Quem é o pai do Tigrinho? No debate, Lula e Flávio disputaram a narrativa, não os fatos

O tema das apostas entrou no último debate presidencial do segundo turno, realizado pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), mas não da forma que o setor esperava. Em vez de uma discussão sobre regulação, arrecadação, proteção ao apostador ou combate ao mercado ilegal, o que se viu foi uma disputa pela “paternidade” do Tigrinho, como é conhecido o jogo Fortune Tiger.
O assunto apareceu no terceiro bloco. Ao responder a uma pergunta de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o endividamento das famílias, o presidente Lula (PT) apresentou a proibição das apostas como medida de proteção à renda familiar:
“E é por isso que eu tive a coragem de acabar com as bets. Que eu sei que meu adversário não gostou, que eu sei que outras pessoas não gostaram, mas nós acabamos com a bet porque ela estava virando um inferno na vida das pessoas, não só consumindo parte do dinheiro das pessoas, do leite e do pão da criança, mas também levando as pessoas a se violentarem, a tentarem se matar, a se enforcarem.”
O presidente disse ainda ter “certeza que as mulheres desse país são favoráveis, porque elas querem que o dinheiro do marido, o dinheiro dela, seja pra cuidar das crianças e não pra fazer aposta”. Não apresentou nenhum dado que sustentasse as duas afirmações.
Mais adiante, antes de perguntar sobre o ensino integral, Flávio partiu para a provocação:
“O atual presidente da República tem dois filhos que fizeram muito mal ao país: o Lulinha e o Tigrinho. Ele é o pai do Tigrinho, ele é o pai do cassino online, ele criou, ele liberou. Chegando perto da eleição, ele vai e cancela, achando que vai enganar você. Já prejudicou os times de futebol, acabou com a segurança jurídica desse país.”
Lula respondeu no mesmo tom:
“O cinismo chega a uma coisa absurda, que o Tigrinho foi criado por você em 2022. Não só o seu pai é o pai do Tigrinho, como você é o irmão. Não só você é o irmão, é filho do mesmo DNA. O Tigrinho foi seu pai que criou. Explica por que seu pai criou o Tigrinho.”
As checagens
A Agência Lupa classificou como falsas tanto a frase de Flávio quanto a de Lula. O Fato ou Fake, do g1, também classificou como #FAKE a afirmação de Lula. As duas agências lembram que as apostas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018, sancionada por Michel Temer (MDB) em dezembro de 2018. A lei deu dois anos, prorrogáveis por mais dois, para a regulamentação. O prazo venceu em 12 de dezembro de 2022, no governo Jair Bolsonaro, sem que nenhuma regra fosse editada.
Nesse período, as empresas operaram sem regras de funcionamento, sem recolher tributos no país e sem qualquer controle sobre publicidade, meios de pagamento ou proteção ao apostador.
O que a lei de 2018 não previa
Há um ponto que costuma se perder no debate público, e que ajuda a entender por que nenhum dos dois candidatos falou a verdade. A Lei 13.756/2018 autorizou apenas apostas de quota fixa sobre eventos reais de temática esportiva. Ela não previa jogos online como crash games e slots como o ‘Tigrinho’, lançado em 2022 pela produtora maltesa PG Soft”. (veja detalhes abaixo)
Os jogos online só passaram a ter previsão legal com o PL 3.626/2023, enviado pelo governo Lula ao Congresso em julho de 2023. A Câmara incluiu os jogos virtuais no texto em setembro. O Senado os retirou em dezembro, mas a Câmara os restabeleceu dez dias depois. Em 30 de dezembro de 2023, Lula sancionou a Lei nº 14.790/2023 com os jogos online no texto. As regras técnicas vieram com a Portaria SPA/MF nº 1.207, de 29 de julho de 2024, e o mercado regulado começou a funcionar em 1º de janeiro de 2025.
Ou seja, o Tigrinho não foi “criado” por nenhum dos dois governos. A legalização dos jogos online, porém, foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Lula. Dizer que o Tigrinho foi “criado em 2022” pela família Bolsonaro não tem base nenhuma. Dizer que Lula “criou” o jogo também não, mas é fato que foi no governo dele que essa modalidade saiu da ilegalidade e passou a ser regulada, tributada e fiscalizada.
Guerra de narrativas
Os dois candidatos usaram o Tigrinho como arma eleitoral. Lula assinou a medida provisória que proibiu as bets e as apresenta como causa de violência e tentativas de suicídio, sem citar estudos ou números. Ao mesmo tempo, empurra a origem do problema para o antecessor e omite que a modalidade foi legalizada pela lei que ele sancionou. Flávio tenta colar no adversário o desgaste dos cassinos online e acusa o governo de uma reviravolta eleitoral. Seu argumento mais consistente, o da insegurança jurídica e do impacto sobre os clubes de futebol, ficou em segundo plano diante da provocação.
Quem governa o jogo
Toda vez que o tema dos jogos volta à cena política no Brasil, a discussão se divide em dois extremos: liberar ou proibir. O debate da Globo foi mais um exemplo disso. Os dois candidatos brigaram pela autoria do problema e não disseram nada sobre como enfrentá-lo. Essa simplificação ignora uma realidade central das políticas públicas: certas atividades não desaparecem por decreto. O jogo existe como fenômeno social e econômico, e a questão verdadeira não é se ele deve existir, mas quem vai governá-lo, o Estado ou a ilegalidade.
A história mostra que a proibição, sozinha, raramente acaba com práticas tão disseminadas. O que ela faz é empurrar a atividade para a clandestinidade, onde não há transparência, proteção ao consumidor nem fiscalização. No caso das apostas, isso significa apostador sem garantias, evasão fiscal e mais riscos sociais, exatamente o cenário que existia antes da Lei 14.790/2023. Como o BNLData repete há anos, o jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível.
Selo Narrativa BNLData: as duas falas recebem o Selo Narrativa do BNLData.
O que é o Fortune Tiger, o “Jogo do Tigrinho”

O Fortune Tiger é um slot game: um caça-níquel virtual, com funcionamento praticamente igual ao dos jogos do tipo oferecidos nas plataformas de apostas do mundo inteiro. Foi lançado em 2022 pela PG Soft (Pocket Games Software Limited), produtora fundada em 2015, sediada em Malta e com escritórios na Europa, na Ásia e na América do Norte. A empresa tem licenças da Malta Gaming Authority, de Gibraltar e da UK Gambling Commission, e seus jogos são certificados pelos laboratórios independentes BMM Testlabs e Gaming Associates Europe. A PG Soft também desenvolve títulos com a mesma lógica, como Fortune Rabbit, Fortune Mouse, Fortune Ox e Fortune Gods.
Como funciona: o jogo tem como tema uma viagem à China antiga, onde um tigre dourado concede poderes místicos. O jogador ganha quando combina três símbolos iguais nas linhas de pagamento, e o resultado é definido exclusivamente por um gerador aleatório de números. Nas plataformas que ofereciam o jogo, as apostas iam de R$ 0,50 a R$ 600 por rodada. O RTP (Return to Player), percentual que indica quanto do valor apostado volta aos jogadores no longo prazo, informado pelas plataformas era de 96,96%. Parte da popularidade vem do multiplicador de 10x e das rodadas bônus (re-spin), que podem multiplicar a aposta em até 2.500 vezes.
Status legal: A Lei 14.790/2023 incluiu os jogos online entre as modalidades permitidas, e a Portaria SPA/MF nº 1.207/2024 definiu as regras técnicas. A partir de 1º de janeiro de 2025, ele só podia ser oferecido por operadores autorizados pela SPA/MF, com certificação do jogo, identificação do apostador e recolhimento de tributos. Com a Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada em 25 de setembro, a oferta de apostas de quota fixa, incluindo os jogos online, foi proibida. A MP ainda depende de votação no Congresso e é questionada no STF.
A polêmica: boa parte dos casos investigados pela polícia não envolve o jogo original, e sim o uso indevido da marca. São versões de demonstração manipuladas e cópias falsas usadas para aplicar golpes, além de influenciadores que prometem ganhos irreais. O problema nunca foi o jogo em si, mas a falta de regras e a fraude, justamente o que a regulamentação existia para combater.


