Lula, Dom Quixote e os gigantes das bets

Tal qual Dom Quixote, que confundia moinhos de vento com gigantes ameaçadores, o presidente Lula parece ter escolhido as bets como o grande inimigo a ser combatido — atribuindo a esse mercado problemas sociais muito maiores, mais antigos e mais complexos.
A comparação é uma provocação, mas ajuda a compreender a distorção do debate.
O jogo problemático existe. Precisa ser enfrentado com prevenção, limites, fiscalização, publicidade responsável e atendimento adequado. Isso, porém, é diferente de transformar todo um setor regulado no responsável pelo endividamento e pelos problemas de saúde financeira dos brasileiros.
O endividamento no Brasil é estrutural. Está relacionado, entre outros fatores, aos juros elevados, ao custo do crédito, à perda de renda e à dependência de milhões de famílias de empréstimos, financiamentos, cheque especial e cartão de crédito.
Ainda assim, enquanto os grandes bancos continuam registrando lucros recordes, as bets aparecem no discurso político como o principal “gigante” a ser derrotado.
Em período eleitoral, alguma teatralidade é previsível. O que não se pode aceitar é que essa necessidade política produza insegurança jurídica para empresas que confiaram nas regras estabelecidas pelo próprio Estado, pagaram licenças, contrataram profissionais, investiram em tecnologia e estruturaram suas operações para atuar legalmente no Brasil.
Saindo da linguagem anedótica, vamos aos fatos.
É difícil comparar diretamente atendimentos de saúde, mortes, endividamento, arrecadação, receita e lucro. São indicadores diferentes. Mas, quando colocamos as respectivas ordens de grandeza lado a lado, torna-se evidente a desproporção entre os dados disponíveis e o tratamento político dispensado ao mercado regulado.
Os números não demonstram que as bets sejam inofensivas. Demonstram que o debate exige contexto, proporcionalidade e coerência.
Combater o mercado regulado de maneira indiscriminada não elimina a demanda por apostas. Pode apenas enfraquecer as empresas fiscalizadas, destruir investimentos realizados de boa-fé e devolver consumidores ao mercado clandestino — onde não existem controles, arrecadação tributária nem mecanismos efetivos de proteção.
Dom Quixote atacava moinhos porque acreditava estar enfrentando gigantes. O Brasil não pode construir políticas públicas com base na mesma confusão.
A metáfora provoca. Os dados permitem julgar.
Veja os números nos infográficos:
Saúde pública, arrecadação tributária e dimensão econômica.








