A conta dos shows: Serasa mostra que fã de música se endivida para ir a festivais, e não por causa das bets

Apostas I 18.10.26

Por: Magno José

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A conta dos shows: Serasa mostra que fã de música se endivida para ir a festivais, e não por causa das bets
Pesquisa da Serasa mostra que 33% dos frequentadores de shows já usaram a reserva de emergência e 14% deixaram de pagar contas básicas para ir a eventos. O dado enfraquece a narrativa de Paula Lavigne e da campanha “Block no Tigrinho”

Pesquisa da Serasa mostra que 33% dos frequentadores de shows já usaram a reserva de emergência e 14% deixaram de pagar contas básicas para ir a eventos. O dado enfraquece a narrativa de Paula Lavigne e da campanha “Block no Tigrinho”

Na semana passada, a pesquisa Hábitos Culturais, do Observatório Fundação Itaú com o Datafolha, desmentiu a tese das plateias vazias. A frequência a shows subiu de 45% para 51% justamente nos 12 meses em que as apostas de quota fixa funcionavam de forma regulada. Agora, um novo levantamento ajuda a entender para onde vai o dinheiro do público: para os próprios shows.

A pesquisa foi feita pela Serasa em parceria com o Mapa dos Festivais e o Instituto Opinion Box, e foi noticiada neste domingo (18) pelo Valor Investe. Ela mostra que um em cada três brasileiros que frequentam shows e festivais já contraiu dívidas para ir a algum desses eventos. E isso acontece apesar de 83% dizerem que se planejam financeiramente para eles.

Os números vão além do ingresso:

⇒ 33% já recorreram à reserva de emergência para ir a um show ou festival;

⇒ 14% deixaram de pagar uma conta básica para bancar o evento;

⇒ 52% gastaram mais de R$ 600 no último evento musical, e um terço passou de R$ 1 mil;

⇒ 39% já se arrependeram de algum gasto ligado a shows, e 27% desses gastaram mais do que planejavam.

O peso maior no orçamento não é a entrada. Alimentação e bebidas foram apontadas por 32% dos entrevistados, à frente do ingresso (29%), da hospedagem (18%) e do transporte (13%). Para a Serasa, o erro está em planejar apenas o custo do ingresso.

A narrativa e os dados

A campanha “Block no Tigrinho” foi lançada em 2 de junho de 2026 pelo coletivo 342 Artes, liderado pela produtora Paula Lavigne. Ela partia de duas premissas: as bets estariam esvaziando as plateias e endividando a população. A mobilização de artistas, amplificada na reunião com o presidente Lula, ajudou a preparar o terreno para a MP 1.394/2026.

A primeira premissa caiu com os dados do Itaú. A segunda não se sustenta como explicação única. O endividamento das famílias brasileiras tem muitas causas, e a pesquisa da Serasa mostra que o entretenimento ao vivo é uma delas. É o mesmo tipo de comportamento que a campanha atribuía exclusivamente às apostas: comprometer a reserva, deixar contas para trás e gastar além do previsto.

Há ainda um dado revelador. O fã que se endivida para estar no Rock in Rio, no Primavera Sound ou no Rock the Mountain está, por definição, na plateia. Não falta público. Falta planejamento financeiro, e isso se resolve com educação financeira, não com proibição. Ninguém propôs fechar festivais porque 14% dos frequentadores deixaram uma conta básica em aberto. O setor de apostas regulado, porém, foi banido com base em impressões pessoais transformadas em política de Estado.

O endividamento é real e merece atenção. Só que tratá-lo com seriedade exige olhar para todas as suas causas, e não escolher um culpado conveniente. Os dados da Serasa e do Itaú vão na mesma direção: a tese que levou à proibição das bets foi construída antes das evidências.

 

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