Bets ilegais no Brasil custam menos de R$ 1 mil para montar e proliferam

BNL I 03.07.26

Por: Magno José

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Bets ilegais no Brasil custam menos de R$ 1 mil para montar e proliferam
Reportagem da Agência Pública revela que sites piratas de apostas clonam jogos e manipulam resultados, dificultando fiscalização do governo

Montar o site que a oferece pode custar menos de R$ 1 mil. Essa desproporção resume o modelo de negócio das plataformas de apostas online ilegais no Brasil, investigado pela Agência Pública: estruturas digitais baratas, fáceis de replicar e quase impossíveis de eliminar de forma permanente. O levantamento mostra que o custo de entrada nesse mercado criminoso é tão baixo que a fiscalização não consegue acompanhar o ritmo de proliferação.

O custo de montar uma bet ilegal

Felix Elmada, especialista com 12 anos de experiência no mercado de iGaming e fundador da BetFiscal, calculou o valor mínimo para colocar uma plataforma ilegal no ar: menos de R$ 1 mil no total. Os componentes são:

⇒ Script (código que roda a plataforma): cerca de R$ 300;

⇒ API de jogos, que permite manipular resultados: entre R$ 300 e R$ 350;

⇒ Domínio de internet: em torno de R$ 100;

⇒ Hospedagem em servidor privado virtual (VPS): cerca de R$ 120 por mês;

⇒ Integração com meio de pagamento: geralmente gratuita, com taxa descontada por transação.

A Pública identificou scripts sendo oferecidos por R$ 9,90 e até de graça em grupos de pirataria no WhatsApp e Telegram. O contraste com plataformas regularizadas é expressivo: sistemas prontos para operadoras licenciadas custam entre 25 mil e 50 mil dólares, segundo cotações feitas pela própria publicação. As fornecedoras ficam sediadas em países como Malta, Curaçao e Suíça.

Bruno, designer paulista de 33 anos que preferiu não se identificar, viveu esse universo em 2024. Ele entrou numa sociedade gastando apenas R$ 100 num domínio, criou o logotipo e fez divulgação pagando 200 dólares em anúncios em sites adultos. O código da plataforma custou R$ 40 mil, pago por outro sócio com recursos reembolsados pelo faturamento inicial. Nas primeiras semanas, a operação já havia rendido cerca de R$ 10 mil. Três meses depois, Bruno saiu do negócio com receio de responder criminalmente. “Sobre o custo, acho grátis. Diante do retorno potencial, é muuuuito barato”, afirmou.

Jogos viciados e pagamentos escondidos

Além do baixo custo de entrada, as plataformas ilegais operam com vantagens estruturais que as regularizadas não têm. Não pagam impostos, não passam por auditorias, não têm obrigação legal de pagar prêmios e, frequentemente, manipulam os resultados dos jogos.

Plataformas licenciadas são obrigadas a manter uma taxa de retorno ao apostador, o chamado RTP (Return to Player), em percentual auditável. Os sites autorizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) devem devolver ao menos 85% do valor apostado em prêmios. Operadores ilegais usam APIs para clonar e falsificar jogos, controlando quanto será distribuído. Essas ferramentas também circulam em fóruns online, algumas gratuitamente, segundo Elmada.

Para receber apostas, as plataformas irregulares recorrem a intermediadoras de pagamento não credenciadas ao Banco Central (BC), o que dificulta o rastreamento dos recursos. Um levantamento da BetFiscal com 358 plataformas irregulares identificou 13 intermediadoras que se revezavam entre elas.

A engrenagem da divulgação ilegal

A investigação da Agência Pública detalha como essas plataformas chegam aos apostadores. Em março de 2025, a Polícia Civil do Ceará prendeu um grupo de influenciadores digitais que divulgava sites clandestinos de apostas. Os perfis somavam milhares de seguidores no Instagram e eram pagos para promover jogos como o Fortune Tiger, cientes da ilegalidade das plataformas.

O esquema usava ao menos três recursos para enganar os seguidores. Diálogos entre Victória Haparecida de Oliveira e Milena Peixoto, duas das influenciadoras investigadas, revelam a promessa de sorteios de pix para quem acessasse as plataformas pelos links divulgados. Os sorteios não ocorriam, ou eram acompanhados de comprovantes falsos. Grupos de WhatsApp distribuíam supostas “dicas” com horários em que o jogo do tigrinho “soltaria a carta”, como se houvesse momentos programados para distribuir lucros. O principal artifício eram contas “demo” pré-configuradas para exibir ganhos fictícios durante as transmissões ao vivo, inacessíveis ao público geral.

No auge, alguns influenciadores faturavam até R$ 15 mil por semana por plataforma divulgada. Victória Oliveira angariou quase 3 mil depositantes em um único site; considerando o depósito mínimo de R$ 20, o faturamento potencial dessa plataforma chegou a cerca de R$ 60 mil. Um dos denunciados afirmou ter promovido mais de 100 plataformas em nove meses. O dinheiro bancou viagens a Dubai, imóveis e carros de até R$ 500 mil, ostentados nas redes sociais.

Os 13 envolvidos foram denunciados por organização criminosa, estelionato, crime contra a economia popular e exploração de jogo de azar. Sete também respondem por lavagem de dinheiro. Parte cumpre prisão domiciliar; outros estão em liberdade condicional com tornozeleira eletrônica e proibição de usar Instagram e WhatsApp, embora os perfis permaneçam ativos. A denúncia foi aceita pela Justiça cearense em maio de 2025 e ainda aguarda julgamento.

Por que a fiscalização não dá conta

O Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu, em auditoria tornada pública em nesta quinta-feira (19/5), que a capacidade dos órgãos responsáveis “tem ficado aquém da velocidade em que estas operam”. O documento aponta falta de coordenação institucional e afirma que a SPA-MF apresenta “deficiências estruturais que comprometem substantivamente a efetividade do sistema de fiscalização”.

A dinâmica das plataformas explica parte da dificuldade. Assim que um site é derrubado, o operador pode relançá-lo com outro domínio em questão de horas. Em média, os sites do esquema cearense eram substituídos a cada três dias. Em parceria com a SPA, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já retirou do ar 44 mil sites ilegais. A Anatel reconhece o caráter interminável da tarefa; “O ambiente digital apresenta dinâmica elevada, com possibilidade de criação frequente de novos domínios e mecanismos tecnológicos para contornar restrições de acesso.”

A titular da SPA-MF, Daniele Cardoso, atribuiu parte da proliferação ao vácuo regulatório entre a liberação das apostas pelo governo Temer e a regulamentação pelo governo Lula. Ela afirmou que o órgão “avançou bastante nessa frente nesses últimos meses” e contestou o dado do TCU de que 40% do mercado estaria com operadores ilegais. Segundo a H2 Gambling Capital, citada pela secretaria, 72% das apostas brasileiras estariam com plataformas legalizadas. “Para nós, é um dado bastante importante, animador, considerando que estamos falando de um ano e cinco meses de mercado regulado”, declarou Cardoso.

Na quinta-feira (19/6), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto que prevê bloqueio de recursos de bets ilegais pelas instituições financeiras. Dias antes, o BC havia anunciado que passaria a rastrear apostadores que fizessem depósitos em plataformas não autorizadas e as empresas que intermediam esses pagamentos. As instituições financeiras têm até 1º de dezembro para implementar a medida.

Para José Francisco Manssur, ex-assessor especial da Secretaria-Executiva do Ministério da Fazenda e um dos arquitetos da lei que regulamentou as bets, o ponto central está nos meios de pagamento. “O Banco Central tem que ficar no dia a dia dizendo; ‘olha, se você fizer uma operação para uma empresa ilegal, a gente vai tirar a autorização. Você não vai poder fazer nenhum tipo de operação, nem para a bet nem para nada'”, afirmou. Manssur também defende a proibição de publicidade e contratos com casas ilegais no país.

O advogado Pierpaolo Bottini, professor de direito penal da USP e especialista em crimes financeiros, aponta dois gargalos estruturais; as regras frouxas para intermediadoras de pagamento, que operam num limbo jurídico e conseguem mascarar transações ilegais, e a falta de comunicação sistemática entre Ministério da Fazenda, BC e Receita Federal. “O meio digital não exige uma estrutura física, não exige funcionários ou imóveis, de forma que é muito fácil você se fazer passar por uma instituição legalizada”, disse. Para ele, sem esse avanço regulatório, o ambiente continuará sendo “o mundo do crime”.

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva do início de 2025 mostrou que 78% das pessoas que apostam online têm dificuldades para distinguir plataformas legais das ilegais, o que alimenta o ciclo. As ilegais copiam nomes, cores e jogos das licenciadas para parecer legítimas. Enquanto a fiscalização corre atrás de domínios que se multiplicam mais rápido do que podem ser bloqueados, Bruno resume com precisão involuntária o que torna esse mercado tão resistente; diante do retorno potencial, o custo de entrada é, nas suas palavras, muuuuito barato.

 


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