Quem é Carol Martins, a jogadora que quer levar mais mulheres ao pôquer

Pôquer I 26.11.23

Por: Magno José

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Quem é Carol Martins, a jogadora que quer levar mais mulheres ao pôquer
Carol Martins joga pôquer profissionalmente há dez anos, e já ganhou mais de 20 troféus em competições nacionais

A paulistana Carol Martins foi uma aluna estudiosa, quase nerd, tirava ótimas notas tanto em matérias de humanas quanto de exatas. Também sempre quis ser atriz. Criança, era quem fazia apresentações de fim de ano para a família. A junção dessas habilidades fez com que ela, hoje com 41 anos, se tornasse uma das mais conhecidas jogadoras de pôquer do Brasil, que se vê como embaixadora da presença feminina neste mundo ainda dominado pelos homens. “Eu quero representar as mulheres e trabalhar para trazer muitas outras. Quero ser um espelho. Ainda somos poucas jogadoras profissionais”, diz Martins.

Ela também é atriz, durante oito anos foi apresentadora do programa “Be Fashion” no Canal São Paulo, da extinta TVA, e é empresária, sócia da Mox Produções, que desenvolve audiovisuais para grandes empresas. Há quatro anos lançou um livro chamado “Cartas estranhas para amores inventados”, uma coleção de cartas que escreveu e entregou para suas paixões. A contracapa do livro traz um texto da escritora Fernanda Young, sua amiga, que a encorajou a publicá-lo.

Ela joga pôquer profissionalmente há dez anos, e já ganhou mais de 20 troféus em competições nacionais. Conheceu o esporte em 2011. Na época, morava com uma de suas melhores amigas, e o namorado desta um dia a convidou para jogar pôquer na casa da família dele. “Eu não sabia nada. Eles jogavam todas as quintas e eu fui. Sempre fui fetichista, achava o pôquer um jogo sexy […] Eu gostei, passei a ir com ele toda semana e logo comecei a ganhar deles, a ganhar dinheiro.”

Jogando ela se descobriu uma mulher competitiva. A partir dali passou a estudar, comprou livros, fez cursos com jogadores, via horas e horas de campeonatos online. “O pôquer não é um jogo de azar”, diz. “É um dos jogos mais complexos que existem, só perde para o xadrez em relação à habilidade mental. É um jogo estratégico.”

Quando quis jogar ao vivo, descobriu as casas de pôquer e foi conhecer o H2 Club, que ficava no Itaim e hoje se localiza em Pinheiros. Até hoje ela frequenta o H2, onde muitos famosos, artistas e atletas são vistos. Ronaldo Fenômeno já esteve no clube. Em junho passado Jimmy Butler, uma das estrelas da NBA, passou por lá para jogar ao lado de seu parça Neymar. “Em 2018 joguei em uma mesa com Neymar e o eliminei do torneio”, lembra Martins.

Acabou chamando a atenção de Felipe “Mojave” Ramos, um dos primeiros e mais importantes jogadores brasileiros, hoje embaixador do site GG Poker, que a convidou para fazer parte do seu time de jogadores. Martins foi a primeira mulher a fazer parte desse time.

Dois anos mais tarde foi contratada pelo Step Team Poker, em que ficou durante um ano e meio, passou a jogar apenas online. “Tive mentores, reviews, eu jogava dez horas por dia todos os dias e jogava vários torneios, 10, 20 ao mesmo tempo, eram estratégias diferentes, me dividia entre várias telas. Depois eu estudava. Era insano, mas todos os jogadores online fazem isso. Eu costumo dizer que o jogo online é como um MBA do pôquer. É matemática pura. E é lá também que está a maior parte do dinheiro”, explica ela, para quem os jogadores brasileiros estão entre os melhores do mundo porque são focados e têm um instinto competitivo muito forte.

De cinco anos para cá, Martins começou a trabalhar apenas com investidores, empresários que normalmente jogam pôquer de forma recreativa e apostam nos bons resultados que ela pode trazer. “Tenho um deal com cinco investidores, jogo para eles e divido o que ganho. Eu jogo basicamente no Brasil, mas também vou para Vegas todos os anos, jogo o WSOP (World Series of Poker). Fico lá 45 dias entre junho e julho. Você passa o dia jogando”, conta.

Desde março do ano passado ela também é patrocinada pelo PokerStars, um dos maiores sites de pôquer do mundo. É a primeira jogadora brasileira contratada pelo site.

Como uma das poucas mulheres nesse mundo, Martins enfrentou vários assédios, morais e sexuais. “No começo eu ouvia muita coisa. Flertes, convites para passar uma noite com eles, me mandavam vídeos pornôs. Quando descobriram que eu era gay, os convites eram para encontros a três, me ofereciam mulheres. Mas com o tempo isso foi diminuindo. Eu sempre enfrentei, respondi, não me intimidava e me impus. Isso não quer dizer que eu não tenha chorado no banheiro. Também aconteceu. Hoje me sinto respeitada.”

Foi pensando nisso tudo que Martins decidiu criar cursos de pôquer para mulheres. Eles são relativamente rápidos, para iniciantes. Começaram antes da pandemia e seguem até hoje. Podem ser cursos individuais ou em grupos e duram em média quatro horas. “Criei esse coaching porque gostaria de ter aprendido assim quando comecei, mas não havia nada. Me sentia solitária, ainda me sinto”, diz. A atriz Thaila Ayala foi uma de suas alunas.

Tantos anos de experiência a fizeram descobrir várias vantagens que mulheres têm em uma mesa de pôquer. “Mulheres são infinitamente mais detalhistas. Eu ainda fiz curso de atriz, e todo ator é um bom observador. Presto atenção nos gestos, no batimento cardíaco na jugular, observo se a pessoa está mentindo, blefando. Quanto mais você observa, mais descobre sobre o padrão do jogador. (VALOR)

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