Anbima revela 4 perfis de apostadores no Brasil e alerta para confusão com investimentos

Uma pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mapeou quatro perfis distintos de apostadores brasileiros em plataformas de bets e cassinos on-line. O estudo identificou motivações que vão do sonho de enriquecimento rápido à busca por emoção e à necessidade de cobrir despesas básicas.
A pesquisa, antecipada ao Valor, surgiu depois que um número crescente de brasileiros passou a declarar que “investe” em bets durante entrevistas realizadas pela Anbima sobre hábitos de investimento. Os quatro perfis receberam os nomes de “Adepto da Fortuna”, “Matador de Leões”, “Expert da Realidade” e “Caçador de Emoções”.
Os dois primeiros perfis são formados predominantemente por mulheres das classes C, D e E. O “Adepto da Fortuna” reúne apostadoras que esperam enriquecer rapidamente com as plataformas. Já o “Matador de Leões” concentra mulheres em maior dificuldade financeira, que recorrem às apostas para pagar contas essenciais como água, luz e aluguel.
Os perfis “Expert da Realidade” e “Caçador de Emoções” são compostos majoritariamente por homens jovens das classes A e B. No primeiro grupo estão aqueles que estudam os jogos, desenvolvem estratégias e enxergam as bets como uma alternativa ao mercado financeiro. No segundo estão os que chegaram às apostas por influência de pessoas próximas e tratam a atividade como um hobby para combater o tédio.
Confusão entre apostas e investimentos
A equiparação entre bets e investimentos é uma das principais preocupações da Anbima. A edição de 2025 da pesquisa Raio-X do Investidor, produzida pela entidade, revela que 4,5 milhões de brasileiros consideram as apostas uma forma de investimento, de um universo de 28,3 milhões de pessoas que fizeram alguma aposta no ano passado.
Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, destaca a dimensão do problema com uma comparação; “Esse é quase o número de pessoas físicas que hoje aplicam em ações no Brasil.” Para ele, o estudo deve servir de base para que o mercado e o governo trabalhem juntos na tarefa de esclarecer a população sobre as diferenças entre apostas e investimentos.
Billi defende uma abordagem que não condene as plataformas. “Não adianta demonizarmos as bets porque isso só vai afastar as pessoas. O que precisamos mostrar é que os jogos são uma forma de hobby, assim como cinema, teatro, shows, academia. Portanto, eles não podem competir com o dinheiro dos investimentos.”
A pesquisa também contradiz uma percepção comum; a maioria dos apostadores sabe que as chances de ganho são muito menores do que as de perda. “As pessoas perdem dinheiro e se endividam muito mais por vício e compulsão do que por falta de informação”, afirma Billi.
Diferenças entre homens e mulheres
O estudo aponta comportamentos distintos entre apostadores dos dois sexos. Os homens jogam principalmente em bets esportivas, acreditando que o conhecimento sobre futebol aumenta suas chances de ganho. Participam de comunidades sobre apostas e costumam compartilhar estratégias e resultados positivos. As mulheres, em sua maioria, apostam em cassinos on-line como o Tigrinho e o Aviãozinho, e o fazem de forma discreta, por receio de julgamento social.
A antropóloga Carolina Zatorre, consultora de inovação da Kyvo e uma das responsáveis pela pesquisa, diz que as apostadoras enfrentam pressão social; “Elas jogam para conseguir cobrir as contas de casa e ainda sofrem com uma perspectiva moralizante de que é feio as mulheres jogarem e ainda por cima poderem até ficar viciadas.”
A equipe percorreu o Brasil por meses entrevistando apostadores dos mais variados perfis. Zatorre relata achados que ilustram o alcance das plataformas; “Encontramos jogadores de bets em comunidades indígenas na região Norte; encontramos beneficiários do Bolsa Família comprando números de CPF para poderem apostar; sem contar as banquinhas, como as do jogo do bicho, onde as pessoas que não têm celular ou que têm dificuldade de acessar a internet conseguem fazer suas apostas em bets.”
Dois pontos chamaram atenção especial da pesquisadora; a disseminação das bets por todo o território nacional, inclusive nas regiões mais remotas, e o fato de que a maioria dos apostadores desconhece o total que já perdeu, em geral valores muito acima do que seu padrão de vida poderia absorver.
Regulação e vieses comportamentais
Aquiles Mosca, CEO da BNP Asset Management Brasil e diretor da Anbima, afirma que vieses estudados pelas finanças comportamentais ajudam a explicar a tendência ao vício. Entre eles estão o viés de familiaridade, pelo qual os homens acreditam que o conhecimento de futebol os protege de perdas; a ilusão de controle, a crença de que uma vitória futura compensará todas as perdas acumuladas; e a prova social, alimentada por influenciadores que associam apostas a um estilo de vida aspiracional.
Mosca defende maior controle sobre a publicidade das bets, aperfeiçoamento da regulação e aumento da tributação das empresas do setor, na linha do que foi adotado para fabricantes de cigarros e bebidas alcoólicas. O assunto já mobiliza o governo federal, que adotou medidas de restrição financeira e digital contra plataformas que operam sem autorização do Ministério da Fazenda; mais de 60 mil sites de bets ilegais foram bloqueados no país. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) foi procurado, mas preferiu não se manifestar.


