As bets são o vilão do endividamento brasileiro? Os dados dizem que não

Apostas, Opinião I 30.04.26

Por: Magno José

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As bets são o vilão do endividamento brasileiro? Os dados dizem que não
Roger Amarante*

Nos últimos meses, o debate público sobre apostas esportivas no Brasil ganhou um contorno perigoso: a narrativa de que as bets são a causa estrutural do endividamento das famílias brasileiras. Essa tese circula em editoriais, viraliza nas redes sociais e, mais grave, já foi incorporada à justificativa de projetos de lei — incluindo o PL nº 1.808/2026, que propõe a proibição integral do setor.

O problema é que os números não sustentam essa conclusão. Quando se trabalha com dados, não com percepções, a realidade é outra.

Esta análise cruza os dados da CNC (PEIC), do Banco Central do Brasil, da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/Ministério da Fazenda) e dos principais estudos setoriais disponíveis. O objetivo é único: mostrar, matematicamente, onde está o verdadeiro problema do endividamento das famílias — e qual é, de fato, o peso das apostas nesse contexto.

O estado real do endividamento: um quadro estrutural e crônico

Para entender qualquer fenômeno dentro do endividamento familiar brasileiro, é preciso primeiro compreender a dimensão do problema em sua totalidade.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da CNC, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2026 — o maior patamar já registrado na série histórica. Em paralelo, 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso e 12,3% declararam não ter condições de honrar seus compromissos. O comprometimento médio da renda com dívidas ficou em 29,6%.

O Banco Central vai além: sua metodologia aponta que o endividamento das famílias atingiu 49,9% em fevereiro de 2026 — o maior valor da série histórica, iniciada em 2005. Excluindo o crédito habitacional, o comprometimento de renda chega a 27,1%, também recorde.

Em termos absolutos, o saldo das operações de crédito das pessoas físicas no SFN encerrou 2025 em torno de R$ 4,6 trilhões. É sobre essa base que qualquer percentual de participação das apostas precisa ser calculado.

Os verdadeiros agressores: quem endivida as famílias

Antes de falar de bets, é necessário nomear os responsáveis pelo endividamento crônico das famílias brasileiras. Os dados da CNC e do Banco Central são inequívocos:

Modalidade % Famílias Endividadas Taxa de Juros (a.a.)
Cartão de crédito (rotativo) 85,1% ~430% a.a.
Financiamento de veículos ~15% ~25–35% a.a.
Crédito consignado ~20% ~20–26% a.a.
Carnês / crediário 17,2% ~60–90% a.a.
Crédito pessoal não consignado 10,6% ~90–120% a.a.
Cheque especial ~8% ~150% a.a.
Apostas esportivas (bets) Não é modalidade de crédito N/A — gasto de consumo

Há uma diferença conceitual fundamental que o debate público ignora: apostas não são uma modalidade de crédito. A bet não cria uma obrigação de pagamento futura como um cartão ou financiamento. O gasto com apostas compete com outros gastos de consumo — lazer, entretenimento, alimentação —, mas não gera, por si só, uma posição passiva no balanço financeiro da família.

A verdadeira estrutura do endividamento brasileiro é determinada pela combinação tóxica de taxas de juros absurdamente elevadas — a Selic em 14,75% a.a. contamina toda a cadeia de crédito —, pela cultura do crédito rotativo e pela ausência de educação financeira estrutural na formação da população.

O confronto de dados: CNC vs. SPA — R$ 240 bilhões ou R$ 37 bilhões?

O epicentro da controvérsia está em um estudo da CNC que alega que os brasileiros destinaram R$ 240 bilhões às bets em 2024 e que o varejo nacional perdeu R$ 103 bilhões. Há apenas um problema: os dados oficiais do governo não corroboram essas premissas.

A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, reportou que o GGR (Gross Gaming Revenue) — a receita bruta total do mercado regulado, já descontados os prêmios pagos — foi de R$ 37 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2025 isoladamente, o GGR foi de R$ 17,4 bilhões, com 17,7 milhões de apostadores ativos e gasto médio de R$ 164/mês por apostador.

A afirmação de R$ 240 bilhões representa um erro metodológico de 6,5 vezes em relação ao dado oficial. O IBJR formalizou notificação à CNC exigindo transparência metodológica — o que, por si só, demonstra que a premissa não passa por escrutínio técnico.

Nota metodológica crítica:

O GGR não representa o total apostado (handle), mas sim a receita líquida das operadoras — o que efetivamente ‘saiu’ do bolso dos apostadores após os retornos de premiação.

A CNC utilizou o handle bruto (volume apostado + prêmios devolvidos) como se fosse gasto líquido. São grandezas conceitualmente distintas.

A LCA Consultoria calculou: gastos líquidos com apostas = 0,2% a 0,5% do consumo total. Mesmo 100% desse valor direcionado ao pagamento de dívidas reduziria o endividamento em menos de 0,5 ponto percentual.

Nota Informativa SEI nº 574/2024/MDIC: o Governo Federal atestou a inexistência de impacto relevante das apostas no endividamento.

O cálculo inconteste: quanto as bets realmente representam no endividamento

Para comparar grandezas comparáveis, utilizamos o GGR como proxy do impacto econômico das apostas sobre as famílias e o saldo de crédito PF no SFN como denominador do endividamento.

Métrica Valor (2025) Fonte
Saldo crédito PF no SFN R$ 4,6 trilhões Banco Central
GGR mercado regulado (SPA) R$ 37 bilhões SPA/MF
GGR mercado ilegal (estimativa central) R$ 31–38 bilhões LCA/IBJR
GGR total do setor (regulado + ilegal) ~R$ 68–75 bilhões Cálculo derivado

Participação do mercado regulado no saldo PF SFN: ~0,80%. Participação do mercado ilegal: ~0,65–0,82%. Participação total do setor: ~1,4–1,6%.

Em outras palavras: mesmo somando regulado e ilegal, o fluxo total de gastos líquidos com apostas representa aproximadamente 1,5% do saldo devedor das famílias no SFN. Um número marginal diante de R$ 4,6 trilhões em dívidas impulsionadas por juros, não por apostas.

O mercado ilegal: as estimativas oficiais são um piso — não um teto

O problema da fonte: survey com quem não sabe o que está respondendo

A estimativa de 41-51% de mercado ilegal, produzida pela LCA em parceria com o IBJR, vem de surveys com apostadores. O problema: o mesmo estudo revela que 78% dos apostadores brasileiros têm dificuldade em identificar se a plataforma que utilizam é ou não legalizada.

Traduzindo: o principal instrumento de medição do mercado ilegal foi aplicado em uma população da qual 78% não sabe o que está respondendo. O dado resultante não é uma estimativa do mercado ilegal — é uma estimativa da autopercepção dos apostadores sobre legalidade, que é uma variável inteiramente diferente.

Inconsistência interna da própria fonte:

Se 78% dos apostadores não conseguem identificar se sua plataforma é legal ou ilegal, então a mesma pesquisa que estima 41-51% de mercado ilegal admite implicitamente que seus respondentes não têm condições de responder à pergunta que origina essa estimativa.

A incerteza declarada de 10 p.p. (41% a 51%) é, na prática, uma subestimação do intervalo real de confiança. O número é um piso, não um teto.

O dado do Banco Central revela a invisibilidade estrutural do ilegal

O Estudo Especial nº 119/2024 do Banco Central mediu, via análise de transações PIX, um volume de R$ 20,8 bilhões em transferências mensais para apostas em agosto de 2024. Aplicando a taxa de retenção de 15% declarada no próprio estudo, o GGR implícito total capturado é de R$ 37,4 bilhões anualizados — praticamente idêntico aos R$ 37 bilhões da SPA para o mercado regulado.

Essa convergência revela um fato estrutural: a metodologia PIX do BC captura essencialmente o mercado regulado, e quase nada do mercado ilegal. O motivo é técnico: plataformas ilegais operam via stablecoins offshore (USDT, USDC), e-wallets não reguladas (Skrill, Neteller), PIX para contas-laranja e transferências internacionais para Malta, Curaçao e Gibraltar.

Consequência direta: qualquer estimativa baseada em dados BC/PIX captura apenas o mercado regulado. O mercado ilegal existe como um blind spot estrutural — e sua invisibilidade nos dados oficiais não é evidência de que é pequeno. É evidência de que foi projetado para ser invisível.

O ratio de operadores: 266 ilegais para cada 1 legal

Quando a Anatel iniciou os bloqueios em outubro de 2024, a Fazenda identificou ~21.000 empresas operando apostas ilegalmente. O mercado regulado conta com 79 operadores autorizados. Ratio: 265:1.

Escala relativa do ilegal vs. legal GGR ilegal total estimado % mercado ilegal no total
5% do GGR médio legal (muito conservador) R$ 23,4 bi 39%
8% do GGR médio legal R$ 37,4 bi 50%
12% do GGR médio legal R$ 56,2 bi 60%
15% do GGR médio legal R$ 70,2 bi 66%

Premissa: 1.000 operadores ilegais ativos (conservadora vs. os 21.000 identificados). GGR médio legal: R$ 468M/ano. Com premissas razoáveis sobre o ecossistema identificado pelo próprio governo, o ilegal supera 50% em todos os cenários moderados e pode atingir 60-66% em cenários realistas.

A dinâmica de regeneração dos sites ilegais

Em 2025, a Anatel bloqueou mais de 25.000 URLs de apostas ilegais — 15.463 apenas no primeiro semestre. O próprio governo reconhece que essa ação é ineficaz isoladamente: ‘a derrubada de endereços eletrônicos, por si só, não resolve o problema de forma definitiva, devido à facilidade com que novos sites podem ser criados’ (MF, dezembro de 2025).

Isso tem uma implicação quantitativa direta: em um mercado com dinâmica de regeneração, 25.000 URLs bloqueadas representam fluxo, não estoque. O ecossistema ativo pode ser desta magnitude ou maior a qualquer momento. O mercado legal opera com ~1.500-2.000 domínios. A razão entre domínios ativos (ilegal vs. legal) é provavelmente superior a 15:1.

A trajetória temporal e o acelerador estrutural da CIDE

O instituto Yield Sec projetou que o mercado ilegal atingiria 74% do setor no 3º trimestre de 2026. Com base na estimativa central de 46% em meados de 2025, a taxa de crescimento implícita é de ~1,9 ponto percentual ao mês.

Estimativa interpolada para abril de 2026:

Base: 46% ilegal (julho/2025)

Taxa de crescimento: 1,9 p.p./mês (Yield Sec)

Período decorrido: ~9 meses

Estimativa para abril/2026: 46% + (9 × 1,9) = ~63% de mercado ilegal

Há ainda um catalisador estrutural: a MP 1.303/2025, em vigor desde novembro de 2025, elevou a alíquota de GGR de 12% para 18%. Estudos internacionais (Colômbia, Holanda, Bélgica) mostram que aumentos de carga tributária no mercado regulado de apostas produzem migração para o ilegal na proporção de 1,5 a 2 p.p. para cada 1% de aumento de tributação efetiva. A MP adicionou 6 p.p. de alíquota — acelerando a migração em 9 a 12 p.p. adicionais.

Síntese: cinco vetores convergentes

Vetor Estimativa de participação ilegal Metodologia
LCA/IBJR (referência oficial) 41–51% Survey (78% não sabe responder)
Análise de sensibilidade de operadores 50–66% Dados oficiais Fazenda + SPA
Convergência BC PIX ↔ SPA (invisible market) > 50% (não mensurável via PIX) Estudo Especial BCB 119/2024
Trajetória Yield Sec interpolada a abr/2026 ~63% Projeção temporal linear
Acelerador CIDE (MP 1.303/2025) +9 a +12 p.p. sobre qualquer base Elasticidade tributária internacional

Nenhum vetor isolado prova que o mercado ilegal supera 60%. Mas todos os vetores apontam na mesma direção: acima de 50%, provavelmente acima de 60%, com trajetória que chegará a 74% em menos de 18 meses caso não haja reversão.

A estimativa de 41-51% é uma fotografia de 2025 com metodologia conservadora, obtida de dados que estruturalmente subestimam o ilegal. Quem repete esse número como verdade estabelecida está minimizando a extensão real de um problema que cresce mês a mês.

Por que o debate foi sequestrado pela emoção?

O problema visível e novo tende a ser superestimado em relação ao problema antigo e estrutural. O cartão de crédito com 430% ao ano no rotativo existe há décadas — ninguém mais se choca com isso. As bets são novas, ubíquas, barulhentas nos patrocínios. São um alvo perfeito para o discurso simplificado.

Há também interesse institucional evidente. A CNC representa o varejo. Quando um estudo produzido por ela aponta que apostas teriam ‘retirado’ R$ 103 bilhões do varejo, vale perguntar: qual é a motivação por trás dessa metodologia? O fato de o IBJR ter formalizado notificação à CNC pedindo acesso às bases de dados demonstra que a premissa não passa por escrutínio técnico básico.

O que sabemos com certeza: o endividamento cresce desde antes das bets serem fenômeno de massa; o cartão de crédito e os juros absurdos são os principais vetores; o impacto das apostas, em qualquer metodologia razoável, representa menos de 0,5 ponto percentual no endividamento total.

O que o debate deveria ser — e não está sendo

Se o objetivo real é proteger as famílias brasileiras do endividamento, a agenda deveria ser outra:

Enfrentar o custo do crédito. Com a Selic a 14,75% e o cartão rotativo a 430% ao ano, qualquer deslize financeiro da família de renda média vira espiral impagável. Nenhuma regulação de bets resolve isso.

Fortalecer, não destruir, o mercado regulado. Toda aposta que sai do regulado vai para o ilegal. No ilegal: sem limite de depósito, sem vedação a beneficiários do Bolsa Família, sem cartão de crédito bloqueado, sem mecanismo de autoexclusão. A regulação é a única proteção efetiva — destruí-la em nome de um debate equivocado é contraproducente.

Combater o mercado ilegal com políticas sérias. 25.000 URLs bloqueadas em 2025, mas 78% dos apostadores não distinguem legal de ilegal. O enforcement precisa ser dramaticamente mais robusto — e a carga tributária sobre o mercado regulado precisa ser calibrada para não empurrar o apostador para a clandestinidade.

Política pública baseada em evidências. O Brasil construiu entre 2023 e 2025 um dos marcos regulatórios mais sofisticados do mundo para apostas. Desmontar esse sistema com base em estudos que não sobrevivem a escrutínio metodológico não é política pública. É retrocesso.

Conclusão

Os dados são públicos, auditáveis e consistentes. O endividamento das famílias brasileiras é uma crise real, séria e urgente — mas seus culpados têm nome: cartão de crédito rotativo a 430%, cheque especial a 150%, Selic a 14,75% contaminando toda a cadeia de crédito.

As apostas esportivas representam aproximadamente 1,5% do saldo devedor das famílias no SFN — e desse 1,5%, quase metade vem do mercado ilegal, que não paga impostos, não protege consumidores e cresce aceleradamente. O mercado regulado, que recolheu R$ 9,95 bilhões em impostos em 2025, tem SIGAP, auditoria em tempo real e todas as salvaguardas regulatórias exigidas.

Debates sérios merecem dados sérios. Quando se usa um denominador errado 6,5 vezes maior para inflar um número e alimentar um projeto de lei, não estamos fazendo política pública — estamos fazendo política de narrativa.

Este é o meu convite ao rigor.


(*) Roger Amarante é CFO com mais de 20 anos de experiência liderando estratégia financeira, alocação de capital e M&A em empresas de alto crescimento e ambientes regulados na América Latina e atualmente é CFO da ABC-Bet, presidente da Associação Brasileira de Mercados de Previsão – ABPred e Co-fundador da Dual Trends (plataforma de prediction markets).


Fontes

⇒ CNC — PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), março 2026

⇒ Banco Central do Brasil — Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito, fev. 2026

⇒ Banco Central do Brasil — Estudo Especial nº 119/2024 (Nota Técnica 513/2024-BCB/SECRE, set/2024)

⇒ SPA/Ministério da Fazenda — Relatório Semestral SIGAP, 1º sem. 2025 e consolidado 2025

⇒ LCA Consultoria Econômica / IBJR — Mercado ilegal de apostas, jun. 2025

⇒ IBJR — Notificação à CNC e aprofundamento do estudo LCA, abr. 2026

⇒ Instituto Locomotiva / LCA — Pesquisa com 2.000 apostadores, 2025

⇒ Yield Sec — Projeções de participação do mercado ilegal, 2025

⇒ Nota Informativa SEI nº 574/2024/MDIC — Ministério do Desenvolvimento

⇒ Anatel — Dados de bloqueio de URLs (out/2024 a dez/2025)

⇒ Poder360 / Estudo USP (Massonetto) — Impacto da CIDE-bets, fev/2026

⇒ PL nº 1.808/2026 — Câmara dos Deputados

⇒ FecomercioSP — Estudo faturamento bets e dados BC, abr/2026

 

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