Fragilidades metodológicas no estudo da CNC sobre apostas e inadimplênciasssssssssssssss

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou estudo no qual sustenta a relação causal entre a expansão das apostas e a inadimplência das famílias brasileiras.
O tema do endividamento é extremamente sensível e, justamente por isso, tais análises devem observar grande rigor metodológico, sob o risco de incorrer em medidas prejudiciais (ou inócuas) decorrentes de diagnósticos equivocados. Nessa linha, a Associação de Bets e Fantasy Sport (ABFS) entende como necessária a análise aprofundada da metodologia do referido estudo, de modo a contribuir para um debate técnico, baseado em evidências e, principalmente, honesto.
O método utilizado não é Diferenças em Diferenças, mas uma comparação de médias no tempo
O estudo se apresenta como uma análise de Diferenças em Diferenças (DiD), nomenclatura que carrega uma promessa implícita de rigor metodológico, mas que não é cumprida. O DiD exige um grupo de controle que sirva de contrafactual, mas o estudo da CNC não tem esse grupo, apenas compara o Brasil consigo mesmo, antes e depois de 2023.
Assim, o coeficiente estimado captura, indistintamente, o efeito das bets e de tudo o mais que se transformou no período. Atribuir essa diferença integralmente às apostas não é uma conclusão que os dados sustentam, mas sim uma narrativa revestida de linguagem econométrica.
As variáveis de controle existem no texto, mas não no modelo
O estudo dedica a seção 4 a descrever três variáveis de controle: taxa de desocupação, concessões de crédito e inflação. O argumento é que, como essas variáveis melhoraram no período, os efeitos positivos encontrados sobre a inadimplência são “conservadores”.
O problema é que essas variáveis não estão incluídas como controles nas regressões. Elas são discutidas qualitativamente na seção 4, mas os modelos da seção 6 não as incorporam. A justificativa para essa omissão é a preocupação com multicolinearidade diante de uma amostra pequena – o que é uma limitação real, mas não autoriza a afirmação de causalidade.
Na prática, o período 2023–2026 foi marcado por uma combinação explosiva e independente das bets: expansão acelerada do crédito rotativo, elevação dos juros do cartão de crédito, aumento do spread bancário e crescimento da bancarização digital. Qualquer um desses fatores teria a capacidade de explicar o aumento da inadimplência.
Os resultados contraintuitivos são sinais de um modelo mal especificado
O estudo afirma que: (i) pessoas mais escolarizadas são mais afetadas pelas apostas do que as menos escolarizadas; (ii) pessoas com 35 anos ou mais são mais vulneráveis do que os jovens; e (iii) mulheres chegam a reduzir dívidas em atraso no período.
Esses resultados contradizem frontalmente a hipótese central do próprio estudo e são inconsistentes com os dados da SPA: o perfil dominante do apostador é masculino e jovem, com mais de 74% abaixo dos 40 anos. Como pode um produto consumido predominantemente por homens jovens causar inadimplência mais intensa em mulheres e pessoas mais velhas?
Na metodologia científica, resultados contraintuitivos não são “curiosidades a explorar”, mas sinais de problemas: variáveis omitidas, multicolinearidade ou endogeneidade. O estudo os trata como “achados interessantes” e não oferece nenhuma explicação plausível.
Há indícios de erro na variável central do modelo
O estudo afirma que os gastos com bets chegaram a “mais de R$ 30 bilhões mensais em março de 2026”. O GGR do setor em 2025, conforme dados da própria SPA-MF, foi de R$ 37 bilhões anuais, não mensais. A diferença é de 12 vezes. Se o modelo utilizou dados mensais inflados como se fossem de outra grandeza, os coeficientes estimados são diretamente comprometidos.
O trabalho não documenta a fonte nem a série exata utilizada para essa variável, o que impede qualquer replicabilidade. Sem saber qual dado foi efetivamente usado, não é possível verificar se o problema é um erro de unidade, uma fonte alternativa não declarada ou outra inconsistência.
Por fim, outras fragilidades metodológicas não foram detalhadas aqui, mas merecem registro, tais como: (i) ausência de correção para múltiplos testes nas regressões desagregadas; (ii) utilização de dados produzidos pela própria entidade que assina o estudo; e (iii) ausência de confronto com hipóteses alternativas.
Diante do exposto, é evidente que o estudo não se mostra capaz de comprovar a correlação entre apostas e o aumento da inadimplência, quanto menos uma relação causal. Correlação exige, no mínimo, que a associação entre duas variáveis seja consistente, estável e não explicada por fatores de confusão, e o estudo não satisfaz nenhuma dessas condições. Portanto, concluir por causalidade quando não se demonstrou nem a correlação é um salto metodológico que os dados não autorizam.
É importante destacar que o setor de apostas não nega as externalidades negativas da atividade, motivo pelo qual trabalhou ativamente para a construção de um marco regulatório rigoroso para esse mercado e apoia toda e qualquer pesquisa transparente que auxilie na orientação de políticas públicas eficazes.
A ABFS reconhece e valoriza o papel da CNC no debate nacional, e é justamente por esse motivo que manifesta sua preocupação com as conclusões do referido estudo. Uma entidade com a relevância e o alcance da Confederação, cuja voz tem grande impacto no debate legislativo e na formação da opinião pública, tem o dever de exercer responsabilidade proporcional pela qualidade e pelo rigor das análises que divulga, o que não parece ter sido observado no presente estudo.
(*) Heloísa Diniz é diretora de Regulatório e Public Affairs da Associação de Bets e Fantasy Sport (ABFS)


