Qual o impacto no setor de apostas do programa Desenrola 2.0?

Apostas I 05.05.26

Por: Magno José

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BNLData 451
Se considerarmos o Desenrola 1.0 como referência, a restrição poderá atingir 562 mil apostadores ativos entre 20 mi de beneficiários esperados na vertical ‘família’ e uma redução de R$ 822 mi por ano na arrecadação das plataformas reguladas segundo cálculo do BNLData

O programa Desenrola 2.0 impõe restrições para apostas em plataformas de bets aos participantes que optarem pelo parcelamento de dívidas. Divulgado nesta terça-feira (5), o programa estabelece suspensão de um ano para apostas dos endividados que ingressarem no refinanciamento. O governo federal estabeleceu como objetivo alcançar 20 milhões de beneficiados na vertical ‘família’ da iniciativa.

O Desenrola 1.0 começou a funcionar em julho de 2023 para auxiliar na renegociação de dívidas acumuladas durante a pandemia. A iniciativa anterior previa beneficiar 30 milhões de pessoas. O programa alcançou apenas 15 milhões de brasileiros endividados.

Entre os 15 milhões de devedores que participaram da primeira versão, 43% possuíam dívidas inferiores a R$ 100. Do total de endividados, 57% optaram pela quitação à vista de seus débitos. No programa anterior, 3,25 milhões de participantes escolheram parcelar suas dívidas. Esse grupo representa 21,67% do total.

Especialistas ouvidos pelo BNLData têm expectativa sobre a possibilidade dos participantes que quitarem suas dívidas à vista não sejam suspensos de apostar nas plataformas de bets. Considerando essa possibilidade, apenas quem parcelasse as dívidas do Desenrola 2.0 ficaria impedido de apostar pelo período de um ano.

Impacto no mercado de apostas

Segundo os dados oficiais divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF sobre o mercado de apostas esportivas e jogos online de 2025, o mercado de bets no Brasil registrou receita bruta de R$ 37 bilhões de GGR com uma base de apostadores de 28 milhões de CPFs. Esse número representa 12,96% da população brasileira. O tíquete médio dos apostadores ficou em R$ 122 por mês, segundo os dados da SPA-MF. O valor anual por apostador alcança R$ 1.464.

Os dados oficiais da SPA-MF e a expectativa do governo de atingir 20 milhões de beneficiados, serviram como base para calcular o impacto real do Desenrola 2.0 no setor de apostas. Uma projeção inicial indicaria que 21,67% ou 4,334 milhões de pessoas estariam impedidas de apostar ao aderir ao programa Desenrola 2.0. Esse cenário geraria um impacto financeiro anual na indústria de apostas de R$ 6,345 bilhões no volume apostado (4,334 milhões de pessoas x R$ 1.464). O cálculo considera que todas as pessoas que parcelaram suas dívidas realizariam apostas.

A premissa não corresponde à realidade já que em 2025, apenas 12,96% dos brasileiros apostaram. Aplicando os percentuais do Desenrola 1.0 aos dados oficiais do mercado de bets divulgados pela SPA-MF e a expectativa do governo de atingir 20 milhões, os brasileiros impedidos de apostar que aderirem à vertical Família seriam 2,592 milhões (12,96% de 20 milhões).

Desse total, os impedidos de fato seriam apenas 562 mil pessoas (21,67% de 2,592). Esse número considera aqueles que parcelam as dívidas e são apostadores. O impacto financeiro anual na arrecadação das bets seria de R$ 822,7 milhões (562 mil x R$ 1.464).

Pessoas que já participam de programas como o Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada já estão impedidas de apostar. Segundo um operador do setor, esse público chega a 20% de rejeição das novas aquisições. Essa parcela da população reduziria ainda mais o impacto nas bets do programa Desenrola 2.0.

Os endividados incluídos no programa Desenrola 2.0 não estarão impedidos de apostar nas operações reguladas das bets das Loterias Estaduais, sendo a opção legal e regulada.

Mas a maioria desses participantes migrará automaticamente para o mercado ilegal, já que esta possibilidade não possui impedimento para receber as apostas de endividados. O mercado informal não apresenta restrições para participantes do programa Desenrola 2.0, do Bolsa Família e do BPC.

E aí entra a velha e surrada tese do editor do BNLData: os políticos deveriam pensar bem antes de transformar as boas intenções em novos negócios para o crime organizado. Quem quiser apostar, e não puder fazê-lo de acordo com a lei, irá buscá-lo no mercado informal.

 

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