Simplicidade fatal: Sem mudar hábitos depois de ganhar a Mega-Sena, Jonas foi sequestrado e morto

Loteria I 21.09.22

Por: Elaine Silva

Compartilhe:
Morte de ganhador da Mega-Sena: Polícia procura dois dos quatro suspeitos pelo assassinato de vencedor da Mega-Sena
Jonas Lucas Alves Dias, de 55 anos, manteve os hábitos simples, mesmo após ter ganho uma bolada de R$ 47 milhões na Mega-Sena, no dia 7 de setembro de 2020

Na manhã de 13 de setembro, câmaras de vigilância das ruas de Hortolândia, no interior de São Paulo, registraram um homem de calça jeans, camiseta branca, boné verde e um casaco preto deixando uma padaria. Após entregar os pães que comprou com a irmã, ele continua a andar pela rua. Jonas Lucas Alves Dias, de 55 anos, manteve os hábitos simples, mesmo após ter ganho uma bolada de R$ 47 milhões na Mega-Sena, no dia 7 de setembro de 2020. Essa decisão contribuiu para que o milionário fosse vítima de um sequestro naquela manhã, que culminou em seu assassinato.

O crime foi premeditado e executado por pelo menos quatro pessoas, de acordo com a Polícia Civil, que já prendeu dois suspeitos: Rogério de Almeida Spínola, de 48 anos, e uma mulher trans, Rebeca Messias Batista Pereira, de 24 anos.

Ambos negam participação nos crimes. Os policiais buscavam ontem Marcos Vinycius Sales de Oliveira, conhecido como Vini, e Roberto Jeferson da Silva, apelidado de Gordo.

As mesmas câmeras de vigilância que mostraram o milionário deixando a padaria registraram a movimentação de dois carros que o seguiam: uma picape Chevrolet S10 prata de Vinycius e o Ford Fiesta preto de Jeferson. Enquanto rodavam o bairro onde andava Jonas, eles chegaram a passar ao lado da vítima, até que o milionário fosse levado à força para a S10.

Após ser extorquido em mais de R$ 20 mil, Jonas recebeu tantas pancadas na cabeça antes de ser liberado pelos criminosos que morreu, logo depois de ter sido encontrado gravemente ferido, mas ainda vivo. Ele foi abandonado às margens da Rodovia SP-101, num acesso à Rodovia dos Bandeirantes, na altura do bairro Jardim São Pedro, em Hortolândia.

Tentativa de saque

A polícia sabe que os criminosos tentaram fazer com que Jonas sacasse R$ 3 milhões por telefone. O milionário foi obrigado a pedir o saque, em mensagens de áudio, ao gerente da sua agência bancária. Mas o responsável pela conta desconfiou da transação com um valor tão alto e não a autorizou.

“Não chegou nada do comprovante, consegue agilizar isso para mim?”, diz Jonas em uma das mensagens de áudio, divulgadas pelo Fantástico, da TV Globo. “Tô aqui na fazenda, preciso fechar isso aqui hoje”, afirma, em outro momento, ao gerente da conta bancária. O insucesso teria feito os sequestradores se irritarem e agredirem mais a vítima.

Segundo a delegada Juliana Ricci, da Divisão Especializada de Investigações Criminais de Piracicaba (SP), foram detectadas, no dia do crime, três movimentações financeiras na conta de Jonas: dois saques no valor de R$ 1 mil cada e uma transferência via Pix de R$ 18,6 mil.

Suspeito filmado

A polícia também teve acesso à câmera de uma agência bancária que flagrou o momento em que Vini foi a um caixa eletrônico tirar dinheiro em nome de Jonas, usando cartões de crédito e as senhas fornecidas pelo milionário.

Os investigadores acreditam que Jonas tenha ficado em poder dos bandidos por até 20 horas.

— O veículo preto foi utilizado para deslocamento da vítima até uma agência bancária, onde foram feitos saques e habilitação do aplicativo para movimentação via Pix. Também foi identificado pelas câmeras de segurança, principalmente do banco, que foi o proprietário da caminhonete prata que habilitou no caixa eletrônico o aplicativo de telefone para movimentar a conta da vítima e fez dois saques de R$ 1 mil — descreveu a delegada.

Várias pessoas foram ouvidas pela polícia na investigação, incluindo um companheiro da mulher trans presa, que foi liberado em seguida. Foram autorizadas quebras de sigilo bancário e telefônico pela Justiça, além de recolhidos os vídeos que contribuíram para a elucidação do crime.

Os investigadores não descartam a participação de outras pessoas no crime e tentam descobrir como os suspeitos chegaram a Jonas. Os dois carros usados na empreitada não haviam sido achados até ontem.

Primeiro a ser preso, Rogério Spínola já tinha passagens pela polícia por crimes como roubo, furto, homicídio, estelionato e lesão corporal, e foi solto em dezembro, depois de cumprir pena de 15 anos de prisão. Os investigadores não revelam qual teria sido a participação de Spínola no esquema. Marcos Vinicyus tem anotações por estelionato, receptação e deixou a penitenciária em setembro de 2021.

Spínola e Rebeca foram presos em Santa Bárbara d’Oeste, a 34 km de Hortolândia. Os investigadores acreditam que ao menos parte do dinheiro roubado tenha sido enviado a contas de Rebeca.

Jonas foi sepultado na sexta-feira, em um cemitério no município vizinho de Sumaré, em uma cerimônia que reuniu dezenas de pessoas e mostrou a popularidade do milionário na cidade em que viveu, apesar do estilo de vida reservado. Conhecido como Luquinhas em Hortolândia, por ser o mais novo de três irmãos, ele não era casado e também não tinha mais os pais vivos. Morava na mesma casa onde já residia antes de se tornar milionário, que reformou com o dinheiro, ao lado do irmão e da irmã. Gostava de pescar, de jogar em máquinas caça-níquel e de tomar cerveja com amigos nos bares de Jardim Rosolém, o bairro onde cresceu.

“Cadê seu chinelo?”

O advogado Alessandro Henrique de Oliveira, de 45 anos, conhecia Jonas há pelo menos 20 anos. Os dois cresceram em bairros vizinhos, mas frequentavam os mesmos bares. Na semana passada, depois da morte do amigo, Oliveira contou que ele era tão simples que costumava andar descalço pelas ruas de Hortolândia.

— A gente perguntava: ‘Cadê seu chinelo?’. E ele dizia: ‘Ah, saí de casa descalço mesmo’. Ele tinha esse tique, falava um ‘ah’ antes das frases, como se não estivesse ligando muito — recordou Oliveira.

Quando ganhou o prêmio, a notícia de que um morador de Hortolândia havia sido o beneficiário se espalhou. Oliveira lembrou que, no fim de semana seguinte ao sorteio, encontrou o amigo no bar, que havia deixado caixas de cerveja pagas para os companheiros. “Foi você quem ganhou o prêmio?”, brincou o advogado. Jonas pôs o dedo na boca e respondeu: “Shhh”.

Depois da Mega-Sena, diz Oliveira, Jonas ajudou os irmãos e um ex-chefe com dinheiro, e comprou uma casa para um amigo. Com o crime, os irmãos se mudaram, com medo de serem alvo de violência.

Para si, Jonas comprou um pesqueiro que transformou em sítio, na cidade de Conchas, e três carros. O sítio se tornou ponto de encontro dos amigos. Oliveira contou na semana passada que sempre alertava Dias sobre a sua segurança. Mas ele não parecia se importar.

— Eu dizia: ‘se fosse você, já estaria na Europa’. E ele respondia: ‘Fazer o que lá? Nem inglês eu sei falar’ — contou o amigo.

O contador Luiz Carlos Pereira, vizinho de Dias, reforçou a simplicidade.

— Nem parecia que era milionário. Tinha amizade com todo mundo do bairro — definiu Luiz Carlos. (O Globo – Arthur Leal e Aline Ribeiro)


Compartilhe: