Betfair enfrenta processo de R$ 7 milhões de apostador que alega vício em jogos

O empresário britânico Lee Gibson, 47 anos, entrou com uma ação judicial contra a casa de apostas Betfair para tentar recuperar cerca de um milhão de libras (equivalente a mais de R$ 7 milhões) perdido em apostas esportivas. O caso começou a ser julgado nesta quarta-feira (8) pelo Tribunal de Apelação do Reino Unido.
Gibson contesta uma decisão anterior do Tribunal Superior que rejeitou seu pedido de indenização. Ele alega que a Betfair deveria tê-lo impedido de continuar apostando, pois teria conhecimento de sua condição como “jogador problemático”. O valor solicitado corresponde aproximadamente ao montante perdido nos seis anos anteriores à abertura do processo em 2021.
Gibson alega que a empresa deveria tê-lo identificado como um jogador compulsivo e impedido de continuar apostando. Entre 2009 e 2019, ele realizou mais de 30 mil apostas na plataforma, incluindo lances de até 20 mil libras em partidas de futebol com pouca relevância. A conta foi encerrada após perdas milionárias.
O empresário do setor imobiliário acumulou perdas totais de £1,5 milhão entre 2009 e 2019 na plataforma. Seu advogado, Yash Kulkarni, informou ao tribunal que Gibson realizou mais de 30 mil apostas durante esse período.
As perdas de Gibson aumentaram progressivamente ao longo dos anos. No final de 2012, ele já havia perdido £100.000. O valor subiu para £500.000 até o final de 2015, atingiu £1 milhão em janeiro de 2018 e chegou a £1,5 milhão em março de 2019, quando sua conta foi suspensa pela plataforma.
Apesar de ter abandonado os estudos aos 16 anos, Gibson construiu patrimônio significativo no mercado imobiliário na região de Leeds. No auge de sua carreira como investidor, chegou a possuir 16 imóveis alugados principalmente para estudantes universitários.
Segundo seu advogado, Gibson concentrava suas apostas em mercados de “placar correto” no futebol, incluindo partidas consideradas “obscuras”, com valores que chegavam a £20 mil por aposta. O que ele inicialmente considerava uma atividade “fascinante e emocionante” culminou em março de 2019, quando suas perdas se tornaram “insustentáveis”.
Como cliente VIP da Betfair, Gibson tinha acesso a um “gerente de relacionamento” exclusivo. Seu advogado argumenta que isso estabelecia uma responsabilidade adicional da empresa.
“As evidências mostraram que a Betfair sabia ou tinha informações disponíveis mostrando que o Sr. Gibson estava recuperando suas perdas, havia tomado dinheiro emprestado ou vendido algo para jogar e estava jogando em um nível além do que ele poderia pagar com sua renda após impostos e despesas”, afirmou Kulkarni.
Segundo o advogado Yash Kulkarni KC, a operadora tinha dados suficientes para reconhecer o comportamento problemático, como tentativas recorrentes de recuperar prejuízos e o tratamento VIP oferecido ao cliente — que incluía gerente exclusivo e convites para eventos esportivos. As informações são do jornal The Telegraph.
Durante a audiência de recurso, o advogado argumentou que a conclusão do juiz de primeira instância estava “errada”. Segundo ele, a Betfair tinha conhecimento ou deveria ter percebido que seu cliente apresentava comportamentos típicos de um apostador compulsivo.
“O juiz deveria ter concluído que a Betfair sabia ou deveria saber que o Sr. Gibson provavelmente era um jogador problemático durante todo o período relevante da ação, e sua conclusão em contrário estava claramente errada. O Sr. Gibson fez pelo menos 20.000 apostas individuais nos seis anos anteriores a 22 de janeiro de 2021, o que representa mais de cinco por dia”, afirmou Kulkarni perante o tribunal.
O advogado também destacou o padrão de apostas de seu cliente como indicativo de comportamento problemático. “O juiz deveria ter concluído que, quando uma pessoa parece estar jogando muito, apesar de enfrentar grandes perdas, usando dinheiro que provavelmente vem, pelo menos em parte, da venda de seus ativos comerciais ou de empréstimos garantidos por eles, essa pessoa provavelmente é um jogador problemático”, argumentou.
Kulkarni contestou ainda o papel do gerente de relacionamento VIP designado pela Betfair. Segundo ele, a função desse profissional “era interagir com ele para manter ou aumentar suas apostas” e “explorar seus hábitos de apostas para conceder bônus e ofertas que provavelmente induziriam mais apostas”.
O advogado argumentou que “A Betfair assumiu a responsabilidade de tomar as devidas precauções para que a facilitação de suas apostas não lhe causasse prejuízo financeiro por ser um jogador problemático”.
No julgamento original realizado no Tribunal Superior, o Juiz Nigel Bird decidiu que a Betfair não poderia razoavelmente identificar Gibson como um jogador problemático.
A ação já havia sido rejeitada em 2024 pela Corte, quando o juiz Nigel Bird concluiu que Gibson enganou a empresa ao afirmar que tinha condições financeiras suficientes para apostar. O empresário recorre, alegando que a casa de apostas descumpriu normas da licença ao não interromper o serviço diante de sinais claros de vício.
“O Sr. Gibson consistentemente e com frequência tranquilizou a Betfair de que era capaz de financiar suas apostas, incluindo suas perdas, e nenhuma das informações que ele forneceu à Betfair pintou um quadro diferente”, declarou o magistrado em sua decisão.
O juiz Bird acrescentou que “o fato de ele ter cumprido consistentemente as verificações de combate à lavagem de dinheiro torna impossível para o Sr. Gibson argumentar que o tamanho de suas perdas era, por si só, suficiente para levantar preocupações razoáveis.”
Na avaliação do magistrado, Gibson não foi transparente sobre sua situação. “De fato, mesmo após o julgamento, não há nenhuma sugestão real de que o Sr. Gibson não pudesse arcar com seus gastos com jogos de azar. Ele podia, pelo menos considerando as informações que forneceu à Betfair, financiar seus jogos de azar; ele enganou a Betfair sobre seus jogos de azar, e é muito difícil identificar um jogador problemático que não esteja sendo honesto. Na minha opinião, o Sr. Gibson não apenas deixou de compartilhar informações sobre seu problema com jogos de azar, como também tomou medidas ativas para ocultá-lo e retratar ao mundo em geral, e à Betfair em particular, uma imagem totalmente imprecisa.”
A empresa, identificada no processo como TSE Malta LP, contesta o recurso e defende a manutenção da decisão original do Juiz Bird. A empresa nega responsabilidade pelas perdas e afirma ter seguido todos os protocolos exigidos. Sustenta ainda que, mesmo com restrições, Gibson poderia ter continuado a apostar em outras plataformas.
O caso está sendo analisado por três juízes do Tribunal de Apelação: o Chanceler Sir Julian Flaux, o Juiz Popplewell e o Juiz Birss. A expectativa é que o tribunal reserve seu julgamento para uma data futura, ainda não definida.


