Motoboys de app gastam R$ 100 mensais em bets e 40% usam jogos para renda extra

Apostas I 07.05.26

Por: Magno José

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Motoboys de app gastam R$ 100 mensais em bets e 40% usam jogos para renda extra
Pesquisa da Trampay com 6 mil motoboys revela que 32% apostam em jogos online para complementar renda de R$ 2,4 mil, mas maioria enfrenta emergências financeiras e apenas 10% conseguem fazer reservas de dinheiro no período

A startup Trampay realizou levantamento com 6 mil motoboys ativos em plataformas de delivery durante 2025. Os dados revelaram que 32% desses profissionais fizeram apostas online no período de um ano. O estudo identificou que 40% dos apostadores utilizam o dinheiro dos jogos para complementar a renda mensal.

A fintech oferece conta digital para 35 mil entregadores desde 2020. Já emprestou R$ 200 milhões e movimentou R$ 3 bilhões para essa categoria, com inadimplência próxima de zero. Os dados da pesquisa foram divulgados pela Folha de S.Paulo e revelam um cenário preocupante sobre a relação entre trabalhadores de aplicativos e jogos de azar.

O mapeamento mostrou que os motoboys que apostam investem em média R$ 100 mensais em jogos de azar. Entre esses trabalhadores, 34% enfrentam emergências financeiras. Apenas 10% conseguem fazer reservas de dinheiro.

A pesquisa apontou que 65% dos apostadores vivem dificuldades financeiras. As principais são dívidas com veículos, despesas domésticas e manutenção da motocicleta. Parte desses profissionais ampliou a jornada de trabalho para cobrir gastos emergenciais. A falta de acesso a crédito formal leva esses trabalhadores a recorrerem a empréstimos de terceiros ou agiotas.

“São homens de baixa renda, negros, de periferia, entre 18 e 33 anos, cujos ídolos estão oferecendo bets o tempo inteiro”, diz Jorge Caldas Júnior, CEO da Trampay, sobre o perfil entrevistado.

Os entrevistados associaram as apostas a palavras como dinheiro, diversão, ganhos extras, emoção e adrenalina. A Trampay interpreta essa resposta como combinação de entretenimento e esperança de melhorar a situação financeira. A renda média dos entregadores é de R$ 2.400.

“Eles têm apetite por adrenalina. E como julgam não conseguir pagar parte das dívidas com sua renda [média de R$ 2.400], apostam para tentar ganhar mais dinheiro. O que no final do dia não acontece e vira uma bola de neve”, diz Jorge.

Os números da Trampay estão alinhados com levantamento do Datafolha de 2024. Aquela pesquisa indicou que 30% dos brasileiros entre 16 e 24 anos já apostaram.

A Trampay foi fundada por um filho de motoboy. O mapeamento integrou a primeira edição do TD Impacta, plataforma de apoio e investimento para negócios de impacto criada pelo Programa Tesouro Direto em parceria com a B3 e com execução da Artemisia.

Com base nos dados obtidos, a fintech desenvolveu iniciativa de educação financeira. Criou um curso rápido, em parceria com uma motoqueira influenciadora, para conscientizar entregadores sobre gestão financeira e riscos das apostas digitais. Ao final do curso, a empresa ofereceu R$ 40 em forma de primeiro investimento no Tesouro.

Jorge Caldas Júnior avaliou que o programa governamental que permite investir em títulos públicos federais é democrático, mas focado em perfil de investidor mais qualificado.

“O rito para ingressar no Tesouro Direto envolve páginas e páginas, abrir conta, corretora. Já as bets, com dois cliques você está dentro. Estamos lidando com problema de UTI e o governo ainda está na triagem, entendendo o que pode ser feito.”

O CEO da Trampay apontou a discrepância entre a complexidade para investir no Tesouro Direto e a simplicidade para acessar plataformas de apostas online. Destacou que trabalhadores em condições precarizadas enfrentam barreiras para investir, mas encontram facilidades para apostar.

“Que tipo de recado estamos dando para a base da pirâmide ao mostrar que investimento é só para a primeira camada da população e que para eles sobram apostas e dívidas? A gente precisa remediar. E o remédio é a educação financeira.”

Jorge afirmou que soluções oferecidas por negócios de impacto podem acelerar o enfrentamento do problema. Os trabalhadores afetados lidam com condições precarizadas e chegam a rodar 14 horas por dia sobre uma moto.

 

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