Meu malvado favorito

Toda época escolhe um vilão que lhe poupa o trabalho de encarar a história inteira. O Brasil de agora entregou esse papel às apostas. A escolha se encaixa bem no repertório público de um país que prefere concentrar a indignação em um alvo recente, visível e controverso em vez de enfrentar a combinação menos atraente de juros altos, crédito caro, erosão do poder de compra, informalidade, baixa educação financeira e hábitos de consumo desorganizados que atravessa a vida econômica brasileira há muito mais tempo. Em matéria de debate público, um culpado reconhecível sempre oferece mais conforto do que uma realidade complexa.
O cinema resolve isso com facilidade. Toda narrativa precisa de um antagonista que concentre a tensão da história antes mesmo que o público compreenda o enredo. A vida real exige mais esforço intelectual. Problemas econômicos e sociais não cabem na gramática simplificada de uma animação, e o país empobrece sua própria percepção quando organiza conflitos estruturais apenas elegendo o personagem da vez. É o que está acontecendo com as apostas, que, em pouco tempo, viraram atalho retórico para angústias muito diferentes entre si, do endividamento familiar ao desconforto político de lidar com um mercado que cresce, ganha escala e obriga o país a discutir regulação com seriedade.
Essa simplificação encontra terreno fértil porque atende a interesses diferentes ao mesmo tempo. Políticos passaram a tratar apostas como explicação conveniente para males difusos. Varejo e serviços tentam enquadrá-las como vilãs da queda de suas receitas, como se o orçamento das famílias não estivesse comprimido por fatores muito mais amplos e anteriores ao avanço do setor. A cobertura geral, em muitos momentos, oscila entre escândalo, moralismo e conveniência causal, e o público, em sua maioria leigo no assunto, recebe fragmentos, exageros, meias verdades e fórmulas prontas que ajudam a moldar uma percepção coletiva limitada e aquém do que a realidade exige.
A indústria também colaborou para esse desequilíbrio ao concentrar sua inteligência em espaços que organizam muito bem a conversa interna e muito mal a sua tradução pública. Congressos, fóruns, summits, painéis e rodadas de negócios cumprem função real, porque é nesse ambiente que o setor aprofunda temas difíceis, fecha negócios, articula parcerias e fortalece a engrenagem técnica, econômica e institucional que sustenta sua evolução. O limite dessa estrutura aparece em outra camada, onde a densidade de um congresso setorial não se converte automaticamente em presença social e a robustez da agenda interna não garante, por si, que a sociedade em geral compreenda a legitimidade, a estrutura regulada e a diferença decisiva entre o ambiente que pode ser fiscalizado e o território que prospera justamente pela ausência de regra.
O jogo sem regra sempre existiu, e os problemas associados a ele também. A fase regulatória deu visibilidade institucional a uma realidade antiga, organizou melhor sua leitura pública e abriu espaço para respostas mais definidas. No campo da saúde, o Ministério da Saúde e o relatório interministerial de 2025 mostram que o SUS já registrava atendimentos relacionados a jogo patológico antes da fase regulatória recente, e a nova etapa permitiu estruturar linhas de cuidado, guia nacional e instrumentos de atenção mais coordenados. O mercado regulado e o jogo clandestino revelam realidades muito diferentes sob a mesma aparência. Quando a conversa pública apaga essa distinção, mistura operação autorizada com estrutura clandestina, fiscalização com opacidade, rastreabilidade com território sem lei e proteção ao consumidor com um ambiente em que o consumidor sequer existe como sujeito visível da regulação.
Nada expõe melhor essa leitura superficial do que o debate sobre endividamento familiar. O tema é sério, merece tratamento rigoroso e não se resolve com frases de efeito. O que se vê, porém, é a acomodação de uma narrativa em que haveria vínculo simples, direto e praticamente exclusivo entre apostas e deterioração financeira das famílias. Os próprios dados oficiais impedem essa acomodação. O BACEN estimou cerca de 24 milhões de CPFs realizando ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas no período analisado, registrou concentração maior entre 20 e 30 anos e valor médio mensal das transferências saindo de R$ 100 entre os mais jovens para patamares superiores a R$ 3 mil entre os mais velhos. No outro lado da equação, a PEIC da CNC apontou em março de 2026 que 80,4% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer, no maior nível da série histórica. Esse conjunto de dados não autoriza apagar os riscos do setor, mas também não sustenta a simplificação de atribuir às apostas, isoladamente, a deterioração financeira das famílias em um país atravessado por juros elevados, crédito caro, renda pressionada, informalidade e organização doméstica precária. Inserir apostas nessa equação é legítimo, mas transformar a equação inteira em acusação exclusiva a elas é fraude intelectual.
A seletividade desse debate fica ainda mais exposta quando se observa o silêncio que cerca as mazelas de saúde pública no Brasil. Obesidade, alcoolização, tabagismo, sedentarismo, consumo massivo de ultraprocessados e o avanço descontrolado do tempo de tela compõem um quadro de danos sanitários e econômicos muito mais amplo, duradouro e socialmente disseminado, grande parte dele ligada a formas normalizadas de vício, compulsão e consumo excessivo. Segundo o Vigitel 2024, mais de 62% dos adultos brasileiros estão acima do peso e 25,7% vivem com obesidade. Segundo o INCA, o tabagismo custa ao país mais de R$ 153 bilhões por ano. Nesse mesmo ambiente de permissividade cultural, o consumo de álcool segue amplamente naturalizado, mesmo diante de seus efeitos sobre violência, acidentes fatais, adoecimento e desorganização familiar.
No campo digital, o poder público e organismos internacionais tratam com gravidade crescente os efeitos do uso excessivo de telas sobre crianças e adolescentes, associando esse padrão ao agravamento de problemas de saúde mental, sono, sedentarismo e bem-estar, em um tema que segue avançando com espantosa naturalidade e desencadeia reações regulatórias e judiciais de grande escala em outros países. Ainda assim, alimentos industrializados, ultraprocessados e dinâmicas digitais de captura permanente de atenção continuam impulsionados por cadeias poderosas de publicidade, promoção e patrocínio, muitas vezes em contextos de alta exposição social, inclusive esportiva, incentivando o consumo desenfreado de streaming, produtos industrializados e álcool, sem atrair a mesma fúria moral e a mesma conveniência retórica dirigidas às apostas, como se advertências como “beba com moderação” ou “alto em açúcar adicionado” fossem suficientes para dissolver o problema.
Essa assimetria desmonta qualquer pose de neutralidade moral, porque o Brasil não distribui indignação pública de forma proporcional ao dano, mas de acordo com a utilidade narrativa de cada alvo. Algumas formas de excesso se acomodaram tão profundamente na paisagem econômica e cultural do país que quase nunca despertam a mesma urgência, o mesmo alarme e a mesma disposição para transformar consumo em escândalo. Outras oferecem rendimento imediato para a retórica política, para a manchete rasa e para a encenação moral do momento. É por isso que, em vez de perguntar apenas o que as apostas provocam na sociedade, vale perguntar quem ganha quando o país escolhe um malvado favorito para não encarar problemas muito maiores, muito mais antigos e muito mais normalizados.
O jogo regulado não resolve essa distorção respondendo a cada ataque com nota técnica, estatística isolada ou falas em painel especializado. A indústria ainda traduz mal a própria realidade. A diferença entre ambiente regulado e jogo clandestino deve ser explicada com clareza, assim como os riscos reais envolvidos em apostas sob regulação, sem entregar o debate inteiro à caricatura. Essa conversa precisa alcançar quem nunca entrou em uma conferência de iGaming, não domina o vocabulário técnico e só lembra do tema quando algum agente público o transforma em bode expiatório para o caos nacional. A agenda regulatória da SPA confirma que o país entrou em etapa mais densa, pautando temas fundamentais no biênio 2026-2027. Os fatos estão postos, mas o que ainda falta é a capacidade de convertê-los em linguagem pública compreensível.
O malvado favorito da vez cumpre sua função enquanto desvia a atenção da conversa que o país evita enfrentar. O Brasil escolhe seus culpados com velocidade muito maior do que encara os danos que realmente se espalham pela sociedade com profundidade, escala e permanência. Mazelas amplas, antigas e normalizadas continuam se espalhando sem despertar rigor equivalente. O conforto de apontar um vilão conveniente continua ocupando o espaço que deveria pertencer à compreensão da realidade.
(*) Éverton Sales atua no setor de Loterias e Apostas no Brasil desde a fase pré-regulatória do mercado, acompanhando sua estruturação, regulamentação e consolidação. Possui experiência em modelagem operacional, implantação de concessões estaduais e desenvolvimento de operações em canais físicos e digitais. Dedica-se ao estudo da indústria de apostas no país, da interação entre canais, do comportamento do consumidor, da dinâmica econômica e do desenvolvimento institucional no mercado legal do jogo no Brasil.


