Padilha celebra o caos: governo empurrou apostadores para a ilegalidade e agora oferece teleatendimento

Apostas I 29.10.26

Por: Magno José

Compartilhe:
Padilha celebra o caos: governo empurrou apostadores para a ilegalidade e agora oferece teleatendimento 1
Às vésperas da audiência no STF, vídeo do ministro da Saúde atribui à proibição das bets “mais comida na mesa” sem qualquer comprovação, enquanto o SUS perde os recursos da Lei 14.790 e passa a arcar sozinho com o tratamento de quem aposta em sites ilegais

Nos últimos dias, o país assiste a uma campanha bem orquestrada. Primeiro, a ABRAS anunciou em coletiva uma alta “atípica” nas vendas dos supermercados e a atribuiu à proibição das bets. No mesmo dia, o vice-presidente Geraldo Alckmin gravou um vídeo sobre o tema. Agora é a vez do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que publicou no Instagram um vídeo celebrando “mais comida na mesa da população brasileira” como “resultado da proibição das bets”.

O momento não é acidental. Na próxima semana, em 3 de novembro, o Supremo Tribunal Federal realiza a audiência pública da ADI 8027, e o ministro Luiz Fux deve decidir sobre as ações que questionam a MP 1.394/2026. A sucessão de declarações sem lastro metodológico tem o claro objetivo de constranger a Corte.

 

Ver esse post no Instagram

 

Um post compartilhado por Alexandre Padilha (@padilhando)

Um dado sem comprovação

O ministro repete a tese da ABRAS como se fosse fato. A entidade não apresentou controle para o fim do prazo de saque dos saldos nas plataformas, encerrado em 5 de outubro, nem para o feriado prolongado de 12 de outubro. Em seguida, Padilha menciona “outras pesquisas” sobre a queda do endividamento familiar, sem dizer quais, de que período ou com que metodologia. Um ministro da Saúde usando dado de varejo, divulgado por entidade interessada, como prova de política sanitária: eis a narrativa substituindo a evidência.

Há ainda uma ironia política. A tese que o governo agora celebra foi divulgada pela ABRAS, presidida por João Galassi, candidato a deputado federal por São Paulo em 4 de outubro. Na campanha, Galassi apoiou Flávio Bolsonaro, adversário de Lula, e exibiu nas redes sociais o apoio de candidatos aliados. Não se elegeu. Ou seja, o governo Lula, por meio do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre Padilha, passou a reproduzir sem checagem o dado de uma entidade comandada por um político do campo adversário, desde que ele sirva à narrativa contra as bets.

O governo que promete proteger é o mesmo que desprotegeu

O ponto central do vídeo é o convite ao teleatendimento pelo Meu SUS Digital para quem enfrenta dependência em apostas. A preocupação é legítima. O problema é a contradição. O mesmo governo que hoje promete cuidar do apostador foi o que o empurrou para os sites ilegais.

No mercado regulado, havia verificação de idade e identidade, proibição de pagamento com cartão de crédito, ferramentas de autoexclusão, limites de depósito, monitoramento de comportamento de risco e alertas de saúde. Nas plataformas ilegais, que seguem no ar e crescem após a MP, como mostram os relatórios de monitoramento da LegitBet, nada disso existe. Não há controle de idade, não há controle financeiro, e o apostador pode pagar com cartão de crédito. Menores, endividados e jogadores compulsivos ficaram sem qualquer barreira.

A conta que fica com o SUS

Resta a questão do dinheiro. Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, as bets autorizadas geraram GGR de R$ 67 bilhões, segundo dados da SPA-MF obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação. Pelos percentuais fixados pela Lei 14.790/2023, a Lei das Bets, isso representa cerca de R$ 67 milhões para o Ministério da Saúde e R$ 804,5 milhões para a Seguridade Social. O valor pode ser ainda maior, porque a Lei Complementar 224/2025 elevou a alíquota de 12% para 13% em 2026, com parte do acréscimo destinada à saúde. Esses recursos existiam justamente para financiar a prevenção e o tratamento dos danos associados ao jogo.

Padilha celebra o caos: governo empurrou apostadores para a ilegalidade e agora oferece teleatendimento

Com a proibição, essas fontes secaram. O Ministério da Saúde e a Seguridade Social não receberão mais um centavo das apostas e, ainda assim, a Saúde terá de custear o atendimento dos jogadores com problemas, agora apostando em plataformas que não pagam tributos, não financiam a saúde pública e não respondem a nenhuma regra. Vale lembrar que o BNLData já mostrou, com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, que o teleatendimento registrou 291 atendimentos diante de uma capacidade contratada de 100 mil por mês.

A celebração do caos

O vídeo do ministro, no fundo, é a celebração do caos. O governo instituiu o caos ao fechar o mercado regulado e, agora, anuncia que vai cuidar dos jogadores problemáticos que apostam nas plataformas ilegais para onde ele próprio os empurrou. Proteger o cidadão era exatamente o que a regulamentação fazia. Proibir não elimina o jogo, apenas tira o Estado da sala. Como o BNLData repete há anos, o jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível.

 

EGT - 728 X 90EGT - 1280 x 90 1

Compartilhe: