Mercados de previsão em eleições americanas preocupam especialistas com desinformação

Apostas I 01.11.26

Por: Elaine Silva

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Tribunais americanos decidirão se mercados de previsão são derivativos federais ou jogos de azar
Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem apostas em resultados de pleitos e geram debate sobre riscos de fraudes

As eleições legislativas dos Estados Unidos, as chamadas midterms, ocorrem em um momento de expansão dos mercados de previsão, plataformas digitais em que usuários podem apostar dinheiro em resultados de acontecimentos, incluindo disputas eleitorais. O crescimento dessas ferramentas preocupa especialistas, que alertam para riscos de desinformação e de interpretações equivocadas sobre os resultados das urnas.

Segundo o G1 Economia, plataformas como Polymarket e Kalshi permitem que usuários negociem contratos cujo valor depende de resultados eleitorais. Pesquisas indicam que a maioria dos americanos é contrária à realização de apostas sobre eleições, mas as estimativas divulgadas por essas plataformas já passaram a integrar a cobertura de grandes veículos de comunicação.

No Brasil, o tema foi regulado antes das midterms. Uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) proibiu, a partir de maio de 2026, a oferta de contratos vinculados a resultados eleitorais e a outros eventos sem relação com indicadores econômicos e financeiros. A medida também levou ao bloqueio de Polymarket e Kalshi no país.

Probabilidades versus resultados

Especialistas alertam que os percentuais exibidos nessas plataformas podem ser confundidos com resultados já definidos, e não com estimativas. Davina Hurt, diretora de ética governamental do Centro Markkula de Ética Aplicada da Universidade de Santa Clara, avalia que essas ferramentas já se tornaram centrais na forma como o eleitorado americano acompanha os pleitos.

“Elas se tornaram cada vez mais parte de como os americanos entendem as eleições”, declarou Hurt. Para ela, “estamos chegando a um ponto em que as expectativas dos mercados financeiros têm mais peso na mente do público do que os votos”.

Há ainda o risco de que uma divergência entre os mercados de previsão e o resultado das urnas seja interpretada como indício de fraude eleitoral, mesmo sem qualquer irregularidade. Hurt ressalta que probabilidades elevadas não equivalem a certezas. “Uma alta probabilidade não é uma promessa. Quando uma previsão acaba se revelando errada, isso não significa que a escolha tenha sido equivocada. No entanto, as pessoas vão interpretar dessa maneira”, disse.

A própria Kalshi reconhece que as probabilidades que divulga não garantem resultados. A empresa argumenta que tentativas de manipular as estimativas tendem a ser compensadas pelas negociações de outros usuários da plataforma. Elisabeth Diana, diretora de comunicação da Kalshi, declarou à AFP que “a Kalshi deve ser vista como um complemento às pesquisas tradicionais”.

O caso de Los Angeles

Um episódio nas eleições primárias para a Prefeitura de Los Angeles, em junho, ilustrou os riscos apontados pelos especialistas. Após a derrota do republicano Spencer Pratt, influenciadores de direita fizeram acusações de fraude eleitoral com base nas estimativas das plataformas, que indicavam chances de o candidato avançar para a eleição geral. Parte das publicações com informações falsas na rede social X aparecia identificada como “parceria paga”.

Michael Sánchez, porta-voz do Escritório de Registro Eleitoral do Condado de Los Angeles, avaliou que “a primária de junho mostrou como as expectativas sobre uma eleição podem ser confundidas com os resultados”. O episódio levou Polymarket e Kalshi a adotar medidas em relação à divulgação desse tipo de conteúdo.

Em documento obtido com exclusividade pela AFP, a Kalshi orientou seus parceiros a não questionar resultados eleitorais oficiais sem fundamentos. Segundo o documento, os parceiros “não devem questionar a integridade nem a precisão de nenhum resultado oficial da contagem de votos, decisão judicial ou outra determinação oficial ou formal ligada ao processo eleitoral”. A empresa também afirmou que romperá contratos com parceiros que fizerem acusações sem provas de que um resultado eleitoral foi manipulado, fraudado ou comprometido. A Polymarket não respondeu aos pedidos de comentário.

Regulação em debate

Os mercados de previsão ainda enfrentam disputas judiciais nos EUA sobre quais regras devem seguir; a discussão central é se essas plataformas devem ser reguladas como mercados de commodities ou sujeitas às leis sobre apostas.

Jared DeMarinis, responsável pela administração das eleições no estado de Maryland, pediu uma avaliação sobre a legalidade das apostas vinculadas a disputas eleitorais em seu estado. Em entrevista à AFP, ele também proibiu os mesários de apostar em resultados eleitorais. “Agora simplesmente se jogou mais gasolina ao envolver dinheiro nisso. O que menos se quer é que se coloque em dúvida a legitimidade do resultado”, afirmou DeMarinis.

 

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