Pesquisa financiada pela Open Society recomendava restrição gradual; no STF, virou argumento para proibir as bets

Apostas I 08.11.26

Por: Magno José

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Pesquisa financiada pela Open Society recomendava restrição gradual; no STF, virou argumento para proibir as bets
Estudo “Mulheres & Bets”, entregue por Janja a Fux, propunha começar pelos cassinos online e não pedia o fim das apostas esportivas. A gestora do patrimônio da fundação declarou à SEC ações de Caesars e MGM, sócia da Globo na BetMGM Brasil (Foto: Divulgação)

O relatório “Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias”, que a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, entregou ao ministro Luiz Fux na audiência pública de 3 de novembro no Supremo Tribunal Federal (STF), foi financiado pela Open Society Foundations, entidade filantrópica criada pelo investidor George Soros. Segundo o Pleno.News, a informação está na ficha técnica do estudo, divulgado em 17 de agosto pela Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA.

O financiamento não invalida os dados. Mas o percurso do documento levanta uma questão que não foi respondida: um estudo que recomendava restringir as apostas de forma gradual, começando pelos cassinos online, tornou-se peça de defesa da Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu todas as apostas de quota fixa no país.

O que a pesquisa recomendava

A conclusão do relatório organiza as propostas em três eixos:

⇒ fortalecer a rede de saúde pública que atende apostadores e familiares afetados;

⇒ evitar que mais pessoas comecem a apostar, com restrições à publicidade;

⇒ restringir gradualmente as modalidades de aposta, começando pelos cassinos online.

Quando a pesquisa foi lançada, a própria Clarice explicou a prioridade. As coordenadoras disseram que as restrições deveriam atingir primeiro o cassino digital, mais rápido e mais acessível, e só depois as apostas esportivas, em que o apostador espera o jogo acontecer. A recomendação partia de um recorte de gênero: entre as apostadoras, cerca de metade joga em cassinos online, e só 26% apostam em futebol.

Os números da própria pesquisa também não apontam consenso pela proibição total. De fato, 62% das mulheres e 50% dos homens apoiam a proibição dos jogos online, o que dá 56% no conjunto da população. Mas 41% das mulheres, e 47% dos homens, concordam que as casas de apostas continuem operando, desde que proibidas de fazer propaganda.

Da pesquisa à incidência política

Em 28 de setembro, três dias depois da edição da MP, a Folha de S.Paulo publicou o artigo “O que as mulheres ganham com o fim das bets”. Assinaram o texto Beatriz Della Costa e Mariana Ribeiro, codiretoras da Clarice, e Sylvia Siqueira, gerente de Democracia para América Latina da Open Society Foundations. O artigo usou a pesquisa para defender a MP, sem mencionar que o estudo havia proposto restrições graduais, e não a proibição total, como o BNLData apontou em FactCheck.

Em 3 de novembro, Mariana Ribeiro acompanhou Janja e a produtora Paula Lavigne na entrega do relatório a Fux, antes da audiência. Na abertura da sessão, o ministro disse ter recebido “um relatório bastante volumoso e detalhado” e prometeu levá-lo em conta. Nem a primeira-dama nem a Clarice estavam entre os 34 expositores inscritos.

Os investimentos da gestora

A Soros Fund Management, family office da família Soros, administra cerca de US$ 28 bilhões e se apresenta como a principal gestora de ativos da Open Society Foundations. No relatório 13F enviado à Securities and Exchange Commission (SEC), com posição de 30 de junho de 2026, a gestora declarou:

⇒ 494.990 ações da Caesars Entertainment, avaliadas em US$ 14,94 milhões;

⇒ 38.752 ações da MGM Resorts International, avaliadas em US$ 1,85 milhão.

As duas posições somam cerca de US$ 16,8 milhões, uma fração pequena da carteira. O formulário também não diz se as ações pertencem à fundação ou aos demais clientes da gestora. Não há, portanto, evidência de que esses investimentos tenham influenciado o estudo. E, no caso da MGM, o interesse seria o oposto: a empresa é sócia do Grupo Globo na BetMGM Brasil, licenciada pela Secretaria de Prêmios e Apostas desde dezembro de 2024 e atingida pela proibição.

A questão, então, não é de favorecimento, mas de coerência e transparência. A fundação financia uma pesquisa crítica às apostas online, enquanto o dinheiro que sustenta suas doações é administrado por uma gestora com posições em operadores de cassino.

Nota de transparência

Em FactCheck publicado em setembro sobre o artigo da Folha, o BNLData registrou que não havia informação pública sobre o financiamento da pesquisa. A informação, porém, consta da ficha técnica do relatório. O texto foi atualizado.

Não é ilegítimo uma fundação estrangeira financiar pesquisa no Brasil, nem pesquisadoras defenderem posições políticas. O que se espera é transparência: quem pagou, quanto pagou e por que a conclusão apresentada no Supremo é mais radical do que a que a própria pesquisa recomendava.

 


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