mercado regulado em cerca de R$ 9 bilhões em 2025, com potencial de R$ 28 bilhões em efeito multiplicador na economia.

Orçamento de 2027

O PLOA 2027 prevê apenas R$ 6,69 bilhões nas quatro rubricas específicas das bets — queda de 7,2% frente à LOA 2026, mesmo com a arrecadação real em alta, num movimento que a BNLData já havia identificado como resultado da diluição de parte da receita do setor dentro da nova CBS.

Publicidade na mídia

Bets e serviços de streaming somaram cerca de R$ 2,3 bilhões em publicidade na TV, dentro de um mercado televisivo de R$ 24,5 bilhões — com BetMGM (que tem o Grupo Globo como sócio minoritário) e Betnacional entre os maiores anunciantes isolados do país.

Patrocínios de clubes de futebol

14 dos 20 clubes da Série A têm bets entre seus patrocinadores, 13 no espaço mais nobre — a camisa. Os maiores contratos: Flamengo (R$ 268,5 milhões/ano), Palmeiras (R$ 170 milhões/ano), Corinthians — time do próprio Lula — (R$ 150 milhões/ano), São Paulo (R$ 113 milhões/ano) e Fluminense (R$ 86 milhões/ano), somando cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios à Série A em 2026.

Empregos

Um estudo da LCA Consultores/Cruz Consulting (financiado por entidades do setor) contabiliza 15,5 mil empregos diretos e indiretos, 10 mil deles diretos — 47% qualificados (TI, cibersegurança, compliance) — com salário médio de R$ 7 mil, mais que o dobro da média nacional.

30.895.934 de apostadores

O SIGAP, da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, registrava esse número de CPFs únicos com aposta ativa no primeiro semestre de 2026 — base maior que a diferença de votos que decidiu qualquer uma das últimas eleições presidenciais (2.138.485 votos em 2022).

Com a corrida eleitoral tecnicamente empatada entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas mais recentes, mesmo uma migração de 10% desse universo de apostadores supera a margem que decidiu o pleito mais apertado da história recente do país.

 

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