Bets dividem porta-vozes econômicos dos presidenciáveis, mas nenhum explica como repor a arrecadação perdida

Apostas I 16.09.26

Por: Magno José

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Debate promovido por O Globo, Valor Econômico e rádio CBN reuniu assessores de seis campanhas presidenciais nesta terça-feira (15/9). Evento que contou com a participação do ministro da Fazenda; Dario Durigan mostrou convergência em restringir publicidade

As apostas eletrônicas entraram na pauta fiscal da campanha presidencial de 2026. Em sabatina promovida nesta terça-feira (15/9) pelos jornais O Globo e Valor Econômico e pela rádio CBN, em São Paulo, os coordenadores econômicos de seis candidaturas presidenciais discutiram, entre outros temas, o que fazer com o setor de apostas esportivas — e as respostas variaram da tributação reforçada à extinção total das plataformas.

O encontro reuniu os porta-vozes dos presidenciáveis mais bem colocados na pesquisa Quaest mais recente: Dario Durigan, ministro da Fazenda e representante de Luiz Inácio Lula da Silva (PT); Luiz Carlos Hauly, deputado federal e assessor de Augusto Cury (Avante); Kim Kataguiri, deputado federal e porta-voz de Renan Santos (Missão); Carlos da Costa, ex-secretário especial do Ministério da Economia e representante de Romeu Zema (Novo); e Roberto Brant, ex-deputado federal e porta-voz de Ronaldo Caiado (PSD). A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), segunda colocada nas pesquisas, foi a única a declinar do convite e não enviou representante — ficando de fora também da discussão sobre bets.

Convergência: regular como se faz com o tabaco

A posição mais repetida no debate foi a comparação do setor de apostas com o tabagismo como modelo regulatório. Durigan, Kataguiri e Brant defenderam, cada um com sua ênfase, políticas de restrição à publicidade e alertas sanitários equivalentes aos usados no combate ao cigarro.

Durigan, representando o governo, defendeu que o poder público deve tratar o mercado de apostas “da mesma forma rigorosa com que lida com o tabagismo”, com tributação forte e restrições severas. Ele reivindicou o histórico da própria gestão — que regulamentou o setor em 2023, proibiu beneficiários do Bolsa Família, do BPC e inscritos no programa Desenrola de acessar plataformas de apostas, e baniu os mercados preditivos no início de 2026. Ao tratar do endividamento das famílias, o ministro foi além e sinalizou novo aperto: disse que melhoraria a regulação do crédito no país “inclusive restringindo ainda mais as bets”.

Kataguiri seguiu a mesma linha comparativa, propondo que os próprios sites de apostas sejam obrigados a exibir em suas páginas os malefícios do jogo — nos moldes dos avisos estampados em maços de cigarro.

Brant, por Caiado, defendeu a proibição total de propagandas e publicidade de apostas esportivas na mídia e em entidades esportivas. Mas fez uma ressalva que nenhum outro porta-voz explicitou: alertou que a proibição das apostas em si, e não apenas de sua publicidade, poderia empurrar o setor para a ilegalidade.

Zema quer extinção total; Cury tem posição dividida

A posição mais radical do debate veio de Carlos da Costa, representante de Romeu Zema. Ele afirmou que a candidatura defende a extinção e proibição total de todas as modalidades de apostas esportivas no país, classificando a medida como “uma decisão política” — não uma questão técnica ou fiscal.

Já no campo de Augusto Cury, apareceu uma divergência interna explícita entre a proposta oficial da campanha e a opinião pessoal de seu próprio assessor. Hauly afirmou que a proposta oficial de Cury é impor tributação maior sobre as empresas de apostas. Mas, ao ser questionado, declarou que pessoalmente defende algo mais duro: o fim total da publicidade e a extinção das bets e do “jogo do tigrinho”, criticando duramente a presença de jogadores de futebol em campanhas publicitárias de casas de apostas na televisão.

O ponto cego: ninguém diz de onde viria o dinheiro

Nenhum dos cinco porta-vozes presentes apresentou uma proposta concreta para compensar a perda de arrecadação caso as restrições ao setor avancem. O mercado de apostas gerou R$ 12,2 bilhões em arrecadação federal em 2025 — valor que já vinha sendo apontado, antes mesmo deste debate, como a lacuna não resolvida nos planos de governo dos presidenciáveis que defendem banir ou restringir fortemente as bets.

A ausência de uma resposta fiscal para essa equação é particularmente notável no caso de Zema, cuja campanha defende a extinção total do setor, e de Hauly, que pessoalmente defende o mesmo caminho apesar da proposta oficial de Cury ser de tributação — não de banimento.

Bets dividem porta-vozes econômicos dos presidenciáveis, mas nenhum explica como repor a arrecadação perdida

O que isso revela

O debate confirma um padrão que já vinha se desenhando na campanha: há consenso relativamente amplo entre as equipes econômicas em torno de restringir publicidade — inclusive dentro do próprio governo, que já opera essa lógica desde a regulamentação de 2023 —, mas o verdadeiro ponto de ruptura está na pergunta sobre extinguir ou não o mercado regulado. Zema é hoje a única candidatura com posição oficial de banimento total; Caiado é o único a nomear explicitamente o risco de fortalecimento do mercado ilegal como argumento contra a proibição pura; e o campo de Lula é o que mais reivindica capital político sobre controles já implementados, ao mesmo tempo em que sinaliza novas restrições ao crédito ligado às bets.

A ausência de Flávio Bolsonaro — hoje um dos dois nomes à frente nas pesquisas — deixa uma lacuna relevante: sua campanha não teve, neste fórum, a chance de detalhar como pretende equacionar a proposta já conhecida de proibir o uso de recursos de programas sociais em apostas com a questão mais ampla da arrecadação e da regulação do setor.

 

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