Home Jogo Responsável Proibição de bingos esvazia reuniões de Jogadores Anônimos.
< Voltar

Proibição de bingos esvazia reuniões de Jogadores Anônimos.

30/04/2004

Compartilhe

"Só por hoje evitarei a primeira aposta". O lema, dos Jogadores Anônimos, ou JA, associação que ajuda dependentes a abandonarem o jogo, deixou de ser proferido por pacientes em tratamento depois da medida provisória que proibiu o funcionamento das casas de bingo, no final de fevereiro.

Segundo funcionários do JA de São Paulo e do Rio de Janeiro, o movimento das reuniões semanais do grupo diminuiu. "Com os bingos fechados, as pessoas passaram a ter uma falsa sensação de segurança e interromperam o tratamento", explica um coordenador do JA do Rio. "Só que, mesmo sem os bingos, elas ainda são jogadoras compulsivas. Há órfãos de bingo do Rio que agora freqüentam o jóquei, por exemplo".

O jogo patológico é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1992. Quem sofre do mal não resiste à tentação de jogar. E, quando está jogando, não consegue parar, mesmo perdendo muito.

Um coordenador do JA de São Paulo arrisca uma previsão: "Devemos ter um aumento na procura por tratamento agora que há liminares reabrindo bingos".

No Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo) do Hospital das Clínicas de São Paulo, em que 80% da demanda por tratamento é de jogadores de bingo, esse aumento já ocorreu: a procura por informações sobre a doença no serviço telefônico cresceu 50%.

"O bingo ganhou tantos adeptos porque era a forma mais disponível e judicialmente permitida de jogar", afirma o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Amjo. Ele explica que o dependente, quando impossibilitado de jogar, sofre crise de abstinência com sintomas como insônia, irritabilidade e inquietação. "Um terço deles, no entanto, apresenta sintomas físicos semelhantes aos dos usuários de derivados de ópio [morfina e heroína, por exemplo]: sudorese, arrepios e taquicardia", diz.

Clínica geral

Durante 20 anos, o professor universitário Carlos (nome fictício), 45, foi o que chama de "clínica geral". "Jogava de tudo: baralho, cassino, jogo do bicho e vídeo pôquer." Mas, quando surgiram bingos aos montes pela cidade, Carlos foi garfado pela facilidade.
Após três tentativas frustradas de tratamento, há mais de um ano ele está longe do jogo. Leia trechos da entrevista:

Folha – Quanto dinheiro você calcula hoje ter perdido no jogo?

Carlos – Mais de R$ 700 mil.

Folha – Quantas horas passava em média nos bingos?
Carlos – É mais fácil perguntar quantas horas eu passava fora dos bingos. Costumava dormir, no máximo, uma ou duas horas por noite para ter tempo para jogar.
Folha – Como sustentou o vício?

Carlos – Roubei, dei cheques sem fundo, peguei empréstimos com cheques falsos… Ainda hoje respondo a um processo por furto.

Folha de São Paulo (SP) – Fernanda Mena