Lula compara bets ao crack e diz ter “disposição pessoal” para acabar com apostas online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou nesta quarta-feira (16/9) o discurso contra as plataformas de apostas de quota fixa, popularmente chamadas de bets. Em entrevista ao podcast Desce a Letra Show, gravada no Palácio da Alvorada, Lula comparou o avanço das bets ao impacto do crack sobre famílias brasileiras nas décadas de 1980 e 1990, e afirmou ter disposição pessoal para extinguir a modalidade — ainda que tenha condicionado qualquer decisão final a um processo de escuta da sociedade e articulação dentro do governo.
Segundo o presidente, o padrão de endividamento observado entre apostadores repete a dinâmica vivida por famílias durante o auge do crack no país, quando dependentes vendiam bens domésticos para sustentar o vício. Ele citou dois casos que diz ter ouvido pessoalmente: um homem que acumulou dívida de R$ 2,2 milhões após vender loja, carro e o terreno do próprio pai, e uma jovem de 27 anos com débitos de R$ 730 mil.
Do pronunciamento de 1º de maio à comparação com o crack
A fala desta quarta-feira não é isolada — é a mais recente de uma sequência de manifestações do presidente contra o setor que começou no pronunciamento em rede nacional do Dia do Trabalhador e ganhou intensidade diária na última semana:
⇒ 1º de maio — Em pronunciamento oficial em rede nacional de rádio e TV, por ocasião do Dia do Trabalhador e do lançamento do Desenrola 2.0, Lula critica a liberação das bets e anuncia que quem aderir ao programa de renegociação de dívidas ficará bloqueado por um ano nas plataformas de apostas.
⇒ 22 de maio — Em entrevista ao programa Sem Censura (EBC), Lula afirma que pretende defender o fim das bets durante a campanha eleitoral de 2026, mas reconhece que depende do Congresso para mudar a legislação.
⇒ 1º de setembro — Durante evento no Planalto, o presidente volta a tratar o tema como prioridade de governo.
⇒ 13 de setembro — Em live de campanha, diz que fecharia as bets “se dependesse dele”, após relatar ter ouvido oito vítimas de apostas.
⇒ 14 de setembro — Na sanção da lei do Move Brasil, classifica as apostas como “doença” e antecipa que o governo vai anunciar uma decisão em breve.
⇒ 15 de setembro — Em publicação nas redes sociais, ao lado de uma ex-apostadora que usou a ferramenta de autoexclusão, define: “bets não é jogo, é indução ao vício”.
⇒ 16 de setembro — No Desce a Letra Show, eleva o tom e compara o fenômeno ao crack, falando em disposição pessoal para acabar com as apostas online.
O contraponto fiscal
O discurso de escalada ocorre em meio à campanha eleitoral e à queda de aprovação do governo nas pesquisas — mas esbarra numa contradição que a BNLData vem documentando ao longo do ano: a dependência fiscal do próprio governo em relação à arrecadação do setor que agora ataca publicamente. Somente no primeiro ano de vigência da regulamentação, as plataformas de apostas tiveram um GGR de R$ 36,9 bilhões, conforme dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda — recursos que alimentam diretamente a arrecadação prevista na LOA 2026 e na proposta orçamentária para 2027 (PLOA 2027).
O discurso presidencial também não distingue o mercado regulado do ilegal — e é justamente nesse segundo segmento que a ausência de regras, de fiscalização e de mecanismos de proteção ao apostador tende a agravar os quadros de endividamento e dependência que Lula relata. Estimativas do próprio setor apontam que sites e aplicativos não autorizados ainda respondem por algo entre 38% e 44% do volume apostado no país — fatia que não recolhe tributos, não financia a LOA nem a PLOA, e escapa por completo tanto ao discurso quanto às medidas regulatórias anunciadas até aqui pelo governo.
Essa tensão entre o discurso de combate ao “vício”, a falsa atribuição às bets reguladas da responsabilidade pelo endividamento e a estrutura orçamentária que conta com a receita do setor é o pano de fundo que deve determinar se as ameaças presidenciais se converterão em medida concreta — via MP, projeto de lei ou ato infralegal da Secretaria de Prêmios e Apostas — ou permanecerão no campo retórico-eleitoral, como ocorreu nas manifestações anteriores.


