Proibição de publicidade de apostas favoreceria mercado ilegal e prejudicaria economia, dizem executivos

Representantes de veículos de comunicação debateram a atuação da mídia no debate sobre restrições à publicidade de apostas durante painel do BIS SIGMA nesta quarta-feira (8). Magnho José, editor-chefe do BNLData, Paulo Saad, vice-presidente do Bandeirantes Group, e João Gallucci Rodrigues, sócio-diretor do Poder360, participaram da discussão.
O painel examinou como a mídia informa a sociedade e pauta discussões públicas. Os executivos analisaram os limites entre liberdade de comunicação, responsabilidade social e regulação. Eles concordaram que a atuação dos veículos contribui para a construção do cenário atual de debate sobre apostas.
Setor falha em comunicar benefícios à sociedade
Paulo Saad afirmou que o segmento de apostas carece de transparência. O vice-presidente do Bandeirantes Group defendeu que o setor não consegue comunicar adequadamente seus benefícios à sociedade. Segundo ele, as empresas precisam ser mais vocais e profissionais, utilizando recursos para mostrar iniciativas positivas e educar o público sobre suas contribuições econômicas e sociais.
João Gallucci Rodrigues concordou com a avaliação. O sócio-diretor do Poder360 destacou que as associações do setor precisam se coordenar para apresentar uma imagem única. Ele defendeu que as entidades devem buscar dados de alcance para dialogar de forma mais efetiva com a mídia.
Os participantes identificaram a desorganização do setor como um dos principais obstáculos para a construção de uma narrativa equilibrada. A falta de articulação entre as empresas e associações dificulta a apresentação de informações consistentes aos veículos de comunicação. Nesse contexto, dados recentes mostram que o setor de apostas esportivas movimentou R$ 36,9 bilhões no Brasil em 2025, segundo levantamento do Ministério da Fazenda, demonstrando a relevância econômica da atividade.
Jornalismo deve apresentar os dois lados da questão
João Gallucci Rodrigues afirmou que o papel dos veículos é narrar a verdade dos fatos. O executivo reconheceu que existem agendas editoriais contrárias ao setor de apostas. Ele defendeu que a função jornalística consiste em apresentar os acontecimentos de forma factual.
Magnho José apontou que a falta de experiência de alguns jornalistas em questionar pesquisas e estudos duvidosos contribui para a criação de narrativas negativas sobre o segmento. O editor-chefe do BNLData observou que essa deficiência técnica permite a disseminação de informações imprecisas.
Paulo Saad reforçou que os veículos têm o dever de mostrar os dois lados da história. O vice-presidente do Bandeirantes Group destacou que o setor raramente busca esses veículos para apresentar a realidade de suas operações e contribuições. Segundo ele, os veículos podem ter opiniões editoriais, mas devem manter o equilíbrio informativo. A importância desse equilíbrio se evidencia quando se considera que o setor gerou cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos em 2024, conforme dados da Associação Brasileira de Apostas Esportivas (ABRAE).

Restrição à publicidade prejudicaria economia e favoreceria mercado ilegal
Os participantes chegaram a um consenso de que a proibição da publicidade seria prejudicial para diversos setores da economia. João Gallucci Rodrigues destacou que o setor financia grande parte da mídia esportiva e dos clubes de futebol no país.
O sócio-diretor do Poder360 argumentou que a restrição impactaria a qualidade do jornalismo esportivo e o nível técnico dos esportes. A redução de recursos publicitários afetaria a capacidade de investimento dos clubes e a produção de conteúdo jornalístico especializado. Dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) indicam que os patrocínios de casas de apostas representaram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em investimentos nos clubes da Série A em 2024.
Paulo Saad argumentou que a proibição favoreceria o mercado ilegal. O executivo explicou que o consumidor migraria para plataformas não regulamentadas. Essas plataformas operam sem restrições na internet, sem fiscalização ou controle governamental.
O vice-presidente do Bandeirantes Group defendeu que a restrição à publicidade viola a livre iniciativa. Paulo Saad afirmou que o mercado ilegal continuaria operando livremente enquanto empresas regulamentadas enfrentariam limitações severas. A preocupação se justifica quando se observa que a arrecadação tributária do setor regulamentado deixaria de ser recolhidos caso o mercado ilegal se expandisse.
Endividamento tem causas anteriores ao crescimento das apostas
Magnho José observou que o endividamento da população é frequentemente atribuído às apostas. O editor-chefe do BNLData questionou a responsabilização exclusiva do setor por problemas financeiros que têm causas mais amplas. Ele destacou que fatores macroeconômicos anteriores são ignorados nessa análise.
Paulo Saad criticou o fato de o setor ser atacado enquanto outros, como o bancário, possuem práticas de juros mais danosas. O executivo chamou o sistema bancário de “vampiro” devido às altas taxas de juros. Ele estabeleceu um contraste com o setor de apostas.
O vice-presidente do Bandeirantes Group destacou que essas práticas bancárias não recebem o mesmo escrutínio público que o setor de apostas. Existe uma desproporção no tratamento dado a diferentes segmentos econômicos. Dados do Banco Central mostram que a taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito atingiu 431% ao ano em 2024, enquanto estudos indicam que apenas 2,3% dos apostadores apresentam sinais de jogo problemático, segundo pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Mercado ilegal representa até 40% do total
Magnho José ressaltou sua preocupação com a concorrência desleal entre o mercado legal e o ilegal. O executivo da BNLData estimou que o mercado ilegal de apostas representa entre 35% e 40% do total. Essa concorrência prejudica as empresas regulamentadas e dificulta o controle sobre a atividade.
Tema é explorado politicamente em processos eleitorais
O painel discutiu como o setor de apostas pode se tornar um alvo fácil no processo eleitoral. João Gallucci Rodrigues mencionou que o governo utiliza a pauta para buscar votos. Ele comparou o tema a questões como drogas e aborto.
Paulo Saad lembrou a incongruência do governo em querer restringir o setor privado enquanto a Caixa Econômica Federal explora loterias há mais de 100 anos. O executivo apontou a contradição de criticar apostas enquanto o governo mantém monopólio em jogos de azar.
O vice-presidente do Bandeirantes Group ressaltou que o setor é um alvo fácil para o discurso político. Paulo Saad afirmou que políticos exploram o tema sem considerar as contradições nas políticas públicas existentes sobre jogos e loterias.
Os participantes concordaram que a discussão sobre restrições à publicidade de apostas envolve questões complexas que vão além da simples proibição. O debate abrange aspectos econômicos, sociais, regulatórios e políticos que exigem análise cuidadosa e equilibrada por parte da mídia e da sociedade. A regulamentação do setor, implementada pela Lei 14.790/2023, estabeleceu regras claras para operação, tributação e publicidade, criando um marco legal que busca equilibrar desenvolvimento econômico e proteção ao consumidor.


