Cassinos enriqueceram a vida noturna e trouxeram mais dinheiro para Las Mercedes

Cassino I 08.03.23

Por: Elaine Silva

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No bairro Las Mercedes, em Caracas, cassinos enriqueceram a vida noturna

Cai a noite na capital venezuelana e uma roleta com centenas de dólares em fichas gira velozmente em um hotel de luxo na zona leste de Caracas.

Os rostos dominados pela ansiedade acompanham a roleta, imóveis por alguns segundos, até que ela para de girar e um jovem solta um grito de alegria: ele acaba de ganhar US$ 500 (cerca de R$ 2,6 mil).

No outro lado da mesa, uma mulher elegante com cerca de 50 anos de idade franze rapidamente o nariz, hesita por dois segundos e aposta mais US$ 200 (cerca de R$ 1,03 mil).

Boa parte da capital venezuelana já descansa, protegendo-se da insegurança de Caracas. Mas a noite no bairro de Las Mercedes está apenas no começo.

Depois de muitos anos de decadência, devido à forte crise econômica do país, a agitada vida noturna desta região tranquila da capital conseguiu renascer, em parte, graças à liberalização e à economia que, na prática, foi dolarizada e volta a permitir os investimentos privados, ainda que ampliando as desigualdades do país.

“Las Mercedes era uma bolha dentro de uma bolha”, afirma Darwin González, político de oposição ao governo do presidente Nicolás Maduro e prefeito de Baruta, o município de Caracas onde fica Las Mercedes.

“Ela se tornou uma região privilegiada que não se parece em nada com o resto da Venezuela. Algumas pessoas vão a Las Mercedes e sentem uma distorção da realidade venezuelana”, admite ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

O prefeito chegou a afirmar que há “vários anos” não recebe relatos de criminalidade na região. Caracas é conhecida por ser uma das cidades mais violentas do mundo.

Os cassinos e a vida noturna

O prefeito de Baruta gosta do apelido de “pequena Manhattan”. Ele afirma que se sente “orgulhoso” por ter uma região que pode ser considerada “um exemplo” para o restante do país.

“O município conta com segurança jurídica, planejamento e apoio aos investidores. Por isso, conseguiu certo grau de desenvolvimento”, acrescenta ele.

Las Mercedes também foi beneficiada, em 2021, por uma reforma do governo de Maduro, autorizando a abertura de dezenas de cassinos no país – vários deles, neste bairro da capital. O jogo era ilegal na Venezuela há uma década.

O ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013) havia proibido os cassinos em todo o país, afirmando que eles contribuíam para a deterioração da sociedade. Chávez os comparava com a prostituição e o consumo de drogas.

Além de enriquecer a vida noturna, os cassinos trouxeram mais dinheiro para Las Mercedes. O prefeito afirma que esse dinheiro é usado para investir em setores desfavorecidos do município, alguns deles a poucos quilômetros do bairro.

À meia-noite, alguns dos clientes dos restaurantes de Las Mercedes começam a ir para os bares próximos, misturando-se com o público mais jovem que sai para comemorar. O bairro também passou a ser um ponto central da vida noturna de Caracas, que permaneceu decadente por muitos anos devido à crise e à insegurança.

A caminho das discotecas e dos bares da moda, os caraquenhos mais abastados exibem seus carros esportivos e caminhonetes de último modelo. Pela avenida principal de Las Mercedes, passam Ferraris e Maseratis, roncando seus motores e misturando-se com outros veículos muito mais modestos, alguns do início do século 21.

Parte da diversão noturna concentra-se nos cassinos. Em uma máquina caça-níqueis do cassino do hotel Tamanaco (um estabelecimento cinco estrelas no ponto mais alto de Las Mercedes), um jovem de 21 anos chegou de um bairro pobre no oeste de Caracas com US$ 50 (cerca de R$ 260) e continua apostando, mesmo depois de ganhar US$ 100 (cerca de R$ 520).

“Não havia comida em casa porque minha mãe perdeu o emprego recentemente, por isso vim tentar a sorte”, afirma ele, com os olhos fixos na roleta eletrônica.

“Costumo vir aqui e, às vezes, ganho, mas muitas vezes também perco”, prossegue ele, acrescentando que está tratando de “não se viciar”.

“No oeste de Caracas, também existem cassinos”, ele conta, “mas gosto mais de Las Mercedes porque aqui, na zona leste, cada um cuida de si e a experiência e o serviço são mil vezes melhores. É como estar em outro país.”

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