O Futuro do jogo no País.

Hora de decisão nos bingos. Setor que gira R$ 3,5 bilhões por ano terá que dividir lucros com o governo ou fechar

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É praticamente impossível entrar numa casa de bingo sem se deixar levar pela atmosfera de cores, sons, luzes e prêmios. Na decoração, tudo remete aos famosos cassinos de Las Vegas. Basta passar pelos seguranças para dar de cara com os caça-níqueis, que os empresários preferem chamar de vídeo-bingos. Essas maquinetas, em geral, dão sorte aos principiantes e logo criam a sensação de que aquele dia reserva-lhes algo de especial. Nos grandes salões onde são jogadas as cartelas, oferecem-se drinques e petiscos gratuitos para segurar ao máximo o freguês. Em apostas que vão de um a três reais, dependendo da casa, logo se vai uma noite. E assim, usando todos os artifícios para seduzir os jogadores, os bingos criaram uma indústria poderosa no Brasil, que movimenta R$ 3,5 bilhões por ano e, de acordo com os empresários, emprega mais de 100 mil pessoas.
Pois esse setor vive seu momento crucial, às vésperas da
votação no Congresso do Projeto de Lei 1.037/99, que define a regulamentação das casas de bingo no País. Eles ficariam sob
tutela da Caixa Econômica Federal, que seria responsável por direcionar 14% da arrecadação do jogo ao esporte e a programas de assistência social, metade para cada. O volume representa um valor próximo a R$ 480 milhões. “Essa quantia poderá ser ainda maior, já que apenas 30% dos bingos estão legalizados”, explica o deputado Gilmar Machado (PT-MG), relator do projeto. A parte que cabe ao social poderia vir a ajudar o Programa Fome Zero. O projeto ainda prevê que as cartelas do jogo sairão numeradas da Caixa para que se tenha controle dos gastos feitos pelos apostadores. “Do jeito que está, o Estado deixa de arrecadar”, salienta o deputado. “Nossa idéia é que a Caixa assuma definitivamente os bingos”, confirmou Agnelo Queiroz, ministro dos Esportes, que quer repasse de 9% para sua pasta.
A discussão sobre a legalização dos bingos, além do aspecto econômico, também traz à tona questões de saúde pública. A facilidade de acesso ao jogo no Brasil criou uma leva de jogadores compulsivos. DINHEIRO ouviu um empresário que perdeu US$ 3 mil em uma única noite. Hoje, ele faz parte da associação Jogadores Anônimos. “É uma doença que te leva a jogar sem parar”, afirma. “Dentro de algumas casas de jogo, existem até terminais dos principais bancos em que é possível retirar dinheiro durante toda a noite”, denuncia. Olavo Sales da Silveira, presidente da Associação Brasileira de Bingos, rebate esses argumentos dizendo que os jogadores compulsivos são minoria. “Os brasileiros não podem ser rotulados como incapazes de controlar suas emoções”, diz. O fato é que, mesmo internacionalmente, há estudos mostrando que os ganhos econômicos dos bingos são discutíveis. Uma pesquisa feita em 1995, no Estado americano de Iowa, mostrou que o número de pessoas com problemas crônicos ligados à prática de jogos cresceu de 1,7% para 5,4% após a presença dos cassinos. Já em Wisconsin, a abertura de pontos de jogo fez a taxa de crime aumentar 6,7%.
De qualquer forma, ao que tudo indica, a lei deve ser aprovada e o bingo regulamentado no País. Por isso, especialistas defendem que parte dos recursos arrecadados seja revertida para a prevenção, a divulgação dos riscos e o tratamento. Uma pesquisa feita em um bingo de São José dos Campos, no interior de São Paulo, com 120 entrevistados, mostrou que 45% deles demonstravam propensão a serem jogadores patológicos. “O jogo causa uma dependência semelhante à das drogas”, diz Maria Paula de Magalhães, fundadora do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Escola Paulista de Medicina.
Isto É Dinheiro – Renato Mendes

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