377 afastamentos por ludopatia em 4 milhões no INSS

O g1 publicou em 31 de outubro um levantamento sobre os benefícios do INSS concedidos com o CID F63.0, o jogo patológico. Foram 377 afastamentos entre janeiro e agosto de 2026, contra 312 em todo o ano de 2025. O número é real. O que falta na reportagem é escala.
Em 2025, o INSS concedeu mais de 4 milhões de benefícios por incapacidade temporária, o antigo auxílio-doença. Desses, 546.254 foram por transtornos mentais. Os 312 casos de ludopatia equivalem a 0,06% dos afastamentos por saúde mental e a menos de 0,01% do total. Em números redondos, são 377 em 4 milhões.
O jogo diante do álcool e das drogas
Entre os dez diagnósticos que mais afastaram trabalhadores por saúde mental em 2025, o álcool aparece em oitavo lugar, com 12.758 concessões. A ludopatia nem entra no ranking.

Álcool, cocaína e múltiplas drogas somaram cerca de 45 mil afastamentos em 2025, 146 vezes a ludopatia. Mesmo projetando 2026 para o ano inteiro, cerca de 566 casos de jogo patológico, o álcool sozinho continua 22 vezes maior.
A reportagem argumenta que os casos de ludopatia são subnotificados, porque muitos apostadores entram no INSS com CID de depressão ou ansiedade. O argumento vale igualmente para alcoolistas e dependentes químicos, que também chegam à perícia com esses diagnósticos. A subnotificação não altera a proporção. Ninguém pede a proibição da cerveja.

A conta que não fecha
As bets reguladas não apenas pagavam impostos. Por lei, parte da arrecadação ia diretamente para a Seguridade Social e para o Ministério da Saúde. Em 2025, as destinações legais somaram R$ 4,5 bilhões:

No primeiro semestre de 2026, as destinações sociais somaram R$ 2,49 bilhões, dos quais R$ 24,19 milhões para a Saúde. Além disso, as bets recolhem PIS e Cofins, contribuições que também financiam a Seguridade Social. Em 2025, a Receita Federal arrecadou R$ 9,95 bilhões em tributos do setor; de janeiro a setembro de 2026, foram R$ 11,12 bilhões.
Considerando todo o período do mercado regulado, entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, as bets autorizadas geraram GGR de R$ 67 bilhões, segundo dados da SPA/MF obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação. Pelos percentuais fixados pela Lei 14.790/2023, a Lei das Bets, isso representa cerca de R$ 804,5 milhões para a Seguridade Social e R$ 80,4 milhões para o Ministério da Saúde.
Agora, a comparação. O g1 estima que os afastamentos por ludopatia custaram R$ 4,8 milhões à Previdência entre junho de 2023 e agosto de 2026. Só o repasse das bets à Seguridade Social em 2025 cobre esse valor 95 vezes. No período regulado inteiro, os R$ 804,5 milhões destinados à Seguridade equivalem a 168 vezes o custo da ludopatia ao INSS.
Na Saúde, os recursos das bets financiaram o programa de cuidado a pessoas com problemas relacionados a apostas e o teleatendimento do Meu SUS Digital. O contrato do Ministério da Saúde com o Hospital Sírio-Libanês para esse serviço é de R$ 2,94 milhões.
Com a MP que proibiu as apostas, o tratamento continua, mas a contrapartida acabou. O Ministério do Planejamento estima perda de R$ 1,5 bilhão em arrecadação nos últimos meses de 2026 e de R$ 5,3 bilhões em 2027. O mercado ilegal não recolhe tributos nem financia nenhum CAPS.
O número do IEPS não é gasto com saúde
A reportagem cita estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) de que os custos das apostas ligados à saúde chegariam a R$ 30,6 bilhões por ano. Esse número não é gasto com saúde. Faz parte de uma estimativa de “custo social” de R$ 38,8 bilhões.
Desse total, R$ 17 bilhões são o valor atribuído a mortes por suicídio e R$ 10,4 bilhões à perda de qualidade de vida por depressão. Apenas R$ 3 bilhões se referem a tratamento médico.
A metodologia é precária. Os valores vêm de um estudo do governo britânico, convertidos para reais e aplicados a uma pesquisa brasileira sobre uso de drogas. Os próprios autores admitem, em nota no gráfico, que “não é possível afirmar que tais danos foram causados diretamente pelo jogo problemático”. É associação, não causa.
O jogo problemático existe e precisa de política pública, mas com dados honestos.

Dois pesos, duas medidas
Atividades legais e reguladas com externalidades negativas muito maiores não são alvo de campanhas de proibição, demonização e criminalização como as que as bets enfrentam hoje.
⇒ Tabaco. O INCA estima que os danos do tabagismo custam R$ 153,5 bilhões por ano ao país, com 174 mil mortes evitáveis. Os impostos federais sobre o setor cobrem apenas 5,2% desse custo. O cigarro segue legal, tributado e regulado.
⇒ Álcool. A Fiocruz estimou em R$ 18,8 bilhões o custo do consumo de álcool em 2019, com 104,8 mil mortes, 12 por hora. Só o custo previdenciário foi de R$ 47,2 milhões naquele ano, quase dez vezes o que a ludopatia custou ao INSS em três anos. A cerveja segue anunciada na TV e patrocinando o futebol.
⇒ Apostas reguladas. Destinaram R$ 4,5 bilhões a políticas públicas em 2025 e custaram R$ 4,8 milhões ao INSS em três anos. Foram proibidas por medida provisória.
Para o cigarro e a bebida, o Estado escolheu regular, tributar, advertir e tratar. Para as bets, escolheu proibir, demonizar e empurrar o apostador para a ilegalidade. Não há critério de saúde pública que explique a diferença. Há narrativa.
85 anos sem cultura de jogo
O Brasil chegou às apostas on-line sem nenhuma cultura de jogo. A causa é a proibição injustificável que vigora desde a Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei 3.688/1941), que completou 85 anos em outubro, reforçada pelo fechamento dos cassinos em 1946.
A proibição não acabou com o jogo. O jogo do bicho, os bingos clandestinos e as máquinas caça-níqueis seguiram funcionando à margem da lei. O jogo é legal ou ilegal, o não jogo é impossível.
O que a proibição eliminou foi tudo o que um mercado legal produz:
⇒ educação para o jogo responsável, como existe para o álcool e o tabaco;
⇒ pesquisa epidemiológica contínua (a própria reportagem admite que o dado mais recente é de 2023);
⇒ rede de tratamento especializada e profissionais formados para identificar o transtorno;
⇒ famílias e empregadores capazes de reconhecer os sinais de alerta.
Quando as apostas de quota fixa foram autorizadas em 2018, o país passou cinco anos sem regulamentação. A população não tinha referências. O psiquiatra ouvido pelo g1 atribui a demora no crescimento dos afastamentos justamente à lentidão da sociedade em entender o vício como doença. É o retrato de 85 anos de proibição.
A MP das bets repete o erro. Em vez de construir essa cultura, devolve o apostador à clandestinidade.
O que a reportagem não explica
⇒ Os números por estado não fecham. São Paulo (297), Minas Gerais (110), Rio Grande do Sul (76), Rio de Janeiro (68) e Paraná (58) somam 609 casos, mais que os 377 de 2026. A série deve ser acumulada desde 2018, mas o período não é informado.
⇒ A universidade está errada. A matéria cita a “Universidade Federal de São Paulo (USP)”. São duas instituições diferentes: a federal é a Unifesp; a USP é estadual.
⇒ Períodos misturados. A reportagem diz que as bets foram liberadas em 2018, mas mistura os cinco anos sem regras com o mercado regulado, que só começou a operar em janeiro de 2025.
⇒ O caso BetBoom prova que havia regras. A própria promotoria afirma que a conduta investigada já era vedada pela regulamentação. Regra violada se pune; não justifica proibir todo o setor.
O alerta mais importante da matéria vem do promotor Paulo Roberto Binicheski, do MPDFT. Ele diz que o efeito imediato da MP é a migração para o mercado ilegal, onde nem as indenizações serão pagas, porque essas empresas mantêm o dinheiro no exterior.
Selo Narrativa BNLData
Quando os números servem ao discurso, e não aos fatos
Alegações sem base metodológica e estudos sem comprovação usados contra o setor de apostas recebem o Selo Narrativa do BNLData.


