Governo arrecadava mais com as bets do que as próprias empresas lucravam

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, voltou a afirmar nesta terça-feira (6), ao apresentar o balanço da proibição das apostas de quota fixa, que entre R$ 600 milhões e R$ 650 milhões por dia saíam da poupança popular para as bets e que esse dinheiro passa a ficar com as famílias. Em dez dias, a conta chega a R$ 6,5 bilhões, valor comparado a 8 milhões de cestas básicas. A conta completa, porém, mostra outro quadro: depósito é entrada de caixa, não perda, e a maior parte retorna ao próprio apostador.
FactCheck: o que o ministro disse e o que o número mede
A fala: R$ 650 milhões por dia “saíam da poupança popular” para as casas de apostas. Na sexta-feira (2), o valor citado pelo próprio ministro era de R$ 600 milhões.
A origem do dado: informações do Banco Central sobre transferências para contas de casas de apostas. O número mede, portanto, o que entrou nas plataformas, sem descontar o que voltou aos apostadores em prêmios e saques.
O que os dados oficiais mostram: o que fica com os operadores é o GGR, a receita bruta de jogo. Segundo dados da própria Fazenda, obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação, o GGR somou R$ 36,9 bilhões em 2025 e R$ 20,07 bilhões no primeiro semestre de 2026. Isso equivale a cerca de R$ 101 milhões por dia em 2025 e R$ 111 milhões por dia neste ano, aproximadamente um sexto do valor apresentado pelo ministro.
O que o balanço do próprio ministro revela: 86,2 milhões de contas tinham entre R$ 0,01 e R$ 0,99 de saldo, e 1% dos apostadores, cerca de 200 mil pessoas, concentrava 80% do R$ 1,325 bilhão pendente de devolução. O retrato é de um público majoritariamente recreativo, com valores residuais nas plataformas, e não de famílias com a poupança presa nas casas de apostas.
Conclusão: a afirmação é enganosa. O ministro trata o volume de depósitos como se fosse perda das famílias, quando a maior parte desse dinheiro retornava aos apostadores.
Para onde ia cada R$ 100
Considerando um retorno ao jogador entre 85% e 89%, de R$ 5,53 bilhões a R$ 5,79 bilhões dos R$ 6,5 bilhões voltavam em prêmios. O GGR ficava entre R$ 715 milhões e R$ 975 milhões, ou 11% a 15% do total. O quadro abaixo mostra o destino de cada R$ 100 depositados:

O que o governo arrecadava
Sobre o GGR incidem a contribuição de 13%, o ISS (de 2% a 5%, conforme o município), o PIS (1,65%) e a Cofins (7,6%). No cenário de 85% de retorno ao jogador, esses tributos somam de R$ 236,4 milhões a R$ 265,7 milhões. No cenário de 89%, ficam entre R$ 173,4 milhões e R$ 194,8 milhões.
Depois vêm os custos operacionais, em média 40% do GGR (de R$ 286 milhões a R$ 390 milhões), e o IRPJ e a CSLL sobre o lucro, que acrescentam de R$ 80,8 milhões a R$ 120,3 milhões à arrecadação. No fim, o governo recebia entre R$ 261,6 milhões e R$ 375,9 milhões sobre os mesmos R$ 6,5 bilhões.
Governo ganhava mais que as empresas
O lucro líquido das operadoras fica entre R$ 153,4 milhões e R$ 228,3 milhões, o equivalente a 2,36% a 3,51% dos depósitos. Em todos os cenários, o poder público recebia de 1,6 a 1,8 vez o lucro líquido das empresas.

As “8 milhões de cestas básicas”, divididas
Aplicando a mesma régua, de R$ 812,50 por cesta, a divisão fica assim:
⇒ 6,8 a 7,1 milhões de cestas já voltavam ao apostador em prêmios
⇒ 322 mil a 463 mil equivalem ao que ia para o governo
⇒ 352 mil a 480 mil pagavam fornecedores, salários e operação
⇒ 189 mil a 281 mil eram o lucro líquido das empresas
Os custos também não somem
Os 40% do GGR consumidos pela operação remuneram provedores de jogos, meios de pagamento, tecnologia, marketing, folha de pagamento e obrigações regulatórias. Esse dinheiro vira salário, contrato com fornecedor e mais arrecadação.

Contexto
Em junho, o mesmo Durigan avaliava que uma eventual proibição das bets poderia ser prejudicial por estimular e ampliar o mercado ilícito. Com a MP 1.394, junto com o lucro das empresas desaparecem os tributos, os empregos e os contratos que esse faturamento sustentava. A medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso e é alvo de ações no STF, sob relatoria do ministro Luiz Fux.


