Regulação federal divide o governo sobre inovação e risco no mercado

Apostas I 04.08.26

Por: Magno José

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CVM busca entender novos modelos antes de restringir, enquanto SPA-MF foca em riscos sociais e controles para apostas; entenda

Dois órgãos federais regulam mercados distintos no Brasil, mas a forma como cada uma comunica sua função revela filosofias regulatórias em sentidos opostos. De um lado, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), vinculada ao Ministério da Fazenda, sinaliza disposição para compreender novos modelos antes de restringi-los. Do outro, a Secretaria de Prêmios e Apostas – SPA-MF, também sob o Ministério da Fazenda, projeta um discurso centrado em riscos, proteção social e endurecimento de controles.

O contraste emerge das manifestações públicas recentes dos dois órgãos e aponta diferenças concretas na abordagem com que cada regulador enxerga seu próprio mercado.

Inovação versus contenção

No caso das chamadas “caixinhas” — novos instrumentos de investimento coletivo —, a CVM optou por investigar a natureza jurídica do produto antes de qualquer restrição. A lógica declarada é a proporcionalidade; entender o que se regula para depois decidir se, e como, intervir. A mensagem institucional pode ser resumida como “regular sem impedir inovação”, com ênfase em segurança jurídica, desenvolvimento do mercado e equilíbrio regulatório.

Os riscos priorizados pela autarquia são assimetria de informação, proteção do investidor e estabilidade do mercado financeiro — todos eles ligados ao funcionamento do sistema, não ao comportamento do usuário.

O ministro da Fazenda aborda em contextos diferentes, como manifestado no evento da Corretora de Investimentos ‘Expert XP’, evento que abordou os respectivos mercados.

As declarações recentes do ministro Dario Durigan enfatizam riscos sociais, restrições à publicidade, combate ao mercado ilegal, prevenção à lavagem de dinheiro e proteção das famílias. Em alguns pronunciamentos, o ministro chegou a comparar apostas ao tabaco. A narrativa institucional é de regulação baseada em mitigação de riscos e fortalecimento dos controles estatais.

Proibição fora de cogitação, rigor em pauta

Há, porém, um ponto em que o discurso do ministério recusa o extremo; Durigan não defende a proibição total das apostas. O próprio ministro reconhece que uma vedação completa poderia fortalecer o mercado ilegal — e advoga, em vez disso, por regulação rígida como caminho.

Essa posição evita a leitura mais simplificada, segundo a qual o órgão seria apenas restritivo. A ressalva, no entanto, não altera o tom predominante das manifestações públicas recentes; o foco da SPA-MF permanece voltado à contenção de riscos, com pouco espaço dedicado ao potencial econômico ou inovador do mercado que regulamenta.

A comparação entre os dois órgãos deixa evidente uma assimetria de enquadramento. A CVM tende a comunicar seu papel como o de viabilizar inovação com segurança jurídica. A SPA-MF, pelas declarações mais recentes do ministro, apresenta a regulação como instrumento de proteção — com ênfase nos danos que o mercado pode causar, não no que pode gerar. Os dois recortes pertencem ao mesmo governo e ao mesmo ministério, mas traduzem visões regulatórias que apontam em direções distintas.

 

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