Galassi leva ao STF números que não sustentam a tese da ABRAS

O presidente da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), João Carlos Galassi, foi ao Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira (3/11) defender a manutenção da Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa no país. Na audiência pública conduzida pelo ministro Luiz Fux, relator da ADI 8027, Galassi abriu a fala cumprimentando o presidente Lula pela “decisão corajosa” de editar a MP e sustentou que “o alimento está voltando para a mesa dos trabalhadores”.
O BNLData checou as 11 principais afirmações do discurso. Algumas partem de dados reais — a queda do Pix, a devolução de saldos, a pesquisa da Febrafar. Mas nenhuma delas demonstra o que a ABRAS quer provar: que o fim das bets causou o aumento das vendas nos supermercados. E a conta mais vistosa da fala, a de que as famílias deixaram de consumir “mais de 50 bilhões” em alimentos, não fecha com os números oficiais do próprio governo.
A tese não é nova. Ela foi apresentada pela ABRAS na coletiva de 29 de outubro, repercutiu nacionalmente, ganhou vídeo do vice-presidente Geraldo Alckmin no Instagram e chegou ao STF como argumento central do varejo alimentar pela proibição.
Fato ou narrativa: a fala de Galassi, ponto a ponto
Os 6,5% e 6,3%: o dado existe, a prova não
O levantamento ABRAS/NielsenIQ registrou alta de 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro e de 6,3% na de 12 a 18, sobre os mesmos períodos de 2025. Ninguém contesta o número. O problema é a atribuição. Na coletiva de 29/10, o vice-presidente da ABRAS, Márcio Milan, explicou à Folha que o método é comparar com o histórico e que “a única coisa diferente foi a proibição das bets”. Não houve controle para pelo menos três fatores que coincidem exatamente com as semanas medidas:
⇒ Fim dos saques voluntários: o prazo para os apostadores retirarem saldos das plataformas terminou às 23h59 de 5 de outubro — véspera da primeira semana medida. Antes da MP, os saldos somavam cerca de R$ 2,1 bilhões, segundo a Fazenda.
⇒ Devolução compulsória pelos bancos: entre 9 e 14 de outubro, os bancos devolveram cerca de R$ 1,3 bilhão a 26,5 milhões de apostadores — dentro das duas semanas medidas.
⇒ Calendário: o Dia das Crianças de 2026 caiu numa segunda-feira (12/10), criando feriado prolongado; em 2025, caiu num domingo. A comparação ano contra ano infla o resultado.
Há ainda um problema de escala. O varejo alimentar faturou R$ 1,145 trilhão em 2025 (Ranking ABRAS 2026), cerca de R$ 22 bilhões por semana. Uma alta de 6,5% equivale a aproximadamente R$ 1,4 bilhão a mais numa única semana. O GGR das bets reguladas — a perda líquida de todos os apostadores somados — foi de R$ 36,9 bilhões em 2025 e de R$ 20,07 bilhões no 1º semestre de 2026, ou cerca de R$ 770 milhões por semana. Para explicar sozinho a alta, o fim das bets teria de mandar ao supermercado quase o dobro de tudo o que os apostadores perdiam por semana em todas as plataformas — inclusive o que não seria gasto com comida.
Os 5,4% “antecipados” ao ministro
Galassi antecipou na audiência uma alta de 5,4% na semana seguinte (19 a 25/10). O dado não foi publicado nem detalhado por região ou formato, e por isso não pode ser verificado. Mas ele mostra algo que a ABRAS não destacou: a curva é de desaceleração — 6,5%, 6,3%, 5,4% — mesmo com o Bolsa Família reajustado entrando na terceira semana. É o desenho esperado de um efeito pontual de caixa (saques e devoluções) que se esgota, não de uma mudança estrutural de consumo.
“Não se trata de uma pesquisa ocasional”
O índice Consumo nos Lares, mensal, existe há anos. Mas a prévia semanal de outubro é outra coisa: segundo o próprio Milan, na coletiva, foi montada com dados fornecidos pelas empresas do setor. Apresentar o recorte semanal como se tivesse a mesma tradição do índice mensal é enganoso. E o índice mensal, este sim consolidado, aponta alta de apenas 0,59% em setembro sobre setembro de 2025, com a ABRAS mantendo em 3,2% a projeção de crescimento para 2026 — sem revisão para cima por causa do fim das bets.
O Bolsa Família
Galassi está correto ao dizer que o reajuste de 15,04% — piso de R$ 600 para R$ 691 — começou a ser pago em 19 de outubro. Portanto, o programa não explica as semanas de 5 a 18. Mas descartar uma explicação alternativa não prova a tese. A ABRAS deixou de lado justamente os fatores que caem dentro dessas semanas: saques, devolução bancária e feriado. E, na semana dos 5,4%, o Bolsa Família reajustado já estava sendo pago — o que torna esse número ainda menos útil para medir o efeito das bets.
Os “mais de R$ 50 bilhões” em alimentos
É a afirmação mais frágil do discurso. Galassi projetou que, “com apenas um crescimento de 4%”, as famílias teriam perdido mais de R$ 50 bilhões em alimentos neste ano. A conta aplica um percentual hipotético sobre o faturamento do varejo — 4% de R$ 1,145 trilhão já dá cerca de R$ 46 bilhões — e trata o resultado como se fosse dinheiro desviado para as bets.
Os números oficiais da SPA/MF desmontam o raciocínio. Todo o GGR do mercado regulado em 2025, ou seja, tudo o que os apostadores perderam líquido nas plataformas autorizadas, foi de R$ 36,9 bilhões. A estimativa de Galassi para a perda somente em alimentos é maior do que a perda total dos apostadores com todas as apostas, em todo o ano. Além disso, a MP só entrou em vigor em 25 de setembro: não há como as bets terem retirado do supermercado, “neste ano”, algo que supera tudo o que elas arrecadaram de apostadores em 12 meses.
A queda de 10% no Pix
O dado é do Banco Central e foi divulgado pela Agência Brasil: 10% a menos de transações e 15,5% a menos em valores nos três dias seguintes à MP. Mas a própria reportagem registrou que a coincidência não permite concluir que a medida foi a causa, e que o BC não respondeu se havia relação. A ANJL apontou ainda que, entre 22 e 24 de setembro — antes da proibição —, o Pix já estava entre 7% e 12% abaixo da referência usada na comparação. Menos Pix para bets reguladas também não significa mais dinheiro no supermercado: parte dos apostadores migrou para sites ilegais.
A devolução de mais de R$ 1 bilhão
Verdadeiro: mais de R$ 1 bilhão em saldos foi devolvido aos apostadores até meados de outubro, restando R$ 159 milhões de quem não sacou no prazo. Só que esse dado enfraquece a tese da ABRAS, em vez de fortalecê-la. É dinheiro do próprio apostador, que estava parado nas plataformas e voltou de uma só vez — exatamente nas semanas em que a ABRAS mediu a alta. Uma injeção única de caixa explica um pico pontual de vendas; não demonstra que o consumo mudou de patamar.
A pesquisa “da Unicamp”
Os números citados conferem: 41% reduziram compras de alimentos, higiene ou medicamentos, 81% têm dívidas e 99% tiveram prejuízo nos 30 dias anteriores. Mas a pesquisa não é “elaborada pela Unicamp”. Ela foi feita pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) — braço da federação das redes de farmácias — em parceria com o NEIT/Unicamp e o Instituto Axxus, entre junho e agosto de 2026. A amostra ouviu apenas 1.500 apostadores das classes C, D e E: retrata esse grupo, não a população. E foi produzida por outro segmento do varejo com interesse direto no tema. Os 99% com prejuízo em 30 dias, por sua vez, refletem a natureza de qualquer jogo com margem da banca, não um dado excepcional.
“Bilhões de brasileiros”
O Brasil tem cerca de 213 milhões de habitantes. A própria ABRAS informa que o setor reúne cerca de 9 milhões de empregos diretos e indiretos. Provável lapso verbal, mas dito diante do relator, na transmissão oficial da audiência.
Os R$ 30 bilhões do IEPS
O dossiê do IEPS estima R$ 38,8 bilhões de “custo social” anual, dos quais R$ 30,6 bilhões ligados à saúde. Mas não se trata de gasto com saúde. Do total, R$ 17 bilhões são valores atribuídos a mortes por suicídio e R$ 10,4 bilhões à perda de qualidade de vida — estimativas estatísticas. Desembolso real com tratamento é de R$ 3 bilhões. A metodologia aplica valores de um estudo do governo britânico, convertidos para reais, sobre uma pesquisa brasileira de consumo de drogas, e os próprios autores admitem tratar-se de associação, não causalidade — como o BNLData mostrou no FactCheck sobre o estudo.
Impostos do varejo contra impostos das bets
É verdade que o varejo alimentar paga mais impostos que as bets — com faturamento de R$ 1,145 trilhão, nem poderia ser diferente. Mas a comparação não prova nada. Consumo em supermercado e aposta não são alternativas excludentes em todo o orçamento. E a proibição não transferiu arrecadação: eliminou a das bets reguladas — R$ 8,94 bilhões em tributos federais em 2025, segundo a Receita — e as contribuições destinadas por lei a Saúde, Esporte, Segurança Pública e demais beneficiários legais, enquanto o mercado ilegal segue sem pagar nada.
O que a fala não disse
A ABRAS foi incluída na audiência a pedido da AGU, que pediu a Fux para ampliar a lista de convidados com entidades favoráveis à proibição. Galassi falou como representante de um setor, mas seu discurso coincidiu, ponto por ponto, com o do governo: os mesmos números do Pix, a mesma devolução de saldos e o mesmo estudo do IEPS citados pelo ministro Padilha.
O presidente da ABRAS também não é um observador neutro do debate político. Em 2026, João Carlos Galassi disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo pelo Republicanos, com o número 1020. E é amigo do vice-presidente Geraldo Alckmin, que gravou vídeo divulgando a tese da ABRAS no dia da coletiva.
Ficou de fora do discurso o que acontece com o apostador depois da MP. Os relatórios de monitoramento compartilhados pela ANJL mostram o crescimento de sites ilegais desde a proibição — plataformas sem controle de idade, sem limite de depósito, que aceitam cartão de crédito e não pagam imposto nem financiam tratamento. Se parte do dinheiro que ia para as bets reguladas migrou para esses sites, ele não voltou ao supermercado. Nenhum dos números apresentados por Galassi mede essa migração.
O BNLData pediu esclarecimentos à assessoria da ABRAS sobre a metodologia da prévia semanal em 29 de outubro e até a publicação, não houve resposta. O espaço segue aberto.
O consumo das famílias pode, sim, ter melhorado em outubro. O que a ABRAS ainda não mostrou é por quê. Com saques, devolução compulsória, feriado e Bolsa Família reajustado empilhados nas mesmas semanas, atribuir tudo à proibição das bets é escolher a explicação que serve ao discurso — e não a que os dados sustentam.
Este FactCheck recebe o Selo Narrativa BNLData: quando os números servem ao discurso, e não aos fatos.


