Primeiro sorteio do Jogo do Bicho completa 134 anos e legalização avança no Senado

Em 3 de julho de 1892, numa tarde de domingo no Rio de Janeiro, bondes superlotados faziam a linha até Vila Isabel. A multidão queria ver o momento em que um pano seria descido, revelando o bicho do dia. O avestruz apareceu. Quem tinha a estampa do animal no bilhete saía com 20 réis no bolso, vinte vezes o valor pago na entrada.
Esse foi o primeiro sorteio do jogo do bicho, realizado há exatamente 134 anos. A data marca o início de uma das tradições mais persistentes do Brasil, que sobreviveu a proibições, décadas de clandestinidade e perseguição policial para chegar ao século 21 como prática diária de um estimado contingente de 20 milhões de brasileiros. Em 3 de outubro deste ano, serão também 85 anos desde que o Decreto-Lei nº 3.688 classificou o jogo como contravenção penal, tornando contraventores de todos que apostam nele.
Da fazenda do barão à rua
A história começa dois anos antes do primeiro sorteio. O Barão de Drummond mantinha o Jardim Zoológico de Vila Isabel, mas a queda da monarquia com a Proclamação da República pelo Marechal Deodoro da Fonseca lhe retirou o apoio governamental. Sem verbas, o Barão chegou a considerar fechar o zoológico em definitivo.
A saída veio de um fã improvável: o mexicano Manuel Ismael Zevada, que havia apresentado ao Barão uma modalidade chamada Loteria das Flores, originalmente criada na Rua do Ouvidor. Zevada sugeriu adaptar a ideia para bichos, usando os próprios animais do zoo como elemento central da aposta. O Barão se entusiasmou, encaminhou uma petição ao Conselho de Intendência Municipal e, em 13 de outubro de 1890, o termo aditivo ao contrato do Jardim Zoológico de Vila Isabel foi assinado. Estava oficialmente criado o jogo do bicho no Brasil. Zevada tornou-se o primeiro Diretor de Loterias da operação.

O funcionamento era simples: cada frequentador do zoológico recebia um bilhete com a estampa de um dos 25 animais do zoo e um número. Às 17h, o pano descia. O bicho vencedor definia os premiados. Quando o avestruz venceu no domingo de 3 de julho de 1892, o Diário do Commércio cobriu a inauguração na edição do dia seguinte com entusiasmo:
“Realizou-se ontem, como tinhamos anunciado, a inauguração da nova empresa do Jardim Zoológico. Às 3 horas da tarde partiram do largo do Rocio em direção a Vila Isabel, dois bonds especiais dessa companhia, levando os convidados daquela empresa, sendo precedidos de uma banda de música. Chegados ali foram os convidados recebidos pela administração do Jardim, que gentilmente acompanhou-os na visita geral. Às 5 horas desceu a caixa que continha a figura do animal que dominava o dia, de acordo com o programa. O avestruz foi o animal vencedor e que deu aos donos dos bilhetes respectivos os 20$ de prêmio. Após a vitória do avestruz a vitória do estômago. Deu-se começo pois a um lauto e profuso banquete de 100 talheres, havendo por esta ocasião brindes de saudações recíprocas. À festa compareceram muitas distintas senhoras, representantes da imprensa e outros muitos convidados.”

O sucesso foi imediato. Sobre a escolha pelos animais em vez das flores, o próprio Barão de Drummond explicou ao Diário do Commércio: “Flores são lindas. Mas animais são subúrbios do homem, nossos parentes.”
Mania e primeiros inimigos
Os bondes para Vila Isabel ficavam superlotados, especialmente aos domingos. Em poucos meses, os bilhetes saíram dos portões do zoológico e chegaram às lojas da cidade, que passaram a realizar sorteios paralelos. Sonhos e presságios alimentavam as escolhas dos apostadores. Uma multidão se reunia diariamente para ouvir os resultados.
O sucesso, porém, atraiu resistência rápida. Apenas 19 dias após a criação, campanhas nos jornais já acusavam o jogo de ameaça à moral pública. O jogo era enquadrado como azar, portanto condenável pelos bons costumes da época. Até o presidente Marechal Floriano Peixoto foi ao zoológico ver o sorteio, mas isso não protegeu a atividade; o governo passou a reprimi-la já no final da década de 1890. Em 1895, a proibição foi formalizada.
A morte do Barão de Drummond, em 7 de agosto de 1897, encerrou a fase original. Os contraventores assumiram a operação, transferindo os jogos para armazéns e botequins. A mudança de endereço foi também uma mudança de público: o jogo do bicho tornou-se a principal aposta dos mais pobres, a quem oferecia a possibilidade de um ganho extra sem exigir nada além de um bilhete barato e a esperança de uma estampa certa.

A lei que não extirpou
Em 1911, o jurista José Macedo Soares já havia percebido o que as décadas seguintes confirmariam. Sua observação mantém inteireza mais de um século depois: “O jogo proliferou e criou raízes tão profundas, que não será certamente a golpes de lei ou de arbitrariedades policiais que o poder público poderá extirpá-lo dos nossos costumes.”
A trajetória legislativa é um espelho dessa resistência. A atividade oscilou entre tolerância e perseguição por décadas. Em 1941, o Decreto-Lei nº 3.688 transformou o jogo em contravenção penal. As apostas cresceram. Em 1958, o governador fluminense Roberto Silveira chegou a legalizar a prática no estado do Rio de Janeiro, condicionando a liberação ao repasse de verbas para ações sociais. O governo de Jânio Quadros voltou a proibi-la em todo o território nacional. A Paraíba tornou-se o único estado a resistir à proibição federal; quando o presidente Castelo Branco pediu ao governador paraibano que vedasse o jogo no estado, a recusa foi justificada pela falta de empregos que a medida geraria.

Do bicho ao carnaval
A aproximação com o carnaval tem data e personagem. Na década de 1930, Natalino José do Nascimento, o Natal da Portela, era um homem de um braço só na escola de samba de Paulo, Rufino e Caetano. A infância pobre o levara ao emprego de ferroviário na Estrada de Ferro Central do Brasil. Um acidente nos trilhos custou-lhe o braço direito e, junto com ele, o emprego, por invalidez, após seis anos de serviços prestados.
Natal passou por biscates até tornar-se apontador do bicho. A escalada foi rápida até chegar a banqueiro do jogo em Madureira. Ali construiu uma reputação de benfeitor da região, um status de herói contraventor que abriu caminho para outros bicheiros. A partir de Natal, a tradição das escolas profissionalizadas de samba financiadas pelo jogo do bicho foi se consolidando, amarrando as duas maiores tradições populares do Rio de Janeiro numa relação que persiste até hoje.

134 anos depois
A proibição resistiu. O jogo também. Com 134 anos de operação ininterrupta, a prática diária de 20 milhões de brasileiros permanece classificada como contravenção penal, enquanto tramita no Plenário do Senado Federal o Projeto de Lei 2234/22, aprovado pela Câmara dos Deputados. Se aprovado sem alterações, o texto segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A legalização, defendem seus proponentes, livraria milhões de apostadores do enquadramento como contraventores e abriria à tributação uma atividade que já movimenta dinheiro diariamente em todo o país. O que o jurista Macedo Soares anteviu em 1911 é o mesmo argumento que ancora o debate no Senado 115 anos depois: a lei nunca conseguiu extirpar o jogo dos costumes brasileiros. A questão, agora, é se o Estado prefere regular o que não conseguiu proibir.


