Operações suspeitas em plataforma de apostas somam US$ 143 mi e levantam dúvidas

Pesquisadores da Columbia Law School e da Universidade de Haifa identificaram transações com indícios de uso de informações privilegiadas na Polymarket, plataforma de apostas em eventos globais. O estudo analisou operações realizadas nos últimos dois anos. Os lucros totais das transações suspeitas somam cerca de US$ 143 milhões.
A análise examinou o livro-razão em blockchain que registra as negociações da Polymarket em busca de padrões consistentes com o uso de informações não públicas, segundo informações do Valor com Bloomberg.
Transações concentradas movimentam mercados
Movimentações concentradas agitaram os mercados futuros na segunda-feira (23/3). As transações ocorreram minutos antes de uma publicação do presidente americano Donald Trump nas redes sociais sobre o Oriente Médio. A postagem provocou queda nos preços do petróleo e alta nas ações.
O episódio gerou discussões em Wall Street e Washington sobre a possibilidade de pessoas com acesso a informações privilegiadas estarem utilizando conhecimento antecipado sobre decisões de Trump relacionadas ao Irã para obter lucros.
Um conjunto de contas interligadas na Polymarket apareceu de forma recorrente nos últimos três meses. Essas contas acumularam lucros de US$ 1,6 milhão com apostas sobre movimentos de Trump no Irã e na Venezuela. A revisão das negociações foi inicialmente identificada por um usuário conhecido como Andrew 10 GWEI. A Bloomberg News e a empresa de análise forense de blockchain Bubblemaps confirmaram de forma independente os achados.
As operações envolveram usuários da Polymarket que utilizaram mais de três dezenas de carteiras. Todas as negociações foram convertidas em dinheiro para um único endereço na corretora de criptomoedas Coinbase. Mais de 30 desses endereços apostaram exclusivamente em mercados relacionados ao Irã. Essas contas registraram taxa de acerto de 100%.
Mercados preditivos criam condições para operações questionáveis
O surgimento de novas plataformas de mercados de previsão tornou possível apostar diretamente em acontecimentos geopolíticos. Algumas dessas plataformas operam com menos supervisão do que outras.
Joshua Mitts, professor de direito da Universidade Columbia e coautor do estudo acadêmico, afirmou: “A ideia de que alguém negociaria com base em informações de segurança nacional ou informações sobre atividade terrorista iminente — as pessoas achavam que isso nem era possível”. Ele acrescentou: “Hoje, o que estamos vendo nesses mercados de previsão é que, na verdade, isso é bastante possível”.
A Polymarket opera em blockchain fora dos Estados Unidos. A plataforma não possui supervisão regulatória americana ou verificação de identidade dos usuários. Esta estrutura permite transações anônimas em eventos sensíveis, incluindo conflitos militares.
A Polymarket e sua maior concorrente, a Kalshi, registraram semanas de negociação recordes consecutivas. As plataformas movimentaram quase US$ 6 bilhões em volume nocional em uma única semana de março, segundo dados compilados por usuários na Dune Analytics.
Análise forense identifica padrões suspeitos
Nicolas Vaiman, diretor-executivo da Bubblemaps, plataforma de análise de blockchain, declarou: “A combinação de fatores que analisamos apresenta todos os sinais potenciais de uso de informação privilegiada”. Ele explicou que isso incluía “apostas feitas no momento certo, pouco antes da resolução do mercado, novas contas, altas taxas de acerto e múltiplas contas conectadas apostando nos mesmos mercados”.
A Bubblemaps constatou que a maioria das contas havia sido financiada recentemente. As contas apresentavam histórico de negociações mínimo. A sincronização coordenada das apostas, realizadas um dia ou horas antes dos eventos acontecerem, sugere acesso a informações antecipadas sobre as ações militares.
O maior sinal de alerta identificado pelas empresas de perícia foi a forma como todas as carteiras canalizaram seus ganhos para um único endereço na Coinbase. Esse padrão reforça a hipótese de que se trata de um único operador coordenando múltiplas contas.
O livro-razão da Polymarket permitiu que Andrew 10 GWEI oferecesse a primeira análise do que parece ser um único operador. Esse operador ganhou milhões de dólares apostando em movimentos militares dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã.
A aposta individual mais lucrativa rendeu US$ 170 mil. Essa aposta estava ligada a Nicolás Maduro perdendo a liderança da Venezuela até 31 de janeiro. As apostas nos mercados relacionados ao Irã foram mais amplamente distribuídas. Quase todas as apostas relacionadas ao Irã estavam corretas. Essas apostas renderam US$ 1,35 milhão em lucros totais.
As investigações não identificaram publicamente os operadores responsáveis pelas transações suspeitas. Também não estabeleceram conexões diretas com fontes governamentais de informação. Não há prova definitiva apontando para pessoas com acesso a informações privilegiadas específicas em ação. Também não existe comprovação de que essas pessoas tenham acesso a alguém na Casa Branca.
Congresso americano pressiona por regulamentação
O setor nascente de mercados preditivos enfrenta meses de pressão no Congresso americano para conter suas atividades. Democratas apresentaram novos projetos de lei. Os primeiros senadores republicanos aderiram a uma legislação que impõe restrições.
Na semana passada, republicanos em Washington passaram a apoiar iniciativas regulatórias. Todd Young, de Indiana, e John Curtis, de Utah, juntaram-se a democratas no Senado para apresentar projeto de lei focado em transparência e penalidades.
Todd Young concedeu entrevista ao programa Bloomberg This Weekend na quinta-feira. Ele detalhou a proposta legislativa. O projeto de lei proposto exigiria que integrantes e funcionários do Poder Executivo divulgassem suas atividades em mercados de previsão. A proposta também estabeleceria penalidades para má conduta.
“Queremos garantir que existam penalidades e procedimentos estabelecidos”, disse Young em entrevista. O objetivo, segundo ele, é garantir que ninguém esteja “lucrando com sua posição de confiança pública”.
No mesmo dia da proposta legislativa, a Polymarket atualizou suas regras de conduta para usuários. A plataforma esclareceu que certos tipos de apostas são proibidos. Usuários não podem agir com base em informações confidenciais roubadas. Também não podem apostar usando dicas ilegais ou apostar se estiverem em posição de influenciar o resultado de um evento.
A Polymarket não respondeu a um pedido de comentário sobre as operações identificadas pelas empresas de perícia forense.
Supervisão regulatória enfrenta desafios
A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, responsável pela supervisão destas bolsas nos Estados Unidos, tem sido lenta para estabelecer novas regras. A família Trump mantém diversas ligações com o setor. Isso inicialmente concentrou a oposição em autoridades estaduais e democratas em Washington.
A Polymarket passou a sofrer escrutínio mais rigoroso. Sua principal bolsa opera fora do país, sem supervisão dos Estados Unidos ou verificação de identidade. A plataforma oferece apostas ligadas a conflitos militares. A Kalshi tem rejeitado esse tipo de aposta por considerar antiético e ilegal.
A Kalshi afirmou, na semana passada, que a medida impediria preventivamente que políticos e atletas apostassem em eventos nos quais estivessem pessoalmente envolvidos.
A atenção negativa não parece estar afastando clientes em potencial. Os volumes recordes de negociação registrados nas plataformas demonstram isso. O tema mais popular para apostas é o esporte.


