O Brasil na contramão de seus vizinhos

Há algo particularmente estranho no momento que estamos vivendo.
O Brasil passou um bom tempo discutindo a regulamentação das apostas.
Criou legislação. Estabeleceu regras. Autorizou operadores. Cobrou outorgas. Atraiu investimentos. Desenvolveu tecnologia. Formou profissionais especializados.
E, justamente quando esse mercado começava a amadurecer, decidiu interromper o processo.
Não vou voltar aqui à discussão sobre a medida provisória. Já escrevemos e falamos bastante sobre ela.
Prefiro olhar para o que está acontecendo ao nosso redor.
O Peru segue desenvolvendo e aperfeiçoando seu mercado regulado.
O Equador avança na estruturação de seu modelo.
A Colômbia já opera há anos um mercado nacional regulado e consolidado.
E, na Argentina, apesar do modelo descentralizado, a maior parte das jurisdições já possui jogo online regulado e operacional.
Cada país tem sua realidade.
Nenhum modelo é perfeito.
Mas a direção importa.
Enquanto o Brasil interrompe uma estrutura que acabou de construir, outros países da região continuam fazendo uma pergunta muito mais interessante:
como podemos regular melhor?
E existe um paradoxo nessa história.
Parte da tecnologia e da expertise que participa dessas discussões foi desenvolvida justamente aqui.
No próximo dia 9 de outubro, a Betshield participará do encontro Ecosistema del Juego Responsable: Regulación, Prevención y Tecnología, voltado ao mercado peruano, ao lado de Yuri Guerra Padilla, Diretor-Geral da Dirección General de Juegos de Casino y Máquinas Tragamonedas do Ministerio de Comercio Exterior y Turismo do Peru, Rodrigo Gajardo, da Pausa Responsable, e Sergio Poves, Presidente Executivo da AIGER, Asociación de iGaming Regulado y Entretenimiento Responsable.
Vamos discutir exatamente aquilo que tenho defendido há bastante tempo no Brasil: prevenção, tecnologia, monitoramento comportamental, identificação precoce de sinais de risco e uma visão integrada do mesmo apostador entre diferentes operadores.
Jogo Responsável baseado em evidências.
É difícil não perceber a ironia.
Uma tecnologia brasileira, desenvolvida a partir dos desafios de um dos maiores mercados de apostas da América Latina, participa das discussões sobre o futuro do Jogo Responsável em outros países justamente quando o Brasil decide interromper seu próprio mercado regulado.
E não digo isso porque considero o mercado brasileiro perfeito.
Tenho críticas fortes à distância entre o discurso de Jogo Responsável e sua aplicação prática.
Tenho defendido monitoramento comportamental centralizado e prevenção justamente porque acredito que havia muito a melhorar.
Mas mercados amadurecem enfrentando seus problemas.
Regulação produz conhecimento.
Fiscalização produz conhecimento.
Dados produzem conhecimento.
Erros também produzem conhecimento.
E tecnologia nasce justamente da necessidade de resolver esses erros.
Enquanto outros mercados discutem como melhorar prevenção, fiscalização e Jogo Responsável, o Brasil escolheu interromper uma experiência regulatória que ainda tinha muito a evoluir.
Talvez o desperdício não esteja apenas nos investimentos, empregos ou arrecadação.
Talvez esteja também no conhecimento que começávamos a construir.
O Peru pode aprender com nossos acertos e nossos erros.
O Equador pode incorporar soluções que nós demoramos para desenvolver.
Colômbia e Argentina podem continuar aperfeiçoando mercados que já existem.
E empresas brasileiras podem contribuir para todos esses processos.
Isso é motivo de orgulho.
E também de reflexão.
Enquanto nossos vizinhos avançam utilizando conhecimento e tecnologia desenvolvidos no Brasil, o próprio Brasil escolheu interromper o caminho que estava construindo.
Não estamos ficando para trás por falta de capacidade.
Estamos andando na contramão apesar dela.
(*) Thiago Iusim é fundador e CEO da Betshield Responsible Gaming, empresa brasileira especializada em tecnologia para Jogo Responsável no mercado regulado de apostas. A Betshield desenvolve soluções de monitoramento comportamental para identificação precoce de sinais de risco, apoio a medidas preventivas e registro de evidências operacionais.


